Professora Glorita Portugal

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Maria da Glória Menezes Portugal Montes é a grande homenageada neste dia 27 de junho, data significativa para seus amigos e alunos, que vêm louvar os 90 anos de vida desta mestra querida.

Filha de Inácio José de Menezes, natural de Japaratuba-SE, e de Jardelina de Góis Menezes, capelense do Engenho Pedro, Maria da Glória nasceu no engenho Beleza, localizado nas imediações da Vila Caititu, município de Maroim-SE, no dia 27 de junho de 1917.

O engenho Beleza houvera sido adquirido por seus avós, João Ferreira de Góis e Ana Joaquina Cortes Góis. Posteriormente, a propriedade passou para as mãos de seus pais. E foi ali na Beleza, que nasceram a menina Maria da Glória, bem como o seu único irmão, o médico e industrial Geraldo Majela de Menezes, um pioneiro na exploração e fabricação do gesso em Sergipe.

O Engenho Beleza, ao apagar as suas fornalhas, se transformou em fazenda fornecedora de cana para a Usina Vassoura.

A menina Maria da Glória, desde pequena, começou a ser chamada de Glorita. E é já como Glorita, que aos seis anos começa os seus estudos numa pequena escola do povoado Caititu, juntamente com o seu irmão Majela. Ali estuda até os oito anos de idade e, posteriormente, como aluna interna, ingressa no Colégio Nossa Senhora da Conceição da Professora Violante Macieira, em Maroim, onde estuda por um ano.

Em seguida, seu pai manda Glorita para Laranjeiras, matriculando-a no famoso colégio da Professora Zizinha Guimarães, ali ficando por cinco anos. É aí que começa o seu interesse pelo idioma francês. 

Concluído o curso no Colégio de D. Zizinha, seu pai a manda para Aracaju, matriculando-a no Colégio Tobias Barreto do Professor Zezinho Cardoso, aí ficando até 1934, quando se casa com o Professor Francisco Portugal.

Oriundo de Canavieiras – Bahia, Francisco Portugal era um homem de compleição robusta, muito alto, próximo de 2 metros de altura, bastante forte e volumoso, de sentimentos ternos e simples. Era um vocacionado para o estudo de idiomas. Tornara-se por conta de esforço próprio um poliglota, falando francês, inglês, espanhol, latim, alemão e grego.

Glorita, de compleição mignon e sorriso fácil, encantava os rapazes e colegas, e se destacava por aplicação e estudos junto aos professores. Dizia-se que ela “comia nota”, isto porque sempre gostara de ser a primeira aluna da classe, desde o Colégio de D. Zizinha.

E continuava assim no Tobias Barreto, aplicando-se, sobretudo em idiomas, de modo particular no francês, quando ficava bem acima de seus colegas, então neófitos no assunto. Isto foi uma notável surpresa para o Mestre Abdias Bezerra e depois para o Professor Francisco Portugal, que se encantavam com a aluna, rotineiramente mandando-a ao quadro-negro, para ensinar os seus colegas.

E foi assim que a aluna Glorita e o professor Portugal se apaixonaram perdidamente um pelo outro.

O namoro logo se iniciou, e o casal assim formado chamava atenção de todos pela disparidade de portes e idades; ele muito alto e ela pequenina, ele quase um cinquentão maduro, ela uma adolescente, no desabrochar primaveril de menina-moça.

Logo, logo vem o noivado, com pedido formal realizado a seu pai pelo Professor Acrísio Cruz, em nome de Francisco Portugal.

E o casamento aconteceu no final de junho de 1934 na fazenda Beleza em Maroim, com os convidados chegando de trem.

Da convivência com o Professor Portugal, recorda sempre um tratamento atencioso e terno. Em resposta, tratou-o toda a vida carinhosamente por Fessô.

