“Tudo começou pelo coração.”

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Com o título “Tudo começou pelo coração”, o Hospital São Lucas fez publicar um livro memorial dos seus quarenta anos de existência.

 

O livro, com pesquisa e texto do intelectual Luiz Antonio Barreto, por sua feitura, concepção, gravura e documentação é mais uma contribuição à historiografia sergipana. Mais uma vez Luiz Antonio, além de divulgar e pesquisar as coisas e os homens de Sergipe, procura semear nas nossas terras áridas o sentimento de sergipanidade que permeia, embora despercebido e esquecido, no nosso viver.

 

Agora, o feito notável e destacado é o do médico cardiologista José Augusto Barreto, uma das maiores expressões da medicina sergipana, seguindo os passos de gigantes como Augusto Leite e tantos outros cuja memória permanece inerente à vida de nossa cidade.

 

E tudo realmente começou com o coração. F

 

ora uma clinica por início; “Clínica São Lucas”, em homenagem ao Lucas apóstolo, que era médico e que se destacaria, sobretudo por curar almas; os doentes do espírito.

 

Lucas é o evangelista de texto delicado e amoroso, sobretudo com Maria. É ele que, em palavras terminais do crucificado, fala em perdão, porque nunca sabemos o que fazemos nas nossas imperfeições tão gritantes.

 

É Lucas, o médico que ouve e proclama uma fraternidade só possível por expressão livre de vontade. É por Lucas que somos irmãos do Cristo por filhos de Maria.

 

Não estaria aí inserida a ternura do médico ciente de que possuímos, sem exceção, as mesmas carências diante da dor e do sofrimento, e estamos a necessitar a cura tanto dos males imateriais como dos corpóreos, em excedente carência espiritual que física?

 

Assim, tudo começou com o coração. O médico, Dr. José Augusto Barreto se especializara no estudo desta bomba compassiva e compassada, que não pensa, mas que sem pensar, pensa tudo. Porque o coração sem razão ou com ela, possui razão que a própria razão desconhece.

 

Pelo menos fora assim que pensara Blaise Pascal (Le coeur a ses raisons que la raison ne