Saudade de Paris III (Final)

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Como dizia o ator e diretor russo Constantin Stanislavski, dissertando sobre a prática teatral: "não há pequenos papéis, só há pequenos atores"!

Assim também é a vida. Há pequenos papéis, é verdade! Mas há um excesso de pequenos atores. Igual ao Crumb anônimo, este degeto entérico mal lançado na via pública, que jogado no passeio comunal da internet, atenta contra sua função democrática e criativa, rebaixando-a ao rés baixio da sarjeta.

Como dito anteriormente, o Crumb me volta inesquecível, porque um seu igual se me prendeu à sola do calçado em pleno passeio público parisiense.

Pois é! La como aqui, os cachorrinhos bem penteados esvaziam seus intestinos na calçada.

E, como tudo que é amplo, democrático e livre, o crumb termina espahado se o dono do caozinho não o recolher e o carregar comsigo até uma lixeira, como é recomendavel, por civilidade, ou sob pena de punição por multa.

Castigo que existe para mostrar que boa vontade e bom senso não vigem no humano, e daí o necessário conserto na paulada.

Porque o anonimato enseja a covardia, suprema vilania do Crumb, encenando o fedido papel de vidro –mole, à espreita do fatal ósculo com a bota que o esmaga.

Ou seja, não há pequenos papéis, há pequenos atores. E é de um destes crumb parisienses que desejo dissertar, sobretudo porque o processamento do foie gras de canard e de variados fromages, encarna outro colorido e perfume, digno de ressalte por excedente viscosidade; coisa de Crumb em essência!

Pois bem! Não é que pisei num Crumb em plena travessia da Praça da Concórdia? E a caca amarelada agarrou-se-me ao sapato, sem dele querer largar?

Que fazer? – Perguntava-me apavorado com tal agarro crúmbico. Jogar o sapato fora? Logo um sapato novo, recentemente adquirido, Democrata por marca, antidemocrático por custo, munido de amortecedor pneumático, confortável e bem macio, concebido para longas caminhadas e delicado com os meus calos?

Limpe-o na calçada! Dizia-me Tereza, feliz por ter escapado de La Merde!

E aí eu me lembrei do santo frade que encontrara na livraria católica da nossa praça da catedral. O dia estava chuvoso, e o santo frei pisara num crumb que atoa estava na rua.

Sem perceber o agarro, o homem santo ingressou na livraria, antes esfregando sua larga sandália franciscana no capacho da entrada.

A sandália do frade deixava ver unhas crescidas em micose escura, mas santificadas.

Mas não fora a unha, nem a micose que a compunha, o que ficara da pisada, por laivo de testemunha.

Porque a cada passada do frei, uma carimbada crúmbica seguia-lhe por grei, traçando curvas e retas, em trajetórias circulares e elipticas, parabólicas e hiperbólicas.

Dir-se-ia que um passista exímio estivera a bailar entre as diversas estantes, contemplando encíclicas, gravitando ensaios, ou perquirindo sumas teológicas.

No final o santo padre, por ser desprovido de dinheiro e de maldades, limitou-se a adquirir dois ou três santinhos e foi-se embora deixando seu rastro crúmbico no piso alvo da livraria. Sem falar que o ambiente climatizado adquirira um novo odor e o capacho da entrada melhor democratizava o espalhamento crúmbico de sujidade a tantos que nele pisassem.

E, para encerrar a história, o santo frade partiu vilão quando a vilania viera do Crumb.

Pois bem, foi mais ou menos assim que eu me senti. Igual ao santo frade, sem sua santidade, porque xinguei o Crumb à vontade, enquanto o arrastava na piçarra, na grama, nas poças d’agua de chuva ou de neve derretida, tudo o que fosse imaginável, pedindo perdão às hermes e estátuas do jardim das Tulherias.

Que heresia, maldizia-me irritadíssimo! Espalhar crumb frente a Alexandre, a Péricles, a Julio César tribuno, a Medéa, a Cincinato e a Diana!?
Em frente a “Teseu e o Minotauro” de Roney Etiennne Jules (1796-1852)!?