Portugal era um homem de estudos. Estivesse em casa, todo o tempo estaria lendo, estudando, aprendendo. E o mesmo ele queria da esposa. Ele não gostava que Glorita fizesse as tarefas do lar. Chegava mesmo a se aborrecer, quando Glorita teimava em costurar, cozinhar ou fazer um necessário trabalho doméstico. Queria que durante todo o tempo ela estivesse lendo e estudando, e para isso lhe passava exercícios e os cobrava. E os dois estudavam juntos, na mesma mesa, cada um com o seu livro, um ajudando o outro, se realizando e ampliando a família.

E a família começou a crescer. Primeiro chegou uma menina. Foi-lhe dado o nome de uma flôr exótica; Eglantina, uma espécia de rosa selvagem com cinco pétalas rubras, nativa da Europa e Ásia Ocidental, utilizada como símbolo da ideologia socialista. Depois veio outra menina e mais uma flor surgiu: Tornélia. Em seguida surge um varão. Em homenagem ao avô paterno, Glorita da-lhe o nome de Fortunato. O quarto rebento é Inácio, em reverência ao avô materno. Em seguida vem o quinto. Fedro é o seu nome. Homenageava-se agora o fabulista romano, nascido na Macedônia – Grécia, de muitas graças e exemplos. Em seguida chegam mais duas mulheres e mais duas flores concebidas; Eglélia, junção das duas flores anteriores, Eglantina e Tornélia, e Verbena, a flor derradeira, que se tornaria também a caçula, uma vez que o último rebento, Geraldo Majela, falecera com apenas quatro meses de vida.

Como foi visto, por todo o tempo Francisco Portugal fora um cultor de idiomas. Não satisfeito com os idiomas aprendidos, resolve tambem estudar russo, aproveitando a vinda para Aracaju de Ivan Paldoshenko, General Chefe dos Cossacos do Don, que aqui resolvera morar. Portugal e Glorita passaram então a estudar frenéticamente o russo também, o que seria para Glorita, motivo de contrariedades, quando após o movimento militar de 1964, insinuaram-lhes atividades subversivas.

Ora, se houve uma atividade subversiva, quem a fizera muito antes fora Portugal, que subvertendo sua vocação intelectual, ingressara na atividade mercantil, insinuando-se como comerciante de artigos elétricos. E foi um fracasso como já era esperado. Portugal vendia tudo a qualquer preço, condoía-se com qualquer pechincheiro, via-o como um dos miseráveis do Pátio dos Milagres de Victor Hugo, dava-lhe facilidades inexequíveis de pagamentos, voltava às suas leituras sem conferir o caixa, e o resultado é que a loja foi a pique. Houve um desfalque na sociedade e as dívidas consomiram todo o patrimônio familiar.

Com vocação para o magistério, Glorita passa então a ajudar financeiramente o marido. Começa a dar aulas particulares de francês. Como sua proficiência se notabilizava rápido, logo é convidada para ministrar aulas nos colégios particulares. Torna-se então professora dos Colégios Tobias Barreto, Nossa Senhora de Lourdes, Patrocínio São José e outros.

Por indicação do Professor Alcebíades Villas-Boas, Diretor do Colégio Tobias Barreto, Glorita é nomeada professora de francês da Escola Normal Rui Barbosa pelo Governador Leandro Maciel.

Sentindo-se firme no seu saber, resolve, em 1957, cinqüenta anos passados, prestar um concurso para a Cátedra de Francês do Colégio Estadual de Sergipe. Defende a tese “Traits Biograpiques de Madame de Sévigné et Une Étude Minutieuse de L’accord du Participe Passé. É aprovada com louvor.

Na sua tese, toda escrita em francês, explica a razão da escolha de dois temas, alegando que em princípio desejara apenas escrever sobre a mulher na literatura fracesa, mas isto se afastaria do programa para o curso de Ginásio. Mas, “renunciar a prestar a estas mulheres minha homenagem, quando eu tinha uma ocasião como esta, teria sido sufocar meu entusiasmo, minha admiração por estas artistas do pensamento e da língua. Assim eu escrevi ao lado de um assunto gramatical a biografia de uma destas mulheres”.

