Jogador sergipano fala sobre carreira na Ásia e orgulho de representar SE

Aos 23 anos, Saulo Ruan, atleta natural de Nossa Senhora da Glória, fala sobre a trajetória que o levou da Europa à principal liga da Mongólia

(Foto: Divulgação)

Natural de Nossa Senhora da Glória, no sertão sergipano, o meio-campista Saulo Ruan transformou um sonho iniciado nas quadras de futsal em uma carreira internacional. Aos 23 anos, o jogador é titular do Khovd Broncos, clube que disputa a Mongolian Premier League, após uma trajetória marcada por testes em clubes brasileiros, passagem pelo futebol europeu e o desafio de atuar em um dos mercados menos conhecidos do esporte.

Em entrevista ao Portal Infonet, Saulo fala sobre os desafios de deixar Sergipe para buscar espaço no futebol, compara as diferenças entre o esporte praticado no Brasil, na Europa e na Ásia, relembra a importância das raízes sergipanas e revela como concilia a rotina de atleta profissional com o curso de Engenharia de Software e o empreendedorismo.

Portal Infonet: Você saiu de Sergipe para construir uma carreira no exterior. Como foi esse caminho até chegar ao futebol profissional na Europa e, agora, à Mongólia?

Saulo Ruan: Foi um caminho longo e cheio de altos e baixos até alcançar o futebol profissional. Minha busca pelo futebol profissional começou aos 13 anos. Até então, eu jogava apenas futsal, modalidade que iniciei aos cinco anos de idade. Comecei a pesquisar, por conta própria, oportunidades de avaliações e peneiras em clubes de todo o Brasil e, então, juntamente com o meu pai, começamos a viajar o país. Inicialmente, em São Paulo, fiz uma peneira para a Portuguesa Santista e também para a Ponte Preta. Após isso, também fiz testes em clubes como o São Paulo Futebol Clube, Cruzeiro (MG), Ceará e Fortaleza.

Com 17 anos, disputei o Campeonato Cearense Sub-17 pelo Clube Atlético Cearense. Após isso, aos 18, fui para Roraima disputar o Campeonato Roraimense profissional, porém acabei não jogando, o que adiou minha chegada ao profissional. Aos 19 anos, surgiu a oportunidade de ir para a Espanha, onde tive meu primeiro contato com o futebol europeu. Após um curto período na Espanha, decidi ir para Portugal, onde fiquei alguns meses até conseguir a oportunidade de jogar na Eslováquia, oportunidade essa que surgiu através de um ex-companheiro de equipe no Brasil. Joguei dois anos na Eslováquia (temporadas 23/24 e 24/25) por dois clubes diferentes. Ao fim da temporada 24/25, retornei ao Brasil e segui trabalhando constantemente até conseguir a oportunidade de disputar uma Top League Asiática, a Mongolian Premier League.

Portal Infonet: Depois de atuar na Eslováquia e em Portugal, o que motivou a decisão de aceitar o desafio de jogar na Mongolian Premier League? Como foi a adaptação a uma cultura e a um futebol tão diferentes?

Saulo Ruan: Principalmente a ambição de jogar uma Premier League, a realização de riscar mais um objetivo da lista. Não foi uma decisão fácil, pois havia vários fatores a serem considerados. Olhando para trás, acredito que foi uma decisão importante para minha evolução como atleta e como pessoa, pois, além de retornar aos gramados, a ideia de disputar uma Premier League me motivou bastante. Afinal, eu sabia da possibilidade de trazer mais visibilidade para a minha carreira, facilitando os próximos passos. Além da ideia do “novo”, que, sinceramente, me motiva bastante: descobrir uma nova cultura, um novo país e um futebol bem diferente do que estava acostumado.

Portal Infonet: Quais são as principais diferenças entre o futebol que você encontrou na Europa, na Ásia e no Brasil? O que mais chamou sua atenção dentro e fora de campo?

Saulo Ruan: No Brasil, não é novidade que temos um futebol muito mais livre e criativo. O improviso se sobressai e, mesmo que isso tenha mudado um pouco nos últimos anos, acredito que o fato de crescermos jogando nas ruas e nas pequenas quadras faz com que essa criatividade esteja muito presente no jogador brasileiro. Na Europa, encontrei um futebol bastante físico, mas, ao mesmo tempo, muito organizado taticamente, algo que me agradou bastante. Existe uma valorização muito grande do coletivo, sem abrir mão da qualidade técnica e da disciplina dentro de campo.

Já na Mongólia, antes de chegar, ouvi bastante que encontraria um futebol extremamente físico, mas essa não foi a impressão que tive. Na minha experiência, foi o campeonato em que encontrei um nível técnico inferior ao que vivi no Brasil e na Eslováquia. Ao mesmo tempo, enxerguei um enorme potencial de crescimento. Acredito que ainda exista espaço para uma profissionalização maior em alguns aspectos da estrutura e do desenvolvimento do futebol local, o que pode ajudar a liga a evoluir ainda mais nos próximos anos.

