Rua Laura Fontes I

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No artigo “Entre poeiras e doideiras”, publicado em 13/10/2009, em que falo da minha mudança da Rua Laura Fontes para uma nova morada, um apartamento, meu vizinho, Adriano Carvalho me brindou com um texto inesperado que me emocionou bastante:

 

Seu Odilon, Adriano, filho de Tereza, seu vizinho de rua. Registro aqui a minha aquiescência com tudo que o Sr. escreveu. Não só em relação ao modo pós moderno com que infelizmente tratam os livros, mas também, em relação à sua mudança da Laura Fontes. Uma pena! Por sua partida, manifesto a minha tristeza velada de quem foi seu vizinho por 28 anos, já que eu me mudei pra lá aos 4 anos. Desejo-lhe boa sorte e que sua nova morada possa lhe proporcionar a mesma felicidade que a nossa velha rua.” Adriano Carvalho, 14/10/2009 às 13:10 H.

 

Escrever na internet tem essa vantagem; receber um comentário do leitor. Se não há o comentário, nunca sabemos que alguém nos lê afinal o blog, diferente do jornal impresso, só é visitado por quem se interessa.

 

Daí ser interessante o comentário, do leitor, sobretudo quando enriquece e amplia a discussão do tema.

 

É, portanto, com o pensamento em Adriano e seu irmão Sandro, os filhos de Dona Tereza Carvalho, a xará de minha mulher, em Edi, Marquinhos e Cláudio, os filhos de Edmundo e Aíde Guerreiro, em Marcelo, Marcio e Marquinhos, filhos de Jurandir e Janete Conrado, em tantos outros meninos e seus folguedos de São João, dos natais coloridos, dos seus desentendimentos, disputas e discussões, enfim nesta vida ali vivida que pretendo escrever.

 

Devo a mim e a Adriano, relembrar um pouco tudo isso, demandando uma série de arquivos, afinal são 36 anos de muitas histórias numa rua pequenina e terna, que está se tornando desabitada e comercial.

 

Quando eu fui morar na Rua C 186, em fevereiro de 1973, minha casa acabava de ser edificada pela Construtora Alves do Sr. João Alves, o Pai. Neste tempo a rua ainda não se chamava Laura Fontes, e aquele bairro era conhecido como Conjunto de Casas do Construtor João Alves.

 

O construtor João Alves, bem lembrado na ponte Aracaju-Barra que leva seu nome, fora o responsável pela edificação de mais de uma centena de casas naquela região, um grande alagado então, com águas palustres de muitos lodos e miasmas, como bem se pode evidenciar na foto do arquivo pesquise do escritor Luiz Antônio Barreto, foto que ilustra a publicação “Tudo começou pelo coração”, comemorativa dos quarenta anos do Hospital São Lucas.

 

Nos idos de 1973, a cidade crescia além da sacristia da Igreja São José por aterramento do leito pantanoso, alagado que os nossos ecologistas teimavam em querer conservar, acreditando ser melhor para a vida do homem, a virginal permanência da natureza, sem qualquer violação ou rastro de pegada humana.

 

Mas, se existem muitos apóstolos do idílio primevo, arena do homo sapiens neanderthalensis, há outros que não só idealizam tal tempo em aurora infantil de um discutível colorido mítico, como odeiam o homo faber, aquele que transforma o mundo, em contínua criação.

 

Neste particular, o construtor João Alves, um pioneiro da construção civil em Sergipe, talvez seja o nosso maior exemplo do homo faber, do homem providencial e necessário para aplainar os desníveis, polir as asperezas, e aproximar as distâncias, afinal a sua passagem pela vida está marcada por um lastro de realizações e de boas sementes lançadas.

 

Que o diga esta região sul da cidade, lodosa e mal cheirosa, habitat de insetos e doenças palustres então e o hoje, bairro central onde pulsa a vida; a vida humana, como deve ser por princípio e fim, até porque essa é a missão antropocêntrica segundo o Gênesis.

 

Mas, sem discutir vezos antropocêntricos, sem os quais não nos seria permitido subsistir na Terra, desvendar o entorno solar, ou ousar sonhar além do ser grão na Via Láctea, voltando ao tema, direi em explicações necessárias, que quem não a conhece, a Rua Laura Fontes possui apenas dois trechos e não tem mais que duzentos metros de extensão.

