PRIMEIRO CONGRESSO BRASILEIRO DE MÉDICOS CATÓLICOS

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Capa do livro
A Academia Cearense de Medicina presta grande serviço à Memória Médica nacional ao reeditar os Anais do I Congresso Brasileiro de Médicos Católicos, que aconteceu em Fortaleza em julho de 1946. Trata-se de uma obra ímpar,  resplandecente, organizada pelo médico cearense Marcelo Gurgel,  membro daquele sodalício, que tive a honra de conhecer  durante o XIII Conclave da Federação Brasileira de Academias de Medicina, ocorrido nos dias 20 e 21 de maio, em Brasília.

       A história desse memorável conclave encontrava-se perdida nos sebos de Fortaleza e chegou-lhe às mãos num lance de pura sorte.  Percebendo o valor do achado, ele mobilizou meio mundo na cidade e conseguiu realizar a tarefa nobilitante: resgatar para a posteridade uma preciosidade.

     A referida obra, ora reeditada, entretanto, não se conteve na simples reprodução “fac-símile” dos Anais organizados pelo padre Monteiro da Cruz. Ela foi enriquecida com contribuições  de diferentes autores, sob a forma de ensaios sobre o contexto social, político e religioso da época, e de biografias que resgatam a memória de parte dos organizadores, expositores e até de alguns participantes do congresso. São 460 páginas de pura emoção, acondicionadas em capa dura, contendo o resumo das plenárias e das sessões de estudo, a repercussão na imprensa da época, os depoimentos de participantes, o trabalho da comissão organizadora, fotos e gravuras.

         No entanto, para que o leitor possa entender a importância da obra, torna-se necessário voltar no tempo. Em 1937 é fundada em Fortaleza a Sociedade Médica de São Lucas,  uma entidade formada por médicos católicos sob a inspiração do padre jesuíta Antonio Monteiro da Cruz, orientador de vários grupos na cidade. Contando com o apoio da Arquidiocese de Fortaleza, à época comandada por Dom Manuel da Silva Gomes, Arcebispo Resignatário de Fortaleza e do Centro Médico Cearense, hoje Associação Médica Cearense, a entidade passou a realizar retiros espirituais fechados anuais, segundo o método de Santo Inácio de Loyola e sua ação se estendeu por mais de cinqüenta anos ininterruptos. Empolgados ao atingir dez anos de formação espiritual, esse médicos resolveram comemorar a data realizando o I Congresso Brasileiro de Médicos Católicos. No entanto,  os motivos principais para a realização do evento eram mais profundos.

          Corria o ano de 1946. No cenário nacional, restabeleciam-se os direitos civis com o fim do Estado Novo e a promulgação de uma nova Constituição. O Partido Comunista voltava à legalidade. No cenário internacional, num mundo pós-guerra, instalava-se uma nova esperança de paz e prosperidade mundial, com  a vitória da democracia liberal. A ordem internacional polarizava-se em duas grandes potências, os Estados Unidos, na frente ocidental e a Rússia, através da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas – URSS, na oriental, com ambas tendo no seu bojo valores liberais e não espirituais, reflexo da vitória do capitalismo, por um lado, e do socialismo, por outro. Era a vitória do laicismo como debate ideológico e isso preocupava sobremodo a Igreja.

       A realização do Congresso, portanto,  era estratégica, não como um simples acontecimento médico  científico e religioso, mas uma tentativa de hegemonia política num mundo em transição. A Igreja sabia que o laicismo era um estímulo ao agnosticismo e mesmo ao ateísmo. Teria, pois, que promover o contraponto. O Congresso foi esse contraponto, reservando momentos para a discussão da prática médica, sobre temas palpitantes da atualidade, submissa, porém, à prática cristã e aos valores da Igreja, “um grandioso monumento científico cuja base moral se assenta nos princípios sadios da doutrina cristã”, segundo depoimento do Monsenhor Otávio de Castro, Vigário Geral, ao aprovar a publicação dos Anais do referido conclave.

        O Congresso, realizado de 1º a 7 de junho de 1946, obteve retumbante  sucesso, com quase quinhentos participantes de todas as partes do país, inclusive de Sergipe, de onde percebemos a presença dos médicos Augusto Leite e Carlos Melo, e do Bispo de Aracaju D. José Thomaz Gomes da Silva. O Presidente de Honra do Congresso foi o Cardeal Arcebispo do Rio de Janeiro D. Jaime de Barros Câmara, contemplado com apoteótica recepção em Fortaleza e desfile em carro aberto pelas principais ruas da cidade. Na sua comitiva, senadores, deputados, o Dr. Hildebrando Leal, presidente da Ação Católica Brasileira e do professor e historiador Hélio Silva.

       Na programação, uma síntese da deontologia médica, as relações entre a medicina e a fé, as questões sociais e a vida familiar. Temas como eutanásia, o condicionamento da eugenia na espécie humana, o aborto terapêutico, os efeitos do neomalthusianismo na psicopatologia da mulher, o problema da continência corporal e psíquica, a saúde do trabalhador, a limitação da prole, foram discutidos e apreciados em cinco sessões solenes, realizadas no Teatro José de Alencar e quatro sessões de estudo, realizadas no Palácio do Comércio.

       O I Congresso Brasileiro de Médicos Católicos, notável acontecimento da Medicina brasileira, além de se constituir em instrumento de retomada do prestígio da Igreja, contribuiu para o desenvolvimento científico e para a discussão democrática  de temas polêmicos, herdados de uma humanidade do pós-guerra imediato e, sobretudo,  teve importância seminal  para a criação da Faculdade de Medicina do Ceará, que terminou ocorrendo dois anos depois, em 1948.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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