Professor Antônio Fernando Cabral Aguiar.

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Não fosse o telefonema de meu primo, Murilo Cabral Tavares, eu não teria sabido do falecimento do Professor e colega Antônio Fernando Cabral Aguiar.

 

Fernando, filho do Desembargador Joel Macieira Aguiar e Da. Maria José Cabral Aguiar, fora professor do Departamento de Física da Universidade Federal de Sergipe, da Escola Técnica Federal, e de alguns colégios do Estado de Sergipe.

 

O ingresso de Fernando na UFS se deu mediante seleção pública como Professor Colaborador, em banca examinadora presidida por mim, enquanto Chefe do Departamento de Física.

 

A figura do Professor Colaborador fora criada para suprir carências emergenciais das Universidades Federais, porquanto desde o Governo Figueiredo esta fora a tônica do Ministério de Educação, frente às instituições federais de ensino superior; completa proibição de ampliação de seus quadros.

 

Mas, como era preciso solucionar o crescente aumento de oferta de horas-aula, o Ministério de Educação criou esta figura do Professor Colaborador, em contrato de 18 meses, renovável por mais 18, uma contratação provisória, mas necessária, sem a qual seria inviável a prestação da tríade função: ensino, pesquisa extensão.

 

Em toda a Universidade brasileira foram milhares os Professores Colaboradores que ingressaram país afora. Na UFS, algumas dezenas, e no Departamento de Física, uns dez pelo menos, alguns permanecendo e outros saindo.

 

Posteriormente, já na administração Gilson Cajueiro de Holanda estes professores foram efetivados, porquanto era imperativo fazê-lo, por ser de justiça e reconhecimento do trabalho executado, além de uma necessidade da própria Universidade.

 

Hoje, muitos desses antigos professores colaboradores ali se encontram ocupando postos de chefia e comando, progredindo na carreira docente, dura, exigente e de pouco retorno, em gozos financeiros e/ou pessoais.

 

No Departamento de Física tínhamos dois Professores Colaboradores cujos nomes eram confundidos. Um era o Professor José Fernandes de Lima, cuja carreira vitoriosa o conduziu ao Reitorado da UFS e hoje se encontra à frente da Secretaria de Estado da Educação de Sergipe, e o outro, o recém falecido Antônio Fernando Cabral Aguiar.

 

O Fernandes queria que o chamassem de Lima, mas teimávamos em chamá-lo de Fernando. Assim, para diferenciá-los surgiu o Fernando e o Fernandinho, dado às diferenças de porte físico.

 

É, portanto, deste último que pretendo falar, morto na última sexta-feira, 16 de abril.

 

Os pais do Professor Antônio Fernando Cabral Aguiar, Dr. Joel Aguiar e Da. Maria José, são figuras muito conhecidas da sociedade sergipana. Dr. Joel é fruto das águas benfazejas do Rio Ganhamoroba, mais precisamente da cidade de Maroim, tendo participação ativa naquela cidade, havendo inclusive escrito o Escorço Histórico do Gabinete de Leitura.

 

O Gabinete de Leitura de Maroim possui um trabalho de real valor e importância no desenvolvimento cultural daquela cidade, uma das mais destacadas no Estado de Sergipe, sobretudo no século passado, em progresso material e intelectual e o Dr. Joel fora um dos seus grandes expoentes.

 

Bacharel em Direito, Dr. Joel abraçou a judicatura, tendo uma carreira vitoriosa, assumindo inclusive os altos graus da desembargadoria. Casou-se com Da. Maria José, de origem no patriarcado rural capelense, filha de Manoel de Melo Cabral Neto e Maria Guimarães Cabral, mais conhecida como Da. Sinhá, proprietários dos engenhos Alegrete e Riacho Grande.

 

Do casal Joel e Maria José surgiram cinco filhos: Leda, pedagoga radicada na Paraíba, esposa do Dr. Freitas, figura de real destaque nas terras de José Américo de Almeida; o agora falecido Antônio Fernando; o meu amigo Jorge, companheiro de muitos folguedos da minha juventude e que precocemente faleceu vítima de acidente de automóvel; a minha colega química Terezinha, casada com o também químico Luiz Nascimento, radicados na Bahia; e o dentista José Luciano, casado com a também dentista Wilma, ambos ex-alunos meus no Atheneu.

