Renan, o povo e a Reforma Política

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Agora que os tambores silenciaram, que a bateria calou e que os trios elétricos voltaram para a garagem, as grandes redes de televisão não têm mais desculpa para negligenciar um dos principais fatos da história do país nos últimos anos. Enquanto as principais emissoras de TV exibiam os desfiles carnavalescos dos grandes centros do país, a população brasileira, pelas redes sociais, ia demonstrando sua repulsa ao retorno de Renan Calheiros à presidência do Senado Federal.

Em apenas nove dias, a meta de 1 milhão 360 mil assinaturas pelo afastamento do parlamentar alagoano da presidência do Senado foi alcançada. Isso mesmo, em pouco mais de uma semana, durante o carnaval, 1% do eleitorado brasileiro assinou uma petição pedindo o impeachment de Renan Calheiros do posto máximo do Congresso Nacional.

Na verdade, a meta foi superada. Até a publicação deste artigo, mais de 1 milhão 490 mil brasileiros e brasileiras já haviam aderido ao documento, quase o dobro da quantidade de votos que elegeu Renan em 2010.

O fato é histórico por diversos motivos. Se considerarmos o pouco tempo frente à quantidade de assinaturas; se considerarmos que a mobilização se deu, principalmente, durante o carnaval; se considerarmos que o fato foi silenciado pelos meios de comunicação tradicionais; se considerarmos que reina o discurso de que a sociedade brasileira não se interessa pela política.

É esse, justamente, o discurso que é rompido neste momento. Essa foi uma prova de que a população brasileira se interessa, sim, pela política. O que o povo não suporta mais são políticos corruptos, políticos que usam e abusam do poder, políticos que usam a política em favorecimento particular, como o próprio Renan Calheiros. Por isso, em meio aos festejos de Momo, gente de todos os cantos do país reservou alguns minutos para assinar a petição pública.

O documento – que será entregue ao Senado Federal – reivindica que os senadores revejam a decisão de colocar no comando do legislativo federal o homem que foi denunciando ao Supremo Tribunal Federal por crimes de peculato (desvio de dinheiro ou bem público por funcionário público), utilização de documento falso e falsidade ideológica.

Não custa lembrar que, em 2007, para preservar o seu mandato de senador, o mesmo Renan Calheiros renunciou ao posto de presidente do Senado após sofrer uma série de denúncias.

Na verdade, não faria mal algum se toda a Mesa Diretora do Senado fosse revista, afinal Renan não está só. Dos 11 integrantes do novo comando daquela casa legislativa, seis respondem a inquérito ou ação penal no STF. Crimes eleitorais, ambientais, contra a ordem tributária, contra a Lei de Licitações, tráfico de influência, falsificação de documentos e desvio de verbas públicas compõem a lista de denúncias que recaem sobre mais da metade dos parlamentares que dirigem o Senado brasileiro.

Independente da permanência ou não de Calheiros a frente do Senado, a mobilização já é exitosa, já mostrou que a população está atenta e insatisfeita com políticos como Renan. Mas a mobilização não deve encerrar em si mesma, deve ser um instrumento para impulsionar um processo maior, a tão desejada e necessária Reforma Política. Não a reforma presente nos discursos de parlamentares a todo início de ano legislativo, mas uma Reforma Política que amplie a participação popular nos processos de decisão; que potencialize a participação de negros, índios, mulheres, jovens e homossexuais nas disputas eleitorais; que dê mais transparência às ações e decisões parlamentares; que preveja mecanismos de punição aos desvios de conduta de legisladores; e que proíba o financiamento privado de campanha.

Enfim, uma Reforma Política popular que, como expressou um editorial do site Congresso em Foco, retire o parlamento brasileiro do chiqueiro da política.

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