Sem Bálsamo de Ferrabrás, nem Sabão Aristolino.

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Sabão Aristolino, um sucesso do século passado.

Dizia o historiador cearense Capistrano de Abreu, que o grande problema nacional era a falta de seriedade do brasileiro.

Capistrano, um homem que viveu da consolidação do império aos prelúdios da república, afiançava em sua frase de desesperança, que nunca existiu acordo firmado a fio de bigode ou de pestana.

O feito fora do trato era visto tão corriqueiramente por Abreu, que bem valia uma imprecação viril, espécie de xingamento pudico e contido, mas, tão reflexivo quão tolo, e que vingou como o maior postulado diagnosticado do besteirol nacional: Bastar-se-ia somente a edição de dois artigos como nossa lei maior; “o primeiro: todo brasileiro deve ter vergonha na cara, e o segundo: revogam-se as disposições em contrário”.

Em concisão a invejar os tijolos de Hamurabi, as doze tábuas romanas e as epopéias de Gilgamés, a frase de Abreu, pela repetição e aceitação em cascata na nossa pátria, superou até o próprio Moisés e seu decálogo divino, porque o cearense historiador não precisou agravar pragas a desafetos, nem pavimentou estradas mar adentro. Ou seja: não contrariou nem a Física, nem a Economia; não deu maná como almoço de graça, nem fez subir os fluidos ribanceira acima.

E o fato parece tão momentoso, que se o produtor de cinema, Cecil B DeMille, conhecesse a lição do Abreu Capistrano, dispensaria o grave ator Charleston Heston, jogar-lhe-ia na lata de lixo a barba, o manto e o cajado, junto com todo o Êxodo, substituindo-o por um comediante como Dercy Gonçalves, Grande Otelo ou Tião Macalé para recitar tal receita legiferante, sem direito a suscitar risos ou escárnios.

Porque uma vergonha que se preza não combina com a galhardia de uma comédia sem risos, ou mal disfarçado sorriso, em tamanha incidência de ralo siso.

Diria até que nesta ausência de siso, e em precisa detecção de tal moléstia natural capistrana, doença dita só endêmica no território nacional, tal falta de vergonha por obrigação, não poderia ser extirpada nem com o uso do Bálsamo de Ferrabrás medieval, muito menos com o Sabão Aristolino tão eficaz contra todos os pruridos.

Neste particular nem o Piorrebiol, tão útil na perfumaria do hálito, nem o hermophenyl do Elixir 914, o enérgico preparado contra a Syphilis, tão eficiente na depuração do sangue brasileiro, nenhum dos dois conseguiu extirpar este perigoso cancro nacional; isso, para falar dos remédios antigos, desde o tempo de Capistrano.

Quanto aos medicamentos atuais, o nosso mal congênito, não detectável por testes de imagem de rádio, ondas curtas e outras grafias, resiste à abreugrafia, só porque o Abreu não é o mesmo, felizmente.

Trata-se de doença sistêmica, imbricamente entranhada no ser brasileiro, não havendo profilaxia de vacina, sendo um desafio, tanto à alopatia, quanto a homeopatia, embora muita gente se afirme quase imunizado com o uso regular de Calminex, uma medicação de exclusivo uso veterinário, que por ser destinada ao reino eqüino, vem sendo bem utilizada na massagem do ego, por cavalos e burros, indistintamente.

Mas, aí enveredamos em outro tipo de vergonha; a burrice. Burrice, que não combina com esperteza, presteza, agilidade, ser ladino, ser sabido, não se deixar enganar, ou melhor; saber melhor enganar o outro, a qualquer outro; mostrando que burrice e vergonha se equilibraram em pratos desiguais, porque muita vergonha na cara, pode ser muita carência de sabedoria, de esperteza. E “o mundo é dos mais espertos”, como já diziam as avós das bisavós; a perder de vista tanto no tronco do Capistrano de Abreu, quanto no seu e no meu.

De forma que a falta de vergonha não pode ser extirpada. O caso Palocci é um exemplo; saiu na marra, mas posou de ingênuo a desafiar milhões de detectores de mentira.

Porque em política tudo é jogo de fachada, e até uma briga é um feito combinado.

Os jornais e revistas de São Paulo porque não conseguem eleger os seus preferidos torpedeiam os eleitos indesejáveis.

Mas, se não houvesse uma safadeza escondida teriam tais jornais algum sucesso?

Assim eis mais um escândalo.

Um alvoroço, mais do que previsível, porque o ex-ministro Palocci, com sua fala mansa de bom moço, já tinha se revelado pouco convincente com a história mal contada do caseiro Francenildo, façanha que lhe permaneceu tisnando o caráter, sem convencer candura ou limpidez de inocência.

Ou seja, não foi para a cadeia, mas deveria ter ido, não fossemos um país conivente com o erro.

O triste desta história é a quantidade de gente que compactua e se regozija com o deslize; citemos neste contexto, os nossos congressistas, tão recentemente eleitos, e já tão merecedores de reparos na ação.

Ah! Por que dizer assim? Em política tudo é combinado!

Os nossos políticos da oposição, hoje com discurso virulento, não suavizariam o verbo se o ministro fosse um amigo, um coleguinha de bancada?

E os do PT? Nunca se viu, em tempo algum deste país, um partido tão repleno de sujeira e escândalos criminais. É sujeira demais. E chegando mais!

Mas, o PT, só porque venceu a última eleição, crê-se bem na foto. Não se aceita no seu reflexo de Narciso às avessas, como está sendo visto pelo Brasil afora. Age como Doryan Grey, desfilando fagueiro a ensejar beleza e carinho em falsidade, enquanto o seu retrato, mantido em ocultação, revela as rugas e as chagas da real decadência da sua ação.

Sem sair do mesmo lado, ou quase junto ao PT em lodo próprio por berlinda, mais deprimente é o comportamento dos demais partidos aliados (uma infinidade de siglas dispostas a se aliar a todos ou a qualquer um, porque assim já o fizeram nos governos passados), posando pior por omissão, ou parecendo mercadejar um troco.

É questão de esperteza, ou mera ausência de vergonha capistrana?

Ora, deixemos os nossos congressistas em paz. Eles terão três anos e meio para se redimir ou piorar.

Pensar diferente é ensejar o golpismo, enveredar por aventuras não institucionais e governo e oposição devem cumprir sua missão respeitando votos e mandatos; gostemos ou não!

O importante é que Palocci se mancou e pulou fora, e este texto resta sem valia.

Mas, na mais valia ou desvalia, da discussão sobre a frase, tão decantada e repetida de Capistrano de Abreu, melhor seria falar do Bálsamo de Ferrabrás, do Sabão Aristolino, do Linimento Sloan, do Elixir 914, do Piorrebiol, e até do Calminex, que da incurável falta de vergonha nacional.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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