 

Entre os filhos do Dr. Joel, Jorge me era o mais próximo. Jorge Aguiar, Murilo Tavares e eu estávamos sempre juntos num tempo em que a adolescência nos despertava para os gozos da vida.

 

Dos três, resistimos Murilo e eu numa amizade querida de muitas lembranças, nas quais se inseriam também os irmãos de Murilo, Roberto e Luiz Carlos, sobretudo, Marcelo Guimarães, o primo de Capela, José Luiz Tavares, filho de Blanar, Lúcia Tavares, e da Professora Delfininha, de terna e suave memória, sem falar do carinho de Da. Purezinha, Da. Marcelina ou Sinhá Tavares, Dr. Luiz Tavares, avó paterna e pai de Murilo, de Dr. Joel e Da. Maria José Aguiar, pais de Jorge e de Fernando, agora falecido, e de Da. Adelí e o Sr. José Guimarães, pais de Marcelo.

 

Neste tempo somos todos jovens; Jorge, Murilo, Marcelo e eu, exagerando nos excessos da festa do mastro em Capela, ou compungidos na procissão dos Penitentes.

 

Quanto a Murilo e a mim, era comum segurarmos todos os andores nas procissões, atividade que Murilo persistente continua, e que hoje eu não me permito mais.

 

Bem mais velho que eu, Fernando Aguiar nascido em 26 de janeiro de 1941, nunca fora um meu companheiro de folguedos. Formara-se em Engenharia Metalúrgica, pela Universidade Federal Fluminense, na Faculdade de Volta Redonda.

 

Em Volta Redonda conheceu a Sra. Celi Machado sendo sua namorada e esposa. Do casamento nasceram três filhos; uma moça, Tatiana, formada em Nutricionismo, casada com o advogado Fábio Henrique Siqueira Mendonça, de quem tem uma filhinha e estava com parto previsto para um menino, justamente no dia que se fez funesto, e dois rapazes, Carlos Eduardo e Luiz Fernando, médico e estudante universitário, respectivamente.

 

De Antônio Fernando direi ainda, enquanto colega de Universidade, que não foi tentado pelo orgulho e pela intemperança. Não fazia parte nem dos sábios nem dos sabidos. Porque os sábios, mais se fazem sábios do que o são em realidade. Exibem uma carapaça que os mascara como complexos e indecifráveis, fingindo-se inconversáveis por reflexos. Já os sabidos, sempre conseguem por modos e maneiras trabalhar menos, se exaustar pouco, e desfrutar os melhores horários por benesses.

 

Também não perfilava com os homens formigas, sempre roendo a terra para entesourar o que de nada serve, nem lhe animava a avidez dos homens gafanhotos, zumbindo audaz em demolição voraz. Não lhe animava estes homens que não param nunca, que vivem a correr sem saber para quê. Homens que têm os telefones celulares intermitentes, a chamar, perquirir e irritar, como se a história se lhes dependesse do agir e continuar.

 

Não era, portanto, o caso de Fernando em sua simplicidade de gostos, de hábitos e de proceder. Sua família, seus filhos, o netinho que chegou a ver, isso era a sua razão de viver, de sorrir e de sonhar.

 

Conseguir substituir o agasalho paternal de amparo, no companheirismo com os filhos já adultos, eis o que poucos e raros conseguem. Porque poucos pais sabem superar o momento em que é preciso cessar a cobrança e a imposição da obediência, substituindo-os pela amizade, companheirismo e mútua confidência; confiança que norteia as relações dos adultos.

 

Sim, porque todos temos as nossas carências, imperfeições e sonhos. E nós não podemos nos libertar de nossa essência, de nossa natureza, de nossa circunstância, sem as quais não exercemos o que somos em diferença.

 

E Fernando era diferente, embora parecesse despercebido, como só a paisagem rica em beleza, ternura e tranqüilidade, assim o são por natureza.

 

Ele não fazia parte nem dos aguerridos reivindicadores, nem dos agressivos conspiradores, sempre presentes nos colegiados docentes.

