Arrecadando medos pelos descaminhos da vida, Felício, o Homem, saiu dando socos e ponta-pés nas nuvens imemorais armadas pelo vento. Sacudindo a poeira do tempo impregnada nas vestes, peito aberto e dentes arreganhados, saiu por aí, comprimindo nas mãos nada além do que os dez dedos. Ouviu uma voz. Era a voz dele mesmo.
Calmo, alegre/triste, sereno/eufórico, seguiu Felício, o Viajante.Passos, compassos, não cansaram ainda o andante, sem destino, furando espaço e tempo no buraco do Mundo.
A vida era magnífica? O viver era perigoso?Na amplidão, pensando e pesando sonhos, Felício, o Filósofo, viu pedras e flores; ambas necessárias. A solidez de uma poderia proteger a fraqueza singela da outra. Mas o costume era pegar a pedra e esmagar a flor e isso foi um choque para Felício, alma aberta para outras dimensões.
No mais, era o caminhar, argamassando o barro do turvo, do claro, do transparente e do que desse e viesse. Amparado por silêncios, provocado por ensurdecedores ruídos, Felício, o Incauto, atingiu os pontos cardeais mas não chegou a lugar nenhum.
E como a caminhada não tinha fim nem nada, Felício, o Perplexo, já esmaecia descolorido Sem-Saber, tomou uma decisão: pegou os cobertores das visões dentro do cérebro, colocou no chão o travesseiro das incompreensões, deitou-se e morreu. Era uma vez Felício.