Sobre o fim da Ancine

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Estamos em um curso de fechamento da Agência Nacional de Cinema, criada na primeira década de 2000. Se isso acontecer, estaremos acabando com mais um ciclo de financiamento e projeção do cinema nacional. Mais um ciclo, dentre tantos na curta história, que teria tentado finalmente estruturar uma cadeia produtiva para este setor.

As alegações em favor do fechamento ainda são confusas. Mas estão contornadas pela compreensão geral de que o substantivo Cultura, hoje, no país, funciona como um dispositivo ideológico da chamada esquerda. Esse espectro teria dominado setores (comunicação, cinema, cultura – ver as reformulações ministeriais que abolem instituições desse grande campo) e aparelhado ele com “ideias”.

Tem referência direta ao fim da Embrafilme, no decadente governo Collor. Acabar, ou tentar controlar o cinema e as comunicações atreladas ao governo, é uma prática comum aos governos que se colocam à direita – historicamente.

Caso realmente aconteça, como no fim da Embrafilme, teremos nossa produção audiovisual reduzida em no mínimo 70%. Será que ela não é importante, e ninguém vai notar essa redução?

O argumento que nos chegou na imprensa, pelo presidente, é que filmes como Bruna Surfistinha não deveriam ser patrocinados ou financiados pelo governo. Justamente um filme que teve muita bilheteria, e certo sucesso. Argumento moral, portanto: o filme é rejeitado provavelmente pelas cenas de nudez e sexo – que ofendem, certamente, boa parcela de evangélicos do país.

Forçar um tipo de controle à produção foi também um ponto criticado dentro do governo PT. Requisitos estranhos como o “regionalismo”, em editais, eram algo aceitável como uma espécie de dirigismo proposto, mas nem sempre seguido – havia como se ampliar a liberdade de produção em relação a esse dirigismo. Porém, no atual governo, esse controle aparece com um teor de censura.

Agora, ao contrário da época centro-esquerda, pretende-se vetar propostas que estejam distantes das crenças da extrema-direita. Não temos ainda as diretrizes que surgirão nessa nova Agência (ou com o fim dela) para o financiamento de obras cinematográficas a partir de agora. O receio é que essa falta de diretrizes seja a diretriz.

É com tristeza que passamos, mais uma vez, pela desestabilização de setores audiovisuais. Encara-se, o cinema, como um tipo de produto que está, portanto, diretamente ligado a projetos de Estado. Neste âmbito, precisamos muito que o atual governo explicite as mudanças que serão feitas na Agência federal. Afinal de contas, ela é uma agência pública, pensada fora de vieses ideológicos. Sua persistência só atestaria esse caráter fiscalizador e dinâmico que existe potencialmente na instituição.

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