E prossege; a escolha fora difícil, e como acontece nestes casos, o coração foi vitorioso.

“Madame de Sévigné preenchia todas as qualidades que se pode exigir. Uma escritora clássica de um mérito que tem desafiado os séculos, ela foi, antes de tudo, uma mulher, uma mãe. Seu valor moral andava de braços com seu valor intelectual. Sua vida foi um exemplo de honestidade e de amor.”

Contam os cronistas da época, que a provinciana Aracaju agurdava com ansiedade o concurso. Alguns não acreditavam no real saber de Glorita, afinal naquele ano de 1957, ela como quase todos na cidade, não dispunha de um título superior de Bacharelado em Francês. Houve até a insinuação de alguns examinadores falastrões que seriam feitas perguntas de bolso. A história conta que Glorita calara-os todos, afinal como premissa de desafio, solicitara que todos os examinadores a arguissem em fracês e isso não estava no script. E mais, o tal examinador falastrão, se recusou a arguí-la em francês, alegando que a platéia seria mais esclarecida se tudo fosse perguntado e respondido em português. Glorita respondeu-lhe na bucha em francês. Isto aqui é uma prova de francês, não de português. “Votre Excellence peut demander en portugais, il n’y a pas de problème. De ma partie, je demande a monsieur le president de la banc pour me autorizer a vous repondre en français”. E assim aconteceu, inclusive para alguns risos da platéia; o examinador questionava em português e Glorita respondia a todos com um francês fluente e castiço.

Há na tese da professora Glorita uma dedicatória que é um testemunho repetido por ela ainda hoje, quando comemoramos os seus noventa anos de vida. É ela que fala quarenta anos passados em palavras francesas de ternura, agradecimento e esperanças: A meus filhos: Eglantina, Tornélia, Fortunato, Inácio, Fedro, Eglélia e Verbena. Eu sou feliz de ser, em face da sólida cultura de seu pai, um anão diante de um gigante; mas eu serei mais feliz ainda em ser, no futuro, um pequeno vermezinho comparada com vocês”. Hoje, por certo, este desejo se estende a netos e bisnetos; as flores que perfumam a sua vida.

Mas, se sempre há flores que perfumam, há também as que murcham e causam dor. Eis que em 1962 o seu querido “fessô” se vai, extinguindo a felicidade de uma convivência plena de amor. Ao morrer, Francisco Portugal não via Sergipe reverenciar a sua morte como um “democrata e anti-fascista” para uns, um poliglota culto para muitos, uma homem simples para todos, um professor permanecendo em saudades nas gerações de jovens que se saciaram com o seu saber.

Este, porém, não fora o único golpe para a família. Ainda viria um outro, muito mais forte e inesperado, afinal por premissa fundamental da criação, os pais jamais deveriam ser feitos para enterrar os seus filhos. Mas contraditando esta premissa que deveria ser pétrea, morre Eglantina, a filha primogênita, atacada por ferozes abelhas africanas, quando se dirigia para os seus trabalhos de pesquisa como bioquímica do Instituto Parreiras Horta, onde se dedicava à conservação da vida e da natureza.

São os caprichos da natureza e da vida. Mas a vida tem que prosseguir. E eis Glorita viuva, muito jovem ainda, cheia de filhos para educar e encaminhar na vida. E assim prossegue sua tarefa, vencendo desafios, caminhando sempre em frente, sem temer o “avenir”. Mesmo quando este futuro se apresenta incerto como foi o caso dos primórdios do movimento autoritário de 1964, quando insinuaram que em sua casa vigia um aparelho subversivo, só porque existia ali uma pequena biblioteca em russo, um resquício de seus estudos com Portugal.

