Tributo a José Moreira Matos

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Faleceu no mês passado na cidade do Rio de Janeiro, onde residia, José Moreira Matos. Ao lado de Jairo Fontes Sampaio, Moreira foi peça

José Moreira Matos ( de pé), na sala de aula da Faculdade de Medicina, em 1963. Ao fundo, à direita, Jairo Fontes Sampaio

importante para a fundação da Faculdade de Medicina de Sergipe, que teve em Antonio Garcia a liderança maior. Como estudantes secundaristas, deram grande contribuição para que a escola se tornasse uma realidade, atuando como líderes e facilitadores nos vários processos burocráticos necessários para a organização da faculdade.
   Apesar da destacada atuação, eles não foram aprovados no primeiro vestibular, não lhes cabendo portanto a primazia de pertencer à primeira turma. Porém isso não foi o fato mais triste.
   Aprovados no ano seguinte, em 1962, não conseguiram fazer o curso em Aracaju, por razões diferentes. Jairo, funcionário da LBA, foi transferido para o Rio de Janeiro e lá concluiu o seu curso, especializando-se em anestesiologia, atuando e residindo em Niterói ainda hoje.
   José Moreira de Matos, infelizmente, teve menor sorte. Escriturário do IPASE – Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores da União em Sergipe, era um tradicional militante do Partido Comunista Brasileiro – PCB – e com o golpe de 1964 passou a ser perseguido pela ditadura militar, vindo a perder o emprego, trancar a matrícula na faculdade e em determinado momento, cair na clandestinidade.
   Para Eduardo Antonio Conde Garcia, ex-reitor da UFS e membro da Academia Sergipana de Medicina, em Antonio Garcia Filho e a Faculdade de Medicina de Sergipe – Criador e Criatura ( Sercore Artes Gráficas, Aracaju, 2008), “…por conta de tais atropelos, (Moreira) não concluiu o curso médico. Quando a ordem democrática foi restaurada, ele foi trabalhar como laboratorista em um hospital na cidade do Rio do Janeiro, onde já se encontrava naquele momento”.
   O trabalho dos dois estudantes foi tão importante que seus nomes foram gravados na placa de bronze comemorativa da inauguração da Faculdade, em 1961, e que se encontra ainda hoje na sala da diretoria da entidade, localizada no Campus da Saúde da UFS em Aracaju.
   Consolidado o golpe de 1964, Moreira teve que sair às pressas de Aracaju e, tendo como companheiro de fuga o antigo funcionário da Petrobrás Milton Coelho, permaneceu clandestino por quase uma semana em um sítio de propriedade do ferroviário Mané de Chimbinha, casado com Petrina, irmã de Moreira, no povoado Portinhos, município de Socorro, Sergipe.
   Conta Milton Coelho, em depoimento emocionado que me chegou ao conhecimento através do confrade Fedro Portugal: “ Chegamos depois de longa e penosa caminhada noturna saindo do bairro Industrial, percorrendo locais e itinerário desconhecidos por nós dois. Para tentar descobrir o caminho em direção ao povoado Portinhos, Moreira batia palmas em frente às moradias fechadas e pela prática de morador do interior, tinha que falar o prefixo, como diria Luiz Gonzaga, "sou de paz, por onde devo seguir para o povoado Portinhos” ? E os moradores, sem abrir a porta, orientavam para seguirmos em frente e dobrar ali… Depois do cansativo percurso, chegamos finalmente ao sítio de Mané de Chimbinha”.
   Moreira e Milton pretendiam ficar nesse local até conseguir um transporte seguro para outro estado da federação. Antes que completasse uma semana no esconderijo, eles foram surpreendidos por um destacamento formado pelos sargentos do exército Manoel Messias Siqueira e Williams de Oliveira Menezes, lotados na antiga 19a CSM. No momento da abordagem, Moreira não estava com Milton, que foi detido e levado para Aracaju.
Segundo relato de Milton, os militares imaginavam que seu companheiro naquele momento era o destacado líder comunista Agonalto Pacheco, à época muito procurado e que foi identificado erroneamente numa fotografia por moradores da região. De fato, Moreira e Agonalto eram fisicamente parecidos, ambos altos, magros, morenos e com bigode.
   O curioso ainda na história é que o sargento William era estudante da primeira turma da nossa Faculdade de Medicina, a mesma que Moreira cursava e portanto se conheciam bem. Enquanto o sargento Manoel Messias, acompanhado do cabo Pedro, tentava localizar o subversivo fugitivo, William ficou na guarda de Milton e então este lhe falou, sabendo que os dois eram colegas de faculdade, que Agonalto era, na verdade, Moreira, tentando obter daquele uma facilidade qualquer para proteger o companheiro.
   As buscas pelo suposto Agonalto foram suspensas. Segundo Milton, Moreira ficou escondido entre os arbustos do mangue, mas todos os seus documentos foram recolhidos pelos militares, sendo desfeito assim o engano. Na mesma noite, ele retornou em caminhada para Aracaju, ficando escondido na casa de uma irmã. De lá, foi para Nossa Senhora da Glória e, um ano após, transferiu-se definitivamente para o Rio de Janeiro, ficando na clandestinidade sob a proteção do aparelho comunista; com a redemocratização do país, trabalhou na Caixa Econômica e na Secretaria de Estado da Saúde, como laboratorista, não conseguindo concluir o tão almejado curso de Medicina.
   O sargento Williams concluiu o curso de medicina em 1966, exercendo a urologia como especialidade, tendo no exército se reformado, posteriormente, na patente de coronel. Morreu de câncer em 2005.
   Na noite da nossa narrativa, Milton Coelho chegou na 19ª CSM, em Aracaju, escoltado pelos militares, quando passou por interrogatório, sendo liberado na madrugada, ficando marcada assim na história a primeira prisão do militante pela ditadura de 1964. Outras vieram em seguida, com maiores e mais graves consequências…
   A morte silenciosa de José Moreira de Matos, ocorrida após longa e insidiosa doença, em 14 de setembro último, longe de sua terra natal, finaliza a trajetória de um bravo líder estudantil, que lutou muito para Sergipe ter a sua primeira Faculdade de Medicina e que, por ironia do destino, não pôde realizar o acalentado sonho de se tornar um médico. Para ele, a minha homenagem

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