Quem é “referência”?

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Há palavras que o raciocínio apressado conclui tolamente. Que é ser referência? Fulano é uma “referência”, diz o cartaz. Referência em que: em maldade, bondade, inteligência, burrice, incompetência?

Não! Quando se fala em “referência” fulmina-se o pior, elegendo-se o melhor.

Pelo menos é assim que nos querem fazer acreditar, quando uma taximetria é criada para classificar instituições; hospitais e escolas por exemplo.

No nosocômio que é “referência” em infectologia terá o doente melhores condições de tratamento, por corpo clínico, materiais e equipamentos, ou não é tanto assim, e o que diferencia um “referido” de um “não referido” acontece por expedientes outros como facilidades, lobbies e burocratismo?

Que dizer também de um colégio que não ostenta tal “referência”, mas seu alunado é aplicado e bem disciplinado?

Enfim; a modernidade criou este escalonamento para separar, enaltecer e denigrir, mediante um ranking de confiabilidade que se quer absoluto e indiscutível.

E não é assim, quando se fala em “referência”, afinal todo referencial é relativo, já nos diz a velha Física, mesmo aquele invariável por melhor confiável apoiado machianamente nas estrelas, verdade tão relativa quão mutável e transiente. Ou seja: não há referenciais absolutos.

É como se Galileu Galilei estivesse a repetir: “E pur si muove!” Tudo é relativo, sobretudo na Física que lida com causas exatas, desconhecidas, muitas delas, pouco domadas, em maioria, mas previsíveis e elucidáveis por absoluta fidelidade à regra.

Mas, sem falar dos referenciais Galileanos, tão úteis no estudo das transiências próximas, e que martirizou tantos sábios que não foram tão sabidos quanto Galileu, que perjurou o que provou e creditou; que dizer desta ignorante Terra, povoada pela mesma espécie, orgulhosa e senil, que ousa estabelecer mitos e regras incompatíveis com o livre perquirir e desconfiar dos que teimam estabelecer mitos?

Não será um mito atual, criar uma “referência”, impalpável e fugaz a diluir-se no nada? Ou no tudo? Ditada arbitrariamente por um detentor ou contador “referenciômetro”, aparelho de precisão tão indefinida quão mal aferida, em nominação pior?

Assim volto ao cartaz e me questiono: Serei eu uma referência a ser imitada ou espojada; “deletada”, apagada da memória, enviada ao limbo do esquecimento, ou aos quintos dos infernos, por excremento?

Ah! Como é salutar neste mundo de tantas certezas referir e lembrar de Fernando Pessoa, o “maior poeta luso”, só para usar uma classificação referencial tola de “degustibus”, que o não impedia de se encalacrar em dúvidas: “Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou? Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!”

Como conciliar no poeta a lucidez reflexiva diante da fragilidade e imperfeição do ser, e o convite assaz impreciso de se tornar uma “referência”, se tudo isso é fugaz e esfacela-se no caos?

Ontem, quase cem anos passados, em 28 de maio de 1914, num sermão pronunciado na Basílica de Notre-Dame de l’Epine, Dom J. Dissier, Bispo de Chalons, convocava as mulheres cristãs a dar soldados para a pátria e crianças para a Igreja.

Hoje, quando os valores mais sólidos desmancham no ar, o marqueteiro impõe o desafio de cartaz: Seja uma referência! Ou melhor; faça de seu filho uma referência!

E aí eu me volto para Pessoa em argúcias de Tabacaria: “Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens. Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada do nada. Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, E não tivesse mais irmandade com as coisas”.

“Não sou nada” Dissera já o poeta, e continuara assim: “Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.”

E continuaria sem apegos de referência: “O mundo é para quem nasce para conquistar e não para quem sonha que pode conquista-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez. Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo, tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu… Serei sempre o que não nasceu para isso; Serei sempre só o que tinha qualidades; serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta.”

Seria tudo isso uma confissão de derrota ou a não utilidade de uma luta inútil? “O que levamos desta vida inútil tanto vale se é a glória, a fama, o amor, a ciência, a vida, como se fosse apenas a memória de um jogo bem jogado e uma partida ganha a um jogador melhor”.

