Saúde pública virou caso de polícia

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Vamos a um exercício de imaginação. Imaginemos como deve ter sido a cena surrealista protagonizada no Hospital João Alves, semana passada, por aquele garoto pobre, Danilo de Jesus Duque, 20 anos, quando se preparava para uma cirurgia de enxertia de pele na perna e pé. Com o membro inflamado e dolorido graças a procedimento hospitalar de urgência anterior para tratar de um corte acidental – que lhe custou uma infecção hospitalar de rotina na região afetada – ainda confiante na medicina o rapaz entrou no centro cirúrgico cônscio de que a sua dor estava por acabar.

Depois da anestesia o rapaz acordou. Ainda sonolento, percebeu que estava de volta à enfermaria. Quando olhou para o pé, descobriu que sua situação havia piorado: o que tinha restado da pele estava como que mastigado por um canivete cego. O membro ficara desprotegido, em carne viva vermelho-sanguinolenta, mascada, quase triturada. Não havia nenhum enxerto no lugar. E não, não foi um filme de terror, apesar da cena aterrorizante. Nem sequer foi mera ficção.

Minutos antes, na sala de cirurgia, o ato deve ter se passado mais ou menos assim: um médico anestesia o paciente; o outro segura um bisturi e se prepara para iniciar a intervenção. Ele começa a cortar a pele da perna do rapaz desacordado e, enquanto faz as incisões, percebe que a lâmina do bisturi não está cortando adequadamente. Pede com urgência uma outra para substituir a primeira.

A nova lâmina chega e ele nota, ao continuar a cortar, que o fio dela também está cego, retalhando a carne do paciente. Já desesperado, pede mais uma, quando descobre, entre irritado e preocupado, que não há mais lâminas no almoxarifado do hospital. Ou ele usa uma gilete, navalha, facão ou canivete, ou se vale do procedimento mais razoável nas circunstâncias: reanima o paciente anestesiado e suspende a intervenção. Foi o que fez.

Horas antes essa mesma equipe médica deve ter tido outras graves dificuldades para dar início à cirurgia. Não havia sabão anti-séptico nem álcool em gel para desinfetar mãos e braços de médicos e enfermeiros que, depois de lavá-los como puderam, para secá-los tiveram que se valer de toalhas de pano coletivas, já utilizadas – infestadas de agentes patógenos em um hospital repleto de bactérias oportunistas resistentes a antibióticos – simplesmente porque não havia toalhas de papel higienizadas e estéreis prontas para uso.

Para piorar toda a situação, os filtros do sistema de refrigeração do centro cirúrgico onde o rapaz deveria sofrer a malfadada operação não estão sendo limpos há mais de seis meses. E qualquer leigo sabe que condicionadores de ar com filtros sem limpeza regular e freqüente são excelentes depósitos de microorganismos patogênicos, especialmente bactérias oportunistas, multiresistentes e infectantes das vias respiratórias (que se pega no ar).

Mais algum tempo antes do início da cirurgia em questão, uma equipe terceirizada de profissionais de limpeza havia entrado no centro cirúrgico para fazer a desinfecção do ambiente. Na falta de desinfetantes e detergentes suficientes para os procedimentos de limpeza do hospital, tiveram que realizar o processo de assepsia da sala com produtos químicos adulterados, por terem sido misturados com água em excesso, que provoca, em conseqüência da diluição, a atenuação do seu potencial microbicida.

E olhem que não estamos tratando de nenhum hospital de guerra em algum acampamento sitiado de refugiados palestinos massacrados por judeus. É, como já enfatizei, o hospital João Alves, em pleno governo das mudanças, do PT de Marcelo Deda, dez meses depois do início da nova gestão.

“Ah, mas – dirá o sujeito de estrela vermelha pregada na testa a lhe tolher o cérebro, que torna seu raciocínio tão ligeiro quanto o de um chimpanzé lobotomizado – tudo isso é culpa do caos em que o governo passado deixou o hospital”, utilizando, assim, o eterno, previsível e quase único ridículo sofisma de que o deficiente intelectual petista (não é um pleonasmo) consegue se valer quando pego com as calças nas mãos.

Ou, nivelando por baixo, o pautista de mente privilegiada (união das palavras petista com autista, neologismo que criei para designar a teratogenia decorrente da união da mente petista com as características inerentes ao autismo, que o fazem construir uma realidade autônoma e completamente divergente da realidade exterior), poderá valer-se do outro argumento disponível para estes casos: “ah, mas no governo anterior também faltava higiene e material no hospital e se pegava infecção hospitalar”.