Outra diferença marcante foi a relação da população com o esporte. Enquanto no Brasil e em boa parte da Europa o futebol é, sem dúvida, o principal esporte, na Mongólia ele divide espaço com modalidades que fazem parte da cultura do país. Por isso, senti uma presença menor de torcedores e de todo o ambiente que normalmente envolve o futebol. Em contrapartida, tive a oportunidade de trabalhar com as crianças na academia do clube, e foi uma experiência incrível. Ver o entusiasmo delas pelo esporte me mostrou que existe uma nova geração apaixonada pelo futebol e que pode contribuir muito para o crescimento da modalidade no país.

Portal Infonet: Mesmo longe de casa, você continua levando o nome de Sergipe para o cenário internacional. O que representa para você ser um atleta sergipano atuando em uma liga profissional do outro lado do mundo? Você mantém vínculos com o estado?

Saulo Ruan: Representa muito para mim poder mostrar que nosso estado, ainda que seja o menor do país, é gigante pela cultura, pelo seu povo e pela capacidade de formar grandes profissionais nas mais diversas áreas. Por isso, chegar tão longe levando o nome de Sergipe comigo é, sem dúvidas, motivo de muito orgulho.

Esse orgulho também se reflete na ligação que mantenho com o estado. Minha família está, eu diria, 100% em Sergipe, e é lá que sempre retorno para descansar o corpo e a mente após um período fora. No futuro, espero poder retribuir esse carinho trazendo projetos para o estado e ajudando crianças que, assim como eu, um dia tiveram esse sonho a alcançar seus objetivos, seja no futebol ou em outras áreas.

Sempre que algum estrangeiro me pergunta de qual lugar do Brasil eu sou, faço questão de dizer que sou de Sergipe. A maioria nunca ouviu falar do estado, mas passa a conhecê-lo a partir daquele momento, e considero essa uma das formas de representá-lo.

Portal Infonet: Além da carreira como jogador, você também cursa Engenharia de Software. Como consegue conciliar os estudos com a rotina de treinos, viagens e competições? Essa formação faz parte dos seus planos para o futuro?

Saulo Ruan: Graças à possibilidade do ensino a distância, consigo conciliar os dois mundos, que exigem muita responsabilidade. Depois que o clube define o calendário de treinos, organizo meus horários para cumprir todas as atividades, mesmo que, às vezes, isso signifique dormir um pouco menos. No geral, consigo manter um bom desempenho tanto no futebol quanto nos estudos.

A graduação faz parte dos meus planos para o futuro porque também sou empreendedor. Tenho uma empresa de desenvolvimento de software, que começou com a Cronos Agenda, um sistema de gestão de agendamentos para profissionais da área da beleza, como barbeiros, cabeleireiras e manicures. Além de ampliar meu conhecimento, concluir o curso reforça a credibilidade da empresa e dos projetos que desenvolvo.

Portal Infonet: Que conselho você daria aos jovens atletas sergipanos que sonham em viver do futebol, mas acreditam que só existe espaço nos grandes centros ou nas ligas mais tradicionais?

Saulo Ruan: O conselho principal é que, se é isso que você almeja mesmo, trabalhe dia após dia por isso, dentro da sua realidade e sem se comparar com os outros, pois existem muitas ligas de futebol ao redor do mundo que nos oferecem boas possibilidades, ainda que não sejam as mais ricas e conhecidas.

A realidade do futebol, de maneira geral, tem várias faces e, às vezes, um caminho alternativo através de ligas menos tradicionais e conhecidas pode ser a nossa única forma de ter chances reais de alcançar as ligas mais tradicionais e os grandes centros. Então, por experiência própria, considero muito importante se informar sobre as diversas possibilidades que o futebol oferece, além de buscar conexões com pessoas do meio (verificando sempre se são sérias e honestas, claro). Pois, hoje, a informação é algo muito valioso, e a internet nos possibilita o acesso à informação de uma maneira muito mais fácil comparado a outras épocas. Consistência e conhecimento são, no meu ponto de vista, pontos muito importantes para alcançar nossos objetivos.

Meu conselho é simples: não limite seus sonhos pela geografia. O futebol existe muito além dos grandes centros, e muitas oportunidades aparecem justamente onde poucos estão olhando.

Por Aline Souto e Verlane Estácio

Portal Infonet no WhatsApp
Receba no celular notícias de Sergipe
Acesse o link abaixo, ou escanei o QRCODE, para ter acesso a variados conteúdos.
https://whatsapp.com/channel/
0029Va6S7EtDJ6H43
FcFzQ0B

Comentários estão fechados.

Nós usamos cookies para melhorar a sua experiência em nosso portal. Ao clicar em concordar, você estará de acordo com o uso conforme descrito em nossa Política de Privacidade. Concordar Leia mais