Tempos de SPFW

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Não é como se eu acompanhasse cada semana de moda que se desenrola ao redor do mundo. Mal consigo acompanhar – até onde a internet permite – as do Brasil. É muita informação. Muita afetação. Às vezes cansa. Às vezes quase tudo é muito comercial. E quando a cabeça está mais para Teorias do Jornalismo que para questões de moda e estilo, bate uma vontade de deixar passar aquela que pode ser mais uma temporada de poucas surpresas e sensibilidade artística.

No entanto, reservei algumas horas para conferir o que a última edição da São Paulo Fashion Week nos reservou. E não foi muito. Com uma mudança no calendário, algumas grifes pularam a edição enquanto outras apresentaram uma coleção mais enxuta. Somente 19 desfilaram. Aliás, 18, já que Reinaldo Lourenço apresentará sua coleção logo mais, às 11h, fechando esta temporada.

É difícil admitir, mas aprecio a ideia de uma semana de moda mais curta. Evidentemente, perde-se por um lado. Como Glória Kalil comentou, é mais difícil listar as tendências para a próxima estação com poucas coleções para analisar. Por outro lado, penso, damos mais atenção ao que nos é apresentado, dedicamos às criações muito mais que apenas alguns minutos. Também há menos afetação. Excluindo a chamada mídia especializada, pouca gente se pronunciou sobre o evento. Não houve aquela overdose habitual, sabe? Aparentemente, ainda não conseguiram incluir o novo calendário nas agendas abarrotadas de “encontrinhos”, lançamentos, viagens e reuniões.

Seja como for, vejo o desfile de Lino Villaventura – aclamado por aliar referências regionais a peças dramáticas e muitas vezes feitas à mão – como o ponto alto dessa edição.  Logo em seguida, elejo a elegantíssima coleção do Samuel Cirnansk, estilista conceituado pelos seus vestidos de festa. E, finalmente, destaco alguns modelos desfilados pela FH por Fause Haten, em sua coleção inspirada na Op Art, para completar o meu pódio particular.

Lino Villaventura é um gênio. Gosto e gosto bastante da pegada autoral que ele não dispensa em seus trabalhos. Sua intimidade com a arte, a teatralidade dos seus desfiles, as extravagâncias, tudo transborda sensibilidade. Em declaração à revista Bravo, o estilista, apontado como um dos expoentes da moda nacional, diz sem sombra de modéstia que a explicação para as coleções que ele apresenta limita o que se vê, já que inspiração não é algo palpável. “Ela é intuída, como uma obra de arte”, arremata.

Já Samuel Cirnansk foi uma surpresa e me ganhou, como não poderia deixar de ser, pela riqueza dos seus vestidos. Mesmo tendo barateado a coleção usando a poliamida em vez de materiais mais nobres como a seda pura e pedras preciosas, os modelos inebriam e transbordam o mesmo luxo de sempre. Fendas, bordados, transparências e, apesar de tudo, indiscutível leveza.

Por fim, fui inevitavelmente atraída pelas estruturas, brilho e, mais uma vez, transparências que Fause Haten levou à passarela. Achei tudo muito divertido. Só dispensaria os modelos em vermelho, laranja e afins. Esses, divertidos até de mais, me fazem pensar em palhaços. E eu não gosto de palhaços. De qualquer forma, achei a coleção visualmente interessante. Estranho seria se não achasse, já que a arte ótica com o seu lema “menos expressão e mais visualização” foi uma das referências que regeram o desfile.

Clique nos links para conferir fotos dos desfiles: Lino Villaventura, Samuel Cirnansk, FH por Fause Haten 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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