 

Dir-se-ia melhor, vê-la como uma ruela ou uma alameda, situada, por um lado, entre a majestosa Avenida Acrísio Cruz e o seu prolongamento estrangulado pela Rua do Cedro, e pelo outro com a Rua Guilhermino Resende, aquela que margeia a lateral da Igreja São José e o Hospital São Lucas, em busca também da Acrísio Cruz, desta vez como se fora um lado de triângulo a perseguir a Praça da Imprensa. Esta também um outro triângulo.

 

Quanto aos seus reduzidos limites extremos, a Rua Laura Fontes inicia pelo lado norte com a Rua Moacir Rabelo Leite, aquela que conduz às cadeiras do Batistão e termina no outro lado, o sul, com a Praça da Imprensa.

 

Acrescente-se ainda que a rua possui seus dois trechos divididos pela importante Avenida Anísio Azevedo que contém um canal lodoso desde o nascedouro, e que está mais nojento ainda, contornando e empesteando os fundos do estádio Batistão.

 

Para quem não conhece a história de Aracaju, a Avenida Acrísio Cruz é uma homenagem prestada pela municipalidade a este professor e educador sergipano, nascido em Laranjeiras, cuja atuação foi bastante destacada, tendo revolucionado a educação pública na gestão do Governador José Rollemberg Leite, somando-se à política de Anízio Teixeira na tentativa de debelar o analfabetismo.

 

Os Professores Acrísio Cruz e José Leite edificaram centenas de escolas rurais por todo estado, um inusitado feito dos fins dos anos 1940, em política jamais reeditada, e muito menos conservada.

 

O Prof. Acrísio fora meu vizinho na Rua de Pacatuba na época da minha infância e um grande amigo de meu pai, Cabral Machado, ambos correligionários do Partido Social Democrático o PSD. Acrísio é pai da Professora Marta Cruz e da Procuradora Maria Luiza Cruz, ambas minhas amigas desde a infância.

 

Bem diferente de muitos, Acrísio Cruz fora um administrador público que não dilapidou o erário nem fez fortuna; pelo contrário, a vida púbica o empobreceu. 

 

Relembro-o já envelhecido continuando a dar aulas para sobreviver. Tempo em que sou seu aluno de português no Científico do Atheneu, um curso destinado às ciências exatas e à formação em engenharia. Estou a ouvir suas palavras em voz terna e acolhedora: “O gênero literário precisa ter CLA-PRE-COR-PUR-HAR-NOB-NAT; CLAreza, PREcisão, CORreção, PUReza, HARmonia, NOBreza e NATuralidade”. Enfatizava o velho mestre, mantendo uma vivacidade jovial, estimulando o uso castiço do idioma, e enchendo de esperança a juventude, tentando nos estimular aos vôos de águia.

 

Se a regra mnemônica e Acrísio Cruz me acompanham na tentativa de escrevinhar melhor, continuo perdido em constituir um estilo; que não é prosa nem verso, segundo um dos meus críticos. Que é entrópico desarrumado e confuso, sobretudo para o grande público; o leitor que se exaure só por soletrar manchetes nos jornais, e o que só se abebera com tolices e amenidades. Estilo que é desaprumado de rima, métrica e conteúdo, para os beletristas e o seu entorno de platéia embasbacada e que algumas vezes é contido, abusado, sentimental ou irônico. Mas que em outros textos se revela descrente, inconsequente e quase revoltado. Escritos que não se incomodam com a baba elástica das raiventas patrulhas ideológicas e do politicamente correto, tão peçonhento quanto inviril.

 

Mas, se Acrísio fora das minhas relações, não cheguei a conhecer Anízio Azevedo, o nome da outra avenida. Soube-o por seu neto, meu atual vizinho, o Procurador Antônio Ângelo Azevedo Melo, ter sido responsável pela fiscalização de rendas em Neópolis, no tempo em que a cidade se chamava Vila Nova. Anízio deixou uma grande prole, com destaque para o meu Professor, e depois colega José Lima de Azevedo, mistura de Químico, Economista e empresário, seus irmãos, os Deputados Guido e Tertuliano Azevedo, a Professora Maria da Graças Azevedo Melo, inesquecível Diretora da Escola normal, esposa do Desembargador Luiz Pereira de Melo, os pais de Ângelo. 

 

José Lima era o esposo da poetisa Núbia Marques. Lembro-os em minha infância na Atalaia Nova. José Lima não só eletrificava a residência com gerador a óleo diesel, como projetava filmes ao ar livre em sessões noturnas de cinema, assistido por veranistas e moradores; uma programação variada, que mudava todos os dias.