“A glória pesa com um fardo rico, a fama como a febre, o amor cansa, porque é a sério e busca, a ciência não encontra, e a vida passa e dói porque o conhece… O jogo do Xadrez prende a alma toda, mas, perdido, pouco pesa, pois não é nada.”

Seja uma “referência”! grita o cartaz sem incomodar-se com o refletir do poeta: “Logo que a vida me não canse, deixo que a vida por mim passe… Que importa àquele a quem já não importa que um perca e outro vença, se a aurora raia sempre, se cada ano com a primavera as folhas aparecem e com o outono cessam?… A realidade sempre é mais ou menos do que nós queremos. Só nós somos sempre iguais a nós próprios”.

Mas, à parte tudo isso o poeta inveja os motores, suas correias e volantes “rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando”. Estaria ele querendo se fazer “referência”? “Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime! Ser completo como uma máquina! Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!”

Estar “entre maquinismos e afazeres úteis!” E as “grandes cidades paradas nos cafés – oásis de inutilidades ruidosas”. Nos bares nas esquinas, nos clubes, sendo referência em futilidade.

E eu me volto em especulação des-útil. Que é ser uma “referência”? Ser um bom soldado da nação, um santo ser para a Igreja, ou um cidadão comum, engrenagem necessária por utilidade à exaustão?

Ora, se até Deus tem sido escanteado como tábula firme de absoluta referência, como falar em “referência” se no império do livre relativismo do agir, julgar e pensar, ninguém mais se deseja imolar no holocausto de uma guerra justa, como assim pensaram e cumpriram Charles de Péguy e Antoine de Saint Exupery.

Passariam tais poetas num teste de “referência”, promovido pelos atuais publicitários e marqueteiros, especialistas em dourar cobre azinhavrado para vender o seu acém por filé?

“Ah, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, – como disse Drummond – seria uma rima e não uma solução”. Igual a Odilon, uma rima sem solução de bom, por estupidez de besteira. Porque, nem por asneira, eu me pressinto tão bom como sugeriria meu bom Market.

Mas, há tantos não bons se querendo fazer solução por “referência”!

Melhor referência é ainda aquiescer com o poeta: “Mas serenamente, imita o Olimpo no teu coração. Os deuses são deuses porque não se pensam”.

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Sobre a matéria do ENEM, recebi os seguintes comentários vindos de meu amigo e colega Prof. Manoel Francisco de Andrade cujo conteúdo merece ser destacado.

1. Caro Odilon,

Enviei comentarios sobre os resultados do Enem 2010.Não os vi publicados.Assim,resolvi enviar diretamente a vc algumas reflexões sobre o tema.
Em primeiro lugar,a Presidente do Inep afirma que não se deve comparar desempenhos de escolas de grupos diferentes.Creio que vc deve saber que as escolas do Grupo 1 são aquelas onde a frequência de alunos foi superior a 75%.Essas escolas,como forma de incentivo,têm um bônus sobre as notas.O quanto significa,o próprio Inep faz mistério.Assim,não tem significado comparar desempenhos entre o Colégio do Salvador(grupo 1,frequência 100%) com o Ideal(grupo 2,frequência 51,7%),ou Amadeus(grupo 3,frequência pouco abaixo de 50%) e por aí vai.É possível,no entanto,comparar Ideal com Master(mesmo grupo 2),Amadeus com CCPA(mesmo grupo 3) etc.
Talvez uma ideia interessante fosse comparar as médias das provas objetivas das escolas sergipanas,tanto entre si,quanto com aquelas do chamado top 100 do Brasil inventado pela mídia(que,como eu disse acima,não tem significado científico).
Ao observar as médias das provas objetivas das escolas sergipanas entre si,vc vai concluir que a maior foi a do Colégio Ideal(651,49 pts).Quando vc comparar essa nota com as do chamado top 100 do Brasil vai concluir que a coisa não é tão feia como se poderia supor.A média desse colégio sergipano é superior à de alguns colégios naquela lista.Para não parecer injusto,a maior média na prova de Redação em Sergipe foi do Colégio do Salvador(716,86 pts) que é comparável à de alguns colégios da lista top 100 da mídia.
Assim, quando se analisa cuidadosamente os resultados é possível verificar que:
1-Não é correto a nota final do desempenho de escolas de grupos diferentes,devido à questão do bônus.
2-Ao verificar a média das provas objetivas(a maioria das provas teve carater objetivo) em Sergipe,o Colégio Ideal obteve o valor mais alto,independente de grupos.No nível nacional,a pontuação do Colégio Ideal foi comparável à de colégios do chamado top 100 nacional,uma invenção da mídia.
3-Ao verificar a nota da prova de Redação,o Colégio do Salvador teve a maior nota em Sergipe e comparável à de colégios top 100(?) no Brasil.

