Tempestades D’Alma: o primeiro filme antinazista no Brasil

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Liliane Costa Andrade

Mestranda em História Comparada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGHC/UFRJ)

Integrante do Grupo de Estudos do Tempo Presente (GET-UFS/CNPq)

E-mail: liliane@getempo.org

 

Ao longo da Guerra (1939-1945) os estúdios hollywoodianos se empenharam na produção de filmes denominados antinazistas. Ao todo, mais de quinze películas deste tipo foram realizadas. A indústria cinematográfica norte-americana buscava mobilizar a opinião do público contra os nazistas, contribuindo, dessa forma, no combate àquele regime.

Dentre os filmes confeccionados neste período está Tempestades D’Alma, película da Metro-Goldyn-Mayer (MGM), lançada 14 de junho de 1940 e que narra a história de uma família destruída após a ascensão do nazismo ao poder. Isso porque o chefe desta família, o professor Roth (Frank Morgan), não era ariano, condição que o fez ser perseguido e preso. Uma peculiaridade da película é que, diferente da maioria das produções hollywoodianas, ela não apresenta o costumeiro “final feliz”.

Apesar de ter sido lançada em 1940, a produção só chegou no Brasil em 1942, após os filmes contrários ao nazismo terem sido liberados pelo Departamento de Imprensa e Propaganda. Desta forma, Tempestades D’Alma foi o primeiro antinazista a estrear no país, mais especificamente na cidade do Rio de Janeiro, à época capital da República.

As primeiras exibições ocorreram no Metro-Passeio, no dia 16 de março de 1942, em seis sessões, distribuídas nos seguintes horários: 12h, 13h40, 15h50, 18h, 20h e 22h; e a produção da MGM trouxe um resultado positivo ao cinema. Após uma semana desde a sua estreia, o Jornal do Brasil divulgou uma notícia afirmando, dentre outras coisas, que “Tempestades D’Alma marcou a semana mais sensacional, a semana ‘record’ de toda a gloriosa história do Metro-Passeio”.

O filme permaneceu em cartaz no Metro-Passeio até o dia 01 de abril, quando seguiu para o Metro Tijuca e Metro Copacabana, sendo veiculado até o dia 09 do mesmo mês. Todas as películas da MGM que chegavam ao Brasil estreavam exclusivamente nos cinemas Metro e, devido à exclusividade, não podiam ser vistos em nenhum outro espaço antes de 60 dias após a última exibição da película nos cines da companhia. Porém, com Tempestades D’Alma houve uma exceção; assim, em 16 de abril o filme passou a ser veiculado no Odeon.

A explicação dada para esta exceção, segundo o Jornal do Brasil, foi o fato de o filme apresentar-se, naquele contexto, como um dos “mais corajosos libelos contra o quinta-colunismo e os estúpidos pre-conceitos de raça”. Assim, é possível afirmar que além do entretenimento, o filme também oferecia uma oportunidade para que as pessoas conhecessem um pouco mais sobre o regime nazista.

De maneira geral, a repercussão de Tempestades D’Alma entre o público brasileiro foi das mais positivas, se comparada com os outros filmes do mesmo gênero exibidos em 1942.  Em 24 de março de 1943, a revista A Cena Muda divulgou uma apuração realizada entre seus leitores acerca dos melhores de 1942; na categoria “melhores anti-nazistas”, o longa ocupou a primeira colocação com 2.048 votos; na categoria “melhores filmes”, ficou em 5º lugar, com 1.321 votos.

Certamente o fato de ter sido o primeiro filme antinazista liberado para ser exibido no Brasil contribuiu para o bom desempenho de Tempestades D’Alma, visto que até então este tipo de produção era uma novidade entre os brasileiros. Ao longo do conflito mundial, várias outras películas antinazistas foram chegando, fazendo com que o público cinematográfico do Brasil conhecesse, a partir do ponto de vista norte-americano, o inimigo nazista.

 

O texto integra atividades do projeto “O Pearl Harbor brasileiro: o cotidiano de Sergipe na Segunda Guerra (1942-1945), apoiado pelo CNPq através do Edital Universal 2018.

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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