Naquele tempo de medos vários e denúncias mil, Glorita se vê forçada a enterrar a biblioteca russa no fundo do quintal, perdendo tudo porque era época de inverno. Mas o inverno passa e o sol volta a florir a terra e até os homens. Não há nada de novo debaixo do sol. O que foi é o que será, diz o Eclesiastes. Tempos depois, levada por Alcebiades Villas-Boas ao palácio do governo, Glorita se encontra com um velho amigo de criança, então todo poderoso condestável da revolução. Era o General Humberto Melo, que visitava Sergipe atemorizando políticos e intimidando todos. E assim, a insinuação subversiva morre como surgira.

Em testemunho deste fato, Glorita vê realçado o seu prestígio, assumindo no Governo Lourival Baptista a Direção do Colégio Estadual de Sergipe, por dois anos, época em que eu ainda jovem, lecionava Física. Vem daí o meu conhecimento com a Diretora Maria da Glória Portugal, disciplinadora branda e terna. Uma chefia, caracterizada por liderança e firmeza naturalmente consentidas, sem exercícios de pressão ou de arbítrio.

E os anos passam. E eis que chega o momento de aposentar-se. A despedida se faz com muitas lembranças de colegas e alunos.

Vai morar no Rio de Janeiro. Ali encontra um parente, João Alfredo Montes e sua esposa. João Alfredo, filho do professor Alfredo Montes, fora também professor e Diretor do Colégio Estadual de Sergipe, onde lecionara Física por décadas e, após aposentadoria, vivia no Rio com a esposa e um filho. Como professor, João Alfredo fora mais conhecido pela estudantada gaiata como Professor Baleadeira, tudo porque nos seus modelos de elasticidade, impulso e quantidade de movimento, achava mais prático explicar tais fenômenos, sugerindo-lhes o estilingue como exemplo, a tão conhecida baleadeira, com a qual os alunos derrubavam oitis na Praça Camerino.

Pois bem! Tempos depois, o Professor Baleadeira enviuvece, e passados alguns anos propõe casamento a Glorita. O casamento se realiza no Rio de Janeiro, tendo ela acrescentado o sobrenome Montes, junto ao Portugal. Posteriormente ficará viúva de novo, retornando agora a Aracaju, onde vive cercada da alegria dos seus

Glorita nunca parou dee ensinar. Sou um dos seus atuais alunos. Todas as segundas e quartas estamos juntos lendo, traduzindo e analisando os clássicos franceses. Desde os mais antigos como Corneille e Racine, passando pelas graças de Molière, enveredando nas crenças de Chateaubriand, desvendando as certezas com Renan, perquirindo o pensamento de Voltaire, vivendo a história viva de Michelet, discutindo o político com Tocqueville, megulhando no sempre juvenil Dumas pai, cantando o amor e o sofrimento das cortezans com Dumas Fils, os  costumes com Balsac, o vigor marcante e as contemplações de Hugo, o tempo perdido de Proust, as angústias de Sagan e Anatole France, as ternuras de Bourin, as denúncias de Zola, os enovelos de Yourcenar. Enfim, um curso de francês que não existe nas escolas. Excelente! E tudo de graça, o que é melhor ainda, afinal Dona Glorita não é dessas pessoas que se movem por dinheiro. Porque o dinheiro nem sempre tudo paga, sobretudo uma aula de ternura, de carinho e de simplicidade.

Para terminar esta homenagem que se alonga, desejo trazer para este tema as próprias palavras com que Professora Glorita homenageara a escritora Madame de Sévigné em sua tese de concurso para a cátedra do Atheneu.

Professora Glorita Portugal, a senhora preenche todas as qualidades que se pode exigir de uma mestra cujo mérito está a desafiar o seu tempo, e o tempo que segue além sempre em frente. A senhora é antes de tudo, uma mulher, uma mãe. E as mulheres, as mães e as professoras sempre irão existir. Ficarão delas como permanece na senhora, este valor moral que sempre andou colado ao seu valor intelectual. Sua vida será, pra todos que a conheceram e para todos nós que lhe louvamos hoje a vida, um exemplo de honestidade, meiguice e dulçor. Parabéns!

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