 

Certa feita José Lima passou um filme japonês de marcianos invadindo a terra que me impressionou tanto, que me resultou uma assombração e um pesadelo inesquecíveis.

Além de Ângelo, o maior torcedor do fluminense que conheço, tenho aproximação com alguns netos de Anísio Azevedo: o advogado Luiz José, o médico Paulo Tarcísio, o Promotor Ernesto Anízio, suas primas Geisa e Gisela, colegas de minha filha Daniela no Colégio do Salvador, e a Deputada Suzana Azevedo, bastante destacada na política estadual.

 

Quanto à Rua Guilhermino Resende, trata-se de uma homenagem a um comerciante e banqueiro do antigo Banco Resende Leite. Guilhermino deixou também uma grande prole: Resendinha, esposa de Melício Machado (o “Rei do Coco”, segundo reportagem da revista “O Cruzeiro”), Walfrido, Walter, José Resende, Guilhermino Goré e tantos outros.

 

Entre seus netos estão Zelito Machado, o célebre “Romizeta” do time de futebol de salão da Associação Atlética de Sergipe, o tricolor da Vila Cristina. Seus irmãos Wilson, Renato, Carmem, Lúcia, Guiomar, Helena, Melício Filho, o médico, Carlos Waldemar, o auditor do tribunal de contas, Luiz Umberto (o Betinho agoniado, que batia em todos os meninos da minha vizinhança na Rua de Pacatuba), e Heloisa, a caçula.

 

Também são netos de Guilhermino, agora de outra vertente: o químico Luiz Carlos Resende Diretor do DESO e da ADEMA por muitos anos, o agrônomo Roberto Resende, Ex-presidente do ITPS, o Engenheiro Manoel Resende e tantos outros com ampla participação nos diversos setores da cidade.

 

Quanto à Rua Laura Fontes, o seu nome homenageia a mãe da grande prole dos Barreto Fontes.

 

Laura era a esposa do ourives Sindulfo Fontes, cuja verve em ditos xistosos é bastante conhecida, e, salvo engano, teve muitos dos seus causos contados por Bemvindo Sales de Campos, em crônicas deliciosas, publicadas no Jornal da Cidade.

 

Laura Fontes é a mãe do Químico José Barreto Fontes (Barretão), meu professor de Tecnologia de Química Orgânica, na antiga Escola de Química de Sergipe, do Engenheiro Lauro Barreto Fontes, radicado em Salvador-BA, onde fora alto funcionário da Petrobrás, do Professor e Poeta Sindulfo Barreto Fontes Filho, autor de “No balcão colonial”, e outros versos inéditos, e do ourives Antônio Barreto Fontes da Joalheria Fontes, que continua a saga familiar comercializando as mais belas gemas da cidade, em preço justo.

 

Há ainda outros filhos de Laura e Sindulfo Fontes. Não os conheci, tendo um deles se destacado no exército nacional, oficial de alta patente.

 

Quanto aos netos de Laura Fontes, destaco Auxiliadora, a única filha de Rivanda e Sindulfo Filho, esposa de meu amigo Alberto Andrade e mãe de Alexandre, Thiago e Rafael, meus amigos de Campinas-SP. De Alberto direi apenas ser um grande amigo, nascido em Itabaiana Grande, que estudou Química e foi meu colega na UFS, e que depois se projetou na UNICAMP de Campinas.

 

Também são netas de Laura e Sindulfo Fontes a psicóloga Laura Cecília, filha de Barretão, e as comerciantes de jóias Lia e Lícia, filhas de Antônio, ambas continuando o ofício do avô, e do pai. 

 

Quanto à Rua Laura Fontes e seus dois únicos trechos separados pelo canal lodoso da Avenida Anízio Azevedo, direi que se o canal existe e continua fedorento, uma ponte já unia os dois trechos quando ali cheguei com Tereza em 3 de fevereiro de 1973.

 

Neste tempo não havia casas na nossa frente e somente três vizinhos me antecederam; Murilo Garcez, Nelson (rapa de pires) Araújo e Edmundo Guerreiro, nas únicas casas devidamente concluídas, todas à esquerda da minha.

 

No mais reinava a escuridão noturna, o cantar dos sapos e a visita de caranguejos.

 

Eu morava “onde não mora ninguém”, como dizia a música que depois apareceu.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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