Portanto,a análise cuidadosa dos dados mostram que há quatro a cinco escolas particulares sergipanas que podem ser consideradas como excelentes a nível nacional.Leve em conta,ainda,o fato de com exceção de uma delas,essas escolas nunca levaram a sério o exame do Enem,uma vez que o mesmo de nada servia a seus alunos a não ser um final de semana diferente.
A partir do próximo ano,quando a UFS irá adotar o Enem com vestibular,é que iremos realmente partir com tudo para a briga.
Um abraço do amigo
Chico de Andrade
Prof. de Química do Colégio IDEAL,Aracaju/SE

2. Caro Odilon,bom dia

Os resultados do Enem 2010 não foram tão ruins como vc pode pensar.Quando o INEP resolveu dividir as escolas participantes em quatro grupos,nunca quis dizer que um grupo seria superior ao outro em conhecimentos.A classificação foi com base na freqüência dos alunos de tal escola.

Para incentivar essa freqüência,o Enem proporciona bônus- e aqui há uma neblina- variável nas notas.Assim,escolas do grupo 1 têm bônus maior que que as do demais grupos.
A idéia de top 100 para as escolas do grupo 1 foi uma invenção da mídia e não criação do INEP.Seguir a idéia do G1 é um direito que qq um tem,mas que deve,naturalmente,assumir a responsabilidade de acatar aquelas inverdades.

Um outro ponto de destaque é que os estudantes,mais do que ninguém,avaliam a utilidade do exame.Aqui em Sergipe,por exemplo,ele é inútil,pois não serve para classificação na UFS e nem na Unit.E em nada.

Portanto,muitos alunos preferem usar o fim de semana estudando para os vestibulares tradicionais,a não ser que tenha curiosidade pelo Enem ou,sua escola o " incentive" com um bônus interno ou,o que é grave,impeça que alunos fracos façam o Enem,colocando uma recuperação no mesmo sábado da prova.

As opções aqui mencionadas são praticadas por algumas escolas em Aracaju.Se são corretas,não sei.Mas existem.Se vc quiser saber mais basta consultar alguns professores.

Há também outros colégios em Sergipe que deixam seus alunos à vontade para escolher fazer ou não o Enem.Nesse grupo estão incluídos a maioria.A idéia aqui é que,por enquanto,o Enem nada acrescenta ao estudante,não servindo para absolutamente nada.

Entretanto,sugiro a vc uma pesquisa sobre os dados do Enem 2010:

Veja,por exemplo,que a maior media geral nas provas objetivas em Sergipe foi do Colégio Ideal.Para não ser injusto,a maior em redação foi do Colégio do Salvador.Lembre que com exceção da redação,as demais provas sao objetivas.

Observe ainda que a media geral das provas objetivas do Ideal,sem o bônus das escolas do grupo 1, chega a ser superior a algumas escolas desse grupo.

A analise Permite chegar a conclusões interessantes:

1- Algumas escolas particulares de Sergipe,entre as mais de 15 mil avaliadas no Brasil,podem figurar entre as melhores,independente de qual grupo sejam colocadas pelo INEP.

2- Levando em conta que essas escolas,com exceção de duas delas,nunca priorizaram o Enem,qualquer comparação de desempenho com as divulgadas no grupo 1,e consideradas erradamente pela mídia como as melhores do Brasil,é prematura.O jogo,se é que podemos chamá-lo assim,vai começar em 2012 quando,infelizmente para a nossa educação ,a UFS irá aderir de mala e cuia às idéias de Haddad.

Um abraço.

Prof. Chico de Andrade /Colégio Ideal-Aracaju

PS.Está convidado a conhecer o Colégio Ideal para discutirmos caminhos para a educação  em Sergipe.Informal.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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