SANTOS, SANTEIROS E HOMENS

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Gravei em minha memória uma frase que ouvi de Nilton Inhaquite, meu amigo e colega de escritório, depois de uma reunião/passeio que fizemos na praiana cidade de Pirambu. O fato ocorreu no ano de 1991, quando, juntos com os amigos Thenisson Dória e José Alvino, resolvemos fundar o escritório de advocacia em que hoje sou membro. Discutidas as bases do escritório que criaríamos, olhando o belo mar que se apresentava como testemunha, exclamou Nilton: – Cezar, esta reunião e o clima de paz de Pirambu superaram, em muito, as minhas expectativas!

Esta frase, de logo, se converteu em palavra de ordem para todos nós, sempre renovada em momentos especiais, pronunciada mesmo quando não estamos juntos. Ela tanto serve para elogiar uma cidade, uma viagem ou um evento que nos surpreendeu por nada dele se esperar, como também é utilizada para ressaltar que determinada pessoa ou ação nos causou forte impacto positivo. A frase se transformou no nosso “bombril-elogio” ou então numa variante carinhosa do hatuna matata, nos fazendo sentir um pouco da alegria ingênua e feliz dos personagens Timão e Pumba, que encantaram a todos que assistiram ao filme Rei Leão.

Foi exatamente esta a frase que instintivamente soltei quando fui apresentado à Exposição “Os Santeiros”, patrocinada pela Caixa Econômica Federal. As obras de arte expostas na Galeria Jenner Augusto, inserida no Complexo Cultural da Sociedade Semear, superam as expectativas planejadas, até mesmo as daquelas pessoas que já conheciam os trabalhos dos artistas Abraão, Beatriz Barros, Demar, Fátima Oliveira, Francisco Freitas, Ivan Cavalier, Dona Judite, Moisés, Pinto Santeiro, Véio e Zeus. Surpreendem também as obras dos séculos XVIII e XIX que contracenam harmoniosamente com o cenário sacro que estará à disposição do público até o 15 de janeiro de 2004.

Não é de se estranhar a surpresa positiva causada aos freqüentadores da Exposição, pois passear pela religiosidade brasileira é sempre uma tarefa que supera as mais generosas expectativas, certamente porque o Brasil seja o maior templo de tolerância religiosa do mundo. E neste clima de claro misticismo, não se pode negar que os santeiros nos transmitem a sensação de que são privilegiados interpretes de Deus, ou melhor escrevendo, de que são os retratistas populares da vontade divina. Tive a impressão de que a Exposição amoleceu até mesmo o coração de alguns amigos que não professam qualquer religião, embora tenham usado a desculpa de que apenas estavam admirando a atéia arte.

E como se o mal fosse companheiro inseparável do bem, percebia-se que a Exposição também nos dizia que o pecado também estava ali presente, pois muitos não escondiam a inveja por não terem nascido com o dom de embelezar o mundo através da arte. Confesso que eu estava alinhado no rol dos pecadores, pois a arte somente é uma parceira do meu olhar, vez que não tenho e nunca tive o dom da criação. Entretanto não me preocupei com o pecado confessado, pois tinha diante de mim uma legião de santos para convocar como aliados.

Ainda no campo da espiritualidade, adianto que saí da Exposição melhor do que entrei. Não porque estava absolvido do meu confessado pecado, mesmo porque sempre aceitei o fato de que não serei um artista. Saí melhor, sobretudo, porque estava maravilhosamente surpreendido com a qualidade da Exposição, das suas obras, dos seus santos e dos nossos admiráveis santeiros.

Tudo sem contar que é sempre bom relembrar que os santos sempre utilizaram a doce língua da solidariedade e reuniram em torno de suas ações centenas de sonhos, voluntários e parceiros. Esta é, talvez, a surpresa oculta da Exposição, fazer com os seus visitantes, mesmo não sendo ou pretendendo ser santos, compreendam que viver solidariamente em sociedade é da própria natureza humana, independentemente da religião que se professe. Santeiros e homens podem hoje superar todas as nossas expectativas, desde que ousem fazer da terra o próprio paraíso prometido, mesmo porque o céu é um assunto que somente discutiremos no futuro, no futuro mais distante possível.

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(*) Cezar Brito é advogado, conselheiro Federal da OAB e presidente da Sociedade Semear.
cezarbritto@infonet.com.br

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