 

Ninguém lhe poderá dizer que sufocara aspirações ou abafara inspirações, pelo contrário, sua palavra sempre fora no sentido da acomodação dos exageros e excessos.

 

Não lhe animava viver como os que cavalgando os ginetes da história crêem que a saga do mundo se faz com seus gestos e arroubos.

 

Seu proceder era lento, persistente e continuado, em diligência sem espantos e sem alardes, sendo abelha, gerando o mel que alimenta, adocica e reanima toda a colméia.

 

Pessoas que pouco querem para si, e que não são muito compreendidos como tal. Porque é da natureza do humano querer o melhor pedaço, aquilo que lhe é de mor conforto e fruição, sem que o desejo plenifique e satisfaça.

 

Desejo insaciável, que em prólogo de Fauto, Goethe coloca nos lábios do diabo Mefistófeles em desafio ao Senhor sobre a besta humana, sua criatura: “Sem dúvida! Ele te serve em ritos especiais, / O que o tolo devora é bem celestial. / E move-o, sem dúvida, ânsia do Infinito. / De que é louco talvez esteja consciente, / Que do céu as estrelas, esse pobre aflito / E da Terra os prazeres todos busca e sente. / De tudo o que há na terra ou céu, em alto rito, / Não há nada que o conforte ou o alimente”.

 

Realmente, homens formigas, homens gafanhotos, homens máquinas, ou grandes executivos, admiráveis roldanas, verdadeiras engrenagens de correias que comandam o mundo com os seus telefones que não param de tocar, nem lhes deixa respirar e amar, constituem o endemoniado novo homem, no primado da concorrência e na gana da eficiência.

 

Como se o homo-faber se felicitasse mastigando granito e deglutindo cifras. 

 

Como se isso não fosse a reedição do possesso homem fáustico, em hodierna masturbação estéril. Quando são outras coisas que preenchem o coração humano, e que o tornam bem melhor e bem mais querido.

 

E Fernando, sem se deixar levar por devaneios sobre humanos ou inumanos, soubera de si, fazer-se bem melhor e mais querido.

 

No seu enterro, em tradução desta verdade, a presença de muitos amigos. Uma diversidade a revelar quão benquisto e quanta saudade deixara nos diversos ambientes em que frequentara.

 

No seu ataúde duas homenagens revelando a simplicidade do seu viver; uma foto segurando a netinha em sorriso nos seus braços, e uma camisa do time do Confiança.

 

Deus lhe dera a alegria de ser avô, e nunca deixara de ser um simples torcedor, um torcedor apenas, de seu time, o Confiança.

 

Fernando morreu como viveu. Se não conseguiu alegrar e enriquecer a todos na sua passagem, deixou esta vida sem causar estorvos a ninguém. Morreu sozinho, soube-o assim, trancado no banheiro da casa, na madrugada de 16 de abril, onde entrara para satisfazer uma necessidade qualquer. Ninguém lhe ouviu um gemido, uma reclamação sequer. Foi preciso arrombar a porta. E o socorro dado por seus filhos fora inútil.

 

No seu entorno em câmara ardente, sua mãe, seus irmãos, seus colegas e amigos, sua esposa, filhos e netos, um já vindo e outro para vir, programado que estava em cirurgia cesariana.

 

Morreu como deveria ser toda e qualquer morte; sem permitir despedidas. Findando como sempre fora, sem mudanças no proceder e sem alterações de via.

 

Agora tudo é mistério.

 

Aqueles que crêem em Deus, e Fernando era um deles, vêem-no junto ao Pai no seu agasalho acolhedor. Como lá tem muita gente, e deve ter também muito empurrão, não sei se lhe vão permitir chegar tão perto. Mas Deus, que tudo sabe e tudo vê,  com suas muitas moradas não o deixará ao desabrigo.

 

Já os que não se abrigam de todo na crença, nem são tocados pela fé, contemplando Fernando na sua horizontalidade terminal, visualizam apenas sua inteireza e integridade. O que é importante! Foi sério, correto, responsável e amigo. Alguém que, em excedente simplicidade, nos deixa profunda saudade.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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