Religião, saúde e pandemia

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De acordo com a nossa constituição, o Brasil é um país laico, cujas manifestações religiosas diversas devem ser preservadas e mantidas com respeito. Na prática, a coisa não funciona bem assim. Diante do cenário pandêmico, após algumas semanas do decreto governamental que proibia a realização de cultos religiosos, a pressão dos líderes de múltiplos segmentos de fé foi enorme, com a justificativa de que era também uma forma de ajudar a pandemia, já que as orações aliviam as angústias dos enfermos. Bom, tomarei aqui dois exemplos, enfocando no segundo, pois é o que entendo melhor.

O primeiro exemplo é sobre o cristianismo. Para os adeptos e seguidores da Bíblia, “Sejam fortes e corajosos. Não tenham medo nem fiquem apavorados por causa delas, pois o Senhor, o seu Deus, vai com vocês; nunca os deixará, nunca os abandonará”.Deuteronômio 31:6 e “Não fui eu que ordenei a você? Seja forte e corajoso! Não se apavore nem desanime, pois o Senhor, o seu Deus, estará com você por onde você andar”.Josué 1:9, esses dois exemplos, na minha interpretação, apontam que Deus está em todos os lugares, em todas as coisas, é onipresente. Se ele está em todas as coisas e locais, por que ir aos templos em plena Pandemia?

O segundo exemplo é o das religiões afro-brasileiras, que resistiu um pouco mais aos meses de isolamento social. De acordo com Muniz Sodré, os terreiros são espaços de resistência, mas também são responsáveis por troca de saberes e pela promoção da saúde, seja a física, a mental ou a espiritual em seus espaços e entre seus adeptos. Sabemos que a promoção da saúde nos templos religiosos é fundamental, já que o corpo é o elo entre o mundo físico e o espiritual. Nas religiões afro-brasileiras, a saúde é força vital, equilíbrio e harmonia com a natureza.

Para os povos de terreiro, a doença é considerada, muitas vezes, como uma ruptura, um desequilíbrio entre o mundo material e o espiritual, exemplo disso são as iniciações de adeptos que são feitas por problemas de saúde. Mas se a doença é um desequilíbrio, e põe em risco o equilíbrio e a saúde dos templos, por que realizar os cultos religiosos, já que, assim como outras doutrinas e dogmas, as divindades estão em todos os lugares?

Se nosso corpo é morada de fé, é energia que circula entre o mundo sagrado e o humano, ele, então, necessita de cuidados. Como toda religião que prega pelos pilares da coletividade, solidariedade e respeito à natureza, reflito aqui se de fato é necessário o retorno presencial de atividades de culto de qualquer que seja a religião. Será que a nossa fé necessita ser posta em prova através dos riscos? Será mesmo inevitável os encontros, toques, louvores, pois o calendário ritualístico não pode esperar? Se Tempo é Rei, Tempo sabe de todas as coisas, inclusive o tempo de recuar, se resguardar e do sentido de coletividade que implica essa reclusão.

Como li um dia desses por aí, seguir os protocolos para prevenção e cuidados na pandemia é justamente não fazer encontros, pois cuidar de si é cuidar do outro, e é esse o verdadeiro sentido de coletividade. Sim, faz falta, dói, é difícil estar longe dos espaços físicos, dos encontros coletivos, das comunhões com as famílias de fé, mas nesse momento, é necessário pôr em prática os sábios ensinamentos ditos por Mãe Beata de Iemanjá, através do texto de José Marmo da Silva, um grande colaborador da preservação da saúde e cuidados com os povos de terreiro: “A cabeça é o jarro cheio de rosas maravilhosas e o corpo é a mesa que sustenta esse vaso. Se a mesa estiver com o pé quebrado o jarro vai cair e quebrar”. Ou seja, se não há equilíbrio entre os indivíduos, entre as partes, também não haverá equilíbrio para o bom funcionamento do todo.

Axé!

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