Rita Lee, mulher coragem.

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Eu, que já era fã da cantora Rita Lee desde “Meu Bom José”, suas músicas, seu embalo, fiquei muito mais pela sua coragem cívica de enfrentar o arbítrio, a violência, o terror sempre presente em quem deveria ser calmo, pacífico, por missão, mas que não é, nunca é, por tradição e escola.

E é preciso que exista uma manifestação como a de Rita para exercer o seu direito de protestar, de gritar, o inalienável “jus sperniandi”, que só os fracos possuem, usando as ferramentas ao seu dispor, espremida contra a parede por armas em desvio de finalidade, que são emprestadas aos órgãos militares pela cidadania, para ser usadas apenas quando há uma demanda de segurança.

E ali, em pleno show, a juventude estava feliz se embalando no canto da roqueira. Não havia nenhuma briga, ninguém sofria qualquer lesão, nem o património público privado. A cantora estava feliz. Os músicos também, pelo menos é o que se vê na gravação.

Ah! Felizmente hoje se grava tudo! Hoje o crime é flagrado ao vivo e em cores, ao sabor de várias tomadas, como um filme visto de variada angulação, posição e roteiro, permitindo a interpretação sem edição qualificadora.

Mas, como diria Cecília Meireles; “O vento é o mesmo, e a resposta é diferente em cada folha”

E assim, do outro lado do balcão vige outra razão. O filme visto no palanque, sem que ninguém visse ainda a edição, não pareceu agradável. Fugiu do script, porque o bom seria que se pintasse um dueto de “Lança Perfume”.

Mas todo “auê” que se preza na história costuma repetir.

A história como diria Marx, não o hilariante Groucho,, mas o Karl, jogado no lixo do tempo, decadente: “A história sempre se repete, primeiro tragicamente, depois como farsa”.

Como tragédia, transcrevo literalmente o que está na Wiquipédia, a enciclopédia livre no verbete Rita Lee: “Na, sua primeira gravidez e morando com Roberto de Carvalho, Rita Lee foi presa por porte e uso de maconha. Na verdade, esse episódio, que foi um dos mais truculentos da ditadura militar, foi mais um ato do regime com a finalidade de 'servir de exemplo a juventude da época', já que a cantora alegou que tinha deixado de usar por causa da gravidez e que a droga encontrada seriam restos usados por amigos e frequentadores da casa. Mesmo assim, Rita foi condenada e ficou um ano em prisão domiciliar, precisando de permissões especiais do juiz para sair de casa e fazer shows”.

Como piada de mau gosto, o Governo de Sergipe, que não deveria estar promovendo circo, deseja condená-la por desacato, por apologia ao crime, anedoticamente como Groucho repetindo Karl; vide acima: 'servir de exemplo a juventude da época',

Reformo a piada: Rita Lee estará sendo acusada de desviar a juventude ou aos provectos, esta senectude a quem querem impingir para a acomodação, a decadência senil e o Alzheimer?

Se o hoje repete o outrora, que dizer dos detentores do poder que não se reconhecem no reflexo do que foram, fizeram ou prometeram com ou sem baseado?

A truculência, a violência, a intolerância constituem desafios às almas nobres, porque o bruto é sempre bruto. O torturador é sempre o mesmo, disponível a sua serventia.

Assim, Rita Lee foi muito “macho”. Ousou ferir na cara a intolerância que se cometia contra os seus fãs. Estes sim, considerados sempre como indivíduos desprezíveis, merecedores de pancada, porreteada. Se possível até em cascos de cavalo, como fazia o tzar, e que por azar da história pode ser imitado por qualquer tiranete em ensaio.

Ah, mas foi desferido alguns generalizados e mal localizados “filhos da puta’! Isso é desacato, sobretudo se uma corporação se sente injuriada como um todo intocável a exigir a fogueira dos heréticos!

Ah. as heresias! Sempre se modernizando e se auto justificando, quando o seu objetivo é abafar o divergente.

E em similar convergência, a justiça sempre poderá conceder o desacato. Basta que haja por inicial a reedição argumental de um operador de Direito, tipo “globeleza”, recorrente febeapá das bandas do lado de cá; entre o Velho Chico e o Rio Real. Porque ser chamado de “filho da puta” só não é desacato ou crime se dirigido a juiz de futebol ou bandeirinha, quando a torcida generaliza e dissemina abençoando o protesto.

Mas, não foi uma coisa assim na plateia do show com a vaia e o xingamento referendado pela multidão, tudo gravado a som e cores?

A cantora perdeu a cabeça? Pode ser. Não seria isso também um direito dos idosos?

Quem não perde o sizo diante da agressão explicita e da ofensa disseminada?

Ah, mais Rita Lee xingou de cachorros e ali não tinha nenhum. “Coitado dos cachorros”, desculpou-se a roqueira perante os animais que não mereciam.

Mas, os cachorros não são os que latem ou afagam apenas. Eles mordem,  enlouquecem. E quando isso acontece eles precisam ser vacinados, até pela coragem de uma idosa que não perdeu sua capacidade de revoltar-se contra a tirania do forte contra o inerme.

E ainda sobre os canídeos, direi que todos somos chamados de cachorros por quem não nos agradam. Quantos não estarão me chamando agora de cachorro, de filho da puta, de cafajeste, porque ousei tomar partido do mais fraco?

Deixem Rita Lee em paz! Ela é maior do que vocês! Que não seja criado o ridículo de uma nova “globeleza”, a passista cuja prisão foi pedida aqui. Só por ser bonita?!!!

Seja repetido, portanto, o protesto da cantora, só para mostrar que não foi tão grave assim.

"Eu tenho direito de falar, esse show é meu, esse show é minha despedida do palco. Não tem que agredir, seus cachorros! Coitado dos cachorros! Cafajestes! Vocês estão fazendo de propósito. Eu sou do tempo da ditadura! Vocês pensam que eu tenho medo, porra? Eu sou mulher, tive três filhos, tenho marido. 67 anos. O que vocês vão fazer? É isso que vocês querem? Chamar atenção? É horrível, eu tenho paranoia desse tipo de coisa. Por quê? Eu queria saber. Cadê por escrito que vocês têm que fazer isso? Cavalaria aqui não! Não vou esperar, esse show é meu! As pessoas estão esperando eu cantar, não vocês. Seus filhos da puta, agora vem me prender! Por causa de um baseadinho, é isso? Cadê o baseadinho para eu fumar aqui agora?"

Ah, como foi deprimente provocar tal reação viril! Um desserviço à luta antidrogas, que não deve ser criminal ou policial como prega o resquício do arbítrio, mas educativa, pelo convencimento, pelo direito de exercer a boa escolha.

“E o que é um ‘baseadinho’”? Perguntou um inocente que tudo vira e nada entendera.

“É uma coisa tola; uma vitamina de banana com maçã!”

Por que não fingir que tudo foi um mal entendido a ser esquecido?

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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