Pré-Caju, uma festa de muita alegria.

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Quando eu era criança, cerca de sessenta anos passados, o carnaval de Aracaju acontecia na Praça Fausto Cardoso, não mais que duzentos metros da minha residência, na Rua de Pacatuba, bem próximo da folia.

Ali na Rua de Pacatuba passava tudo, de cortejo fúnebre, passeata de estudante, muitas procissões e desfile cívico-militar de Sete de Setembro. O mesmo acontecia com algumas “caretas”, assustando as crianças por conta dos festejos momescos, com serpentina, confete e lança perfume.

Naquele tempo o lança perfume não era proibido. Não se falava em tóxico ou insinuação de dependência de porre, algo que só ousados o tentavam, que não era o meu caso.

A brincadeira no meu entorno era usar o lança perfume entremeado de muito riso e cor. O perfume gelado por evaporação suscitava a alegria, como se existisse uma guerra declarada, em que todos se combatiam, não havendo, nem aliados nem contendores.

O que diferenciava era a marca do lança-perfume, alguns com embalagem de vidro, que segurávamos com um lenço, evitando ferimentos por uma quebra acidental, e outras mais seguras, por metálicas.

Uma dessas marcas de vidro, salvo engano, chamava-se Colombina. Quanto àquela metálica, o fabricante era Rodo, Rodouro, cuja válvula mais sofisticada ensejava melhor status ao seu portador.

Mas, quem não tinha a posse de lança-perfume, podia se vingar com serpentina ou confete, em baixo custo e acessível a quase todos, e porque sempre era possível ajuntá-los do chão, por mãozinhas lestas e sôfregas numa idêntica alegria.

Havia aqueles que por excesso de confiança, modismo ou estripulia, resolvia cheirar o jato de éter perfumado, tomando porre, como se dizia então, um perigo que enaltecido, ampliado e desmedidamente condenado, iria conduzir à proibição de vendas de lança-perfume nos carnavais.

Por este tempo o surgimento dos plásticos colocou no mercado carnavalesco os lança-água, mais baratos, hoje até fora de moda.

Mas o Carnaval de Aracaju não possuía a mesma alegria da feirinha de Natal, na Praça da Catedral, com o Carrossel de Tobias pontificando, aviões, barcos, bancas de rifa, pescaria, jogos de pio, de azar, loteria, roletas com palhetas cadenciadas, alegria que iniciava antes de Oito de Dezembro, Festa da Padroeira, Senhora da Conceição, varava Ano Bom e se estendia até 31 de Janeiro, por autorização Municipal.

O carnaval era alegre, mas não era uma festa de multidão como as feirinhas natalinas.

As Escolas de Samba e os Ranchos Carnavalescos eram uma imitação tosca do desfile de Momo Carioca, que despertava alguma assistência, nada que se comparasse a uma grande participação popular.

No mais o Carnaval era brincado nos Clubes; Cotinguiba, Vasco, Associação Atlética, o tricolor da Vila Cristina e depois o Iate Clube, cujos carnavais iniciais alardeavam a frevosíssima banda de Paraguaçu.

Com o advento do Violão Elétrico, os “Paus de Corda” transformados em Trios Elétricos passaram a dominar o Carnaval, banindo o instrumental de sopro e concertina.

A música baiana destronou o frevo pernambucano, as marchas rancho cariocas e o Axé Baiano nos invadiu enquanto preferência.

Na verdade a invasão fora a resultante de fugas sucessivas. O povo de Aracaju fugia para os hotéis de Salvador, disputando abadás, atrás de trios elétricos, para se sentirem plenamente vivos.

É aí, que um jovem, Fabiano Oliveira, teve uma ideia notável. Se Aracaju queria curtir o Carnaval da Bahia, por que não trazê-lo, enquanto prévia de aquecimento, permitindo que aqui se curtisse um festejo popular, aberto a todos, sem exceção, com pipoca, suor e cerveja?

A ideia foi um sucesso! Um resultado tão destacado varou os vinte anos, Fabiano não é mais tão jovem assim, mas continua alegrando o Carnaval, como nunca, em nossa cidade.

Mas, se “ninguém é profeta em terra própria”, na nossa cidade parece que o desprezo por própria criação assume contornos tão esperados, quão previsíveis na crítica e destruição.

Parece, nas vésperas do Pré-Caju 2013, que só sobressai o noticiário que o denigre. Há um amplo comentário atentando contra a sua realização, tudo porque alegra o povo. E para estes, “o povo não deve se alegrar. Isso é alienação. É um verdadeiro ópio por ilusão”.

O comércio de bens e serviços odeia o Pré-Caju porque muito dinheiro é gasto com refrigerantes, cerveja, churrasquinho e sanduiches. E quem não comercializa tais deleites vê com supremo desapontamento o ambulante vendedor que amplia o seu orçamento na disputa democrática dos espaços da avenida.

Aqueles tidos “detentores e proprietários da Avenida”, enquanto espaço público, revoltam-se com o seu uso, entendendo que os blocos devem ser cobrados, espoliados até se possível com um IPTU, um ISS, ou um laudêmio do SPU, só pela suprema heresia de exploração do solo público em excessiva poluição sonora, e ainda mais com a separação por cordas, inibindo a alegria que deveria ser de todos, e não de “privilegiados detentores de cascos, abadás ou outras fantasias”.

Fantasias à parte, até setores da Polícia Militar, ousam investir contra esta festividade de gorjeio popular, por entender que não é sua função assegurar-lhe segurança.

E quando será maior a necessidade e função policial, para o exercício e manutenção de ordem e segurança? Numa procissão de penitentes, num desfile de beatos ou nos entreatos do silêncio e oração?

Em poucas orações, e sem requerer pedidos de perdão, maldizem alguns o Pré-Caju, porque o nosso dinheiro se esvai para a Bahia, em remuneração orgíaca dos artistas da boa terra.

É o antigo desprezo com o recurso mal empregado desde Maria Madalena quebrando frascos de perfume para ungir os pés de Nosso Senhor, e agora também, com o gasto imoderado num outro tipo de farra, mesmo que farra de muitos, do povo, senhor de tudo.

Há os que detestam o Pré-Caju, denunciando embaraços na Avenida Beira Mar, seja na circulação de veículos, seja porque a construção de arquibancadas e camarotes prejudica o melhor local da cidade para o Cooper vespertino ou matinal e variados exercícios, e até pela fedentina de urina que lhe segue por rescaldo.

Ou seja, há uma miríade de críticas à “Prévia Carnavalesca Brasileira”.

No fundo, no fundo, é um incômodo enquanto pretensão sergipana de destaque nacional.

E assim são muitos os críticos, com a metralha vinda de todo lado.

Quanto a mim que nunca brinquei nos blocos, acostumei-me a acompanhar da “pipoca”, ou de um camarote, previamente adquirido e bem abastecido, familiares e amigos que desfilavam no “Com Amor”, “Papagaio”, “Bora-Bora”, “Nana Banana”, “Caranguejo Elétrico”, “É o Tchan”, etc, etc…

Blocos de todos os gostos com as vozes queridas de Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Netinho, Bel Marques, Márcia Freire, Xande, Armandinho e suas cordas, só para falar dos artistas de fora. E também dos daqui com Rogério, Antônio Carlos do Aracaju, e, sobretudo, a nossa eterna Amorosa, resistente, sergipanamente persistente, nas artes e nas letras, tão inteligente quão radiosa e maviosa, no canto e na inspiração.

Destaque também para o Caranguejo Elétrico de Antônio Leite e sua preocupação ecológica, o bloco hilariante das “Cajuranas”, em sorrisos de outros gostos, e muitas mulheres bonitas, como Carla Peres e tantas dançarinas anônimas, em curvas, requebros e meneios, tudo o que bem louva a vida, sem traumas nem receios.

De forma que o Pré-Caju, se muitos lhe fazem crítica em bloqueios, tem também os que o curtem, como eu, em modo próprio, ainda vivo, mas sem seguir os trios elétricos.

E assim, em repulsa a tanta depreciação que assaca este formidável Carnaval de Aracaju, informo que já estou preparando o meu camarote privativo, num local privilegiado e bem escolhido, com direito a todas as cores e sons, quase em frente ao palanque da Rádio Ilha, local em que todos os blocos param em saudações e cumprimentos, a música não para, e o ritmo não ousa arrefecer.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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