Pois é, através desse brilhante raciocínio amebiano digno desse pessoal, podemos concluir que, se nos governos passados alguém morreu por infecção hospitalar na rede pública, nenhuma culpa cabe se agora mais alguns infelizes tiverem que morrer pelas mesmas razões, ainda que sejam pacientes infectados em caráter de verdadeira produção industrial de cadáveres.

Como recentemente ocorreu com crianças recém nascidas da maternidade Hildete Falcão, infectadas por bactérias resistentes. Episódio em que o Ministério Público – ainda que não seja tão complicado entender a mecânica de infestação e infecção de área supostamente asséptica, por uma única bactéria em situação seriada e no espaço de uma semana – tenha de recorrer a Anvisa diante da sua dificuldade para determinar simplesmente se uma epidemia dessa natureza teve caráter endógeno ou exógeno, em função da descarada e criminosa manipulação da informação técnica por parte das autoridades de saúde do Estado.

Mas voltando a vaca fria, como se sabe, logo que assumiu, o governador Marcelo Deda foi ao hospital João Alves para observar de perto como estava o estabelecimento. Exercitando com maestria sua retórica teatral, se mostrou publicamente horrorizado com a situação e pediu um plano emergencial, rápido e eficaz, para mudar a cara do local. Dez meses se passaram e já dá para notar que as condições do hospital realmente mudaram. Para pior. A deterioração hoje chega a tal grau, que é de lamentar o fato de que só esta semana os órgãos fiscalizadores do Executivo finalmente se manifestem com mais veemência para barrarem tanta incompetência, irresponsabilidade e descaso com a saúde pública.

Mas, de lá para cá, o que de fato mudou no João Alves? Bom, para começar, mudou a denominação. Chama-se agora HUSE – Hospital de Urgência de Sergipe. Deda tem ojeriza ao nome do ex-governador exposto seja lá onde for. Age como um exterminador, a tentar aniquilar a mínima referência ao cidadão.

Mudou também, ainda nos primeiros meses, toda a competente equipe terceirizada de profissionais de saúde, simplesmente porque na árvore genealógica dessa equipe só o sangue era vermelho. Era preciso que os ideais partidários, embora verdadeiros embustes, também o fossem. Já a maior parte da equipe de limpeza, também terceirizada, foi convidada a se retirar. Foram afastados ainda os cargos comissionados egressos do governo anterior, mesmo aqueles ocupados por pessoal de natureza eminentemente técnica, situados em funções nevrálgicas ao funcionamento do hospital.

Para selecionar os substitutos, prevaleceram as carteirinhas do partido, os sindicalistas, os apadrinhados políticos e muita gente que entende tão bem de procedimentos mínimos de saúde quanto eu entendo de física quântica.

Claro que houve solução de continuidade. Mas alguém já viu petismo preocupado com máquina estatal paralisada na medida em que eles reinventam o Estado? O que lhes pesa na consciência é somente a falta de ocupação dos cargos, ainda que técnicos, por petistas históricos e de carteirinha, mesmo que a única atividade técnica de que muitos deles entendam seja a da agitação sindical, ou, como dizem de boca cheia, a dos movimentos populares, que eles, e só eles, acreditam piamente representar.

Bom, e que outras mudanças contribuíram para o caos atual? Mais duas muito importantes. A primeira foi a quebra dos convênios com os hospitais regionais, também por motivação exclusivamente política, seja simplesmente suspendendo os contratos sob a alegação de que era preciso enxugar a máquina e economizar recursos, seja reduzindo drasticamente os valores destes convênios, desoxigenando a gestão destes hospitais que, em sua maioria, tiveram suas equipes de saúde desmobilizadas. O fato é que o governo passado havia reaparelhado e firmado convênio com tais hospitais para desafogar o atendimento no João Alves, fazendo com que pacientes em situação não emergencial fossem atendidos em suas próprias regiões de origem. O resultado prático mais evidente da medida é que multiplicou-se o número de casos hoje atendidos pelo João Alves.

E a segunda e a mais importante mudança no hospital foi a economia que o governo Marcelo Deda empreendeu para poupar recursos do contribuinte, sabe-se lá por quais razões. O Estado tem hoje guardados R$ 580 milhões no banco, com a perspectiva de que até dezembro serão quase R$ 850 milhões economizados, ainda que à custa disso falte aqui ou acolá uns litros de desinfetantes, detergentes, toalhas de mão higiênicas, bisturis e outros artigos de somenos importância para centros cirúrgicos.

Se em dez meses de governo não deu para comprar artigos médicos tão simples e ao mesmo tempo tão vitais aos hospitais, e se eles sequer se aperceberam de planejar esse longo período para não deixar faltar tais produtos essenciais, chegamos a um ponto em que é difícil prever onde tudo isso vai parar, a não ser o fato mais evidente de todos: o de que a saúde pública em Sergipe virou caso de polícia.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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