Limpar o pisante às vistas da escultura do “Centauro carregando Dejanira”, onde Marqueste Laurent Honoré (1848-1920) bem traduziu o instinto de jegue no arretado homem-cavalo, para o deleite de Nira, sua satisfação e desejo!?

Que ironia, sujar a paisagem de “Cassandra pondo-se sob a proteção de Palas”, criação de Millet André (1819-1891) e eu sem poder conseguir amparo para retirar o crumb da sola de meu sapato!?

Que absurdo, ver “Caim depois de matar seu irmão Abel”, escultura de Vidai Henri (1864-1918) e saber que o crumb no passo seguia, a mutilar, sujar, envilecer!?

Que terrível proceder, mesmo diante de “O Homem e sua Miséria” de Hugues Jean Batiste (1849-1930), um retrato verdadeiro e inimitável da miséria, miséria humana, enquanto crumb!?

Que desumano, espalhar crumb à frente do “Bom Samaritano” de Sicaud Mancorse (1862-1934)!?

Que asneira, carimbar com crumb todo o jardim das Tulherias, o arco do Carrossel, a torre vitrea do Louvre, seus tapetes e seus cenários!?

Melar com crumb a Praça da Concórdia, desrespeitando o obelisco egípcio, seus mistérios e hieróglifos?

Propagar crumb, involuntariamente como o santo frade, por toda a Praça Clemanceau, desrespeitando “o tigre”, sem reverenciar generais como o heróico De Gaulle, no frontspício da Avenida Champs Elisée, e até na tumba de Napoleão quando ali estivemos dias depois reverenciando Foch e Lyautey?

Porque a síndrome de todo calçado embosteado, é sempre permanecer assim. Jamais será tão asseado. Pode aparentar higiene, mas o crumb lhe entranhará para sempre, seguindo até no féretro, se o defunto com ele for sepultado.

Voltando, porém, ao passeio, direi qua na mesma noite e usando o mesmo sapato, fui assistir a um show no Lido, a casa noturna da Champs Elisée, o cabaret rival do Moulin Rouge.

O show foi magnífico em danças e acrobacias, um verdadeiro espetáculo musical, com direito a apresentações circenses de humor e magia. Um lauto jantar (“Soirée Bonheur”, a conferir em http://www.lido.fr/us/), regado a vinho e champanhe, deguste de pastas e queijos como variado acepipe, um belo e suculento filet, e por fim a sobremesa. Pratos que só a cozinha parisiense bem entroniza. Tudo também, que uma vez processado bem se transmuda em crumb.

Destaque-se que na ampla apresentação musical, tocou-se muita composição francesa, americana, européia de uma maneira geral, música de cinema, clássicos popularizados, com a presença única de Aquarela do Brasil.

Ou seja; do Brasil só houve espaço para Ari Barroso e nada mais. E eu pensava que a MPB já se tornara gloriosa com o Brasil potência BRIC!!!

Houve dança, e como é do nosso costume mundo a fora, dancei bastante com minha Tereza.

Mas, é necessário divergir de Stanislavski, firmando o Crumb por exceção: há atores medíocres que desempenham grandes papéis. Não é incrível que até na dança e no passo, ia o crumb se espalhando pelos tapetes do Lido?

E o espalhamento iria prosseguir nos dias subsquentes; por igrejas, mausoléus, museus, livrarias e casas de bom pasto, não só na França como em Portugal.

Porque minha viagem seguiria pela lusa terra, tão ocidental, quão ancestral. Por Lisboa, Óbidos, Cascais, Queluz, Alcobaça, onde jaz a bela Inez de Castro, perante os claustros eternos do bravo povo português.

Na torre de Belém, no Mosteiro dos Jerônimos, no Chiado, no Rocio, bem em frente a Pedro IV, o nosso Pedro I. No belo balneário de Estoril.

Em Fátima, para desdouro da fé. E até no Cabo da Roca, o extremo ocidental europeu, vendo o sol morrer no mar, bem diferente de cá.

E o Crumb ali, agarrado ao meu sapato, sem desgrudar, no seu desempenho maior; espalhando a proto-essência de sua glória!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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