SUA SANTIDADE SEVERINO CAVALCANTI

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O mundo acompanha, ansioso e esperançoso, a escolha daquele que servirá de guia espiritual para milhões de católicos e, de quebra, comandará os destinos da milenar Igreja Católica Apostólica Romana. O conclave para a escolha do sucessor de João Paulo II começará no dia 18 de abril, sendo aguardado como fundamental na fixação ou redefinição do papel do Vaticano. Aliás, esta discussão precede à eleição do novo papa, pois o eleito deverá estar afinado com os rumos a serem traçados, novos ou não.

 

E não param aí as dificuldades da Congregação de Cardeais, pois também tem a tarefa de substituir um dos papas mais carismáticos da Igreja Católica. Mais que isso, embora assumidamente conservador para o mundo em que viveu, João Paulo II foi aclamado, com a sua morte, como um dos maiores personagens da História contemporânea, inclusive já ovacionado, por muitos, como verdadeiro santo.

 

Escolher o seu substituto não é, portanto, tarefa fácil, ainda mais se os rumos aprovados no conclave forem os de aproximar o Vaticano das exigências e complexidades da humanidade que vive o III Milênio.

 

Enquanto isso, no Brasil, o recém-eleito Cardeal-Primaz do Baixo Clero, o deputado federal Severino Cavalcanti, se esforça para transformar o seu cardinalato em sinônimo de retrocesso político. O Brasil que exige mudanças éticas na condução de seu destino, repentinamente, descobre que o Cardeal da chamada Casa do Povo não fala a linguagem do povo que o elegeu. E, para que não confundam alhos com bugalhos, cabe esclarecer que o descompasso não está no sotaque ou no vocábulo simples do deputado-falador, até porque ambos são facilitadores de uma boa prosa.

 

Infelizmente para o eleitor-interlocutor o desatino está no conteúdo do que expõe, uma vez que o povo já não agüenta participar do monólogo debochado ou ausência de ética na política brasileira. O Cardeal que prometeu, em uma de suas famosas encíclicas, não transformar o Poder Legislativo em “supositório” do Poder Executivo, torna público o remédio que ele próprio receita para curar as dores e queixas da nação. O cidadão, segundo ele, é quem tem a agradecer aos seus bem-aventurados filhos, pois estudam, rezam e se sacrificam nos cargos públicos apenas porque querem o bem do Brasil.

 

Mais ainda, que o seu exemplo deve ser seguido por todos, uma vez que é uma lição muito importante saber que o Presidente da Câmara dos Deputados é um bom pai, zeloso e preocupado com o seu rebanho. Com este modelo de afeição paterna, os outros pastores de ovelhas, “fracassados e derrotados” por não saberem criar seus filhos, teriam um bom paradigma a ser seguido. E haja demonstração de sacrifício, louvor moral e determinação religiosa, pois, com o seu “sacrificado” filho José Maurício, já são nove os parentes do Cardeal que se dedicam à nobre missão de salvar o Brasil.

 

Em seu “Evangelho do Nepotismo”, Sua Santidade Severino Cavalcanti busca outros elementos para justificar a sua adoração pelo rebanho severiano,  todas, é evidente, recheada das melhores boas intenções. Um bom exemplo é a máxima: “Cargo de confiança é para quem se tem confiança”. Outra, talvez a mais imperdível de todas, é sua afirmação de que tem adeptos em outros terreiros, especialmente no Sacro Império do Judiciário, ao assim registrar: “Vejam quantos filhos de juízes e desembargadores estão ocupando cargos de confiança”.

 

Para desconsolo do Cardeal-Primaz do Baixo Clero, a cidadania, mesmo correndo o risco de cometer o crime de heresia ou o de lesa-majestade, não professa de sua religião. Compreende ela, corretamente, que nepotismo é abuso de poder, favoritismo, proteção escandalosa ou compadrio, além de estar intimamente ligado aos vários escândalos de corrupção que se espalham pelo Brasil. Compreende, ainda, que não é uma questão cultural ou de mero foro íntimo do administrador público, pois estes não podem administrar o bem público como se gerissem  coisa particular, devendo seus atos serem submetidos aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade e finalidade.

 

Na Capela Sistina, localizada no distante Vaticano, a Congregação dos Cardeais está a buscar um papa capaz de dialogar com o mundo, utilizando a ética do exemplo como melhor dos argumentos. Na Câmara dos Deputados, o Cardeal Severino Cavalcanti, já eleito por sua Congregação, faz da sua surdez a predileta forma de diálogo com o povo.  Graças a Deus, os rumos da política brasileira não são apenas traçados por Sua Santidade, podendo ainda o Congresso Nacional, discordando do seu prelado, proibir definitivamente a nefasta prática de nepotismo, sob de, não o fazendo, ser definitivamente considerado o Sacro Império Severiano.

 

* Cezar Britto, é advogado e secretário-Geral da OAB
cezarbritto@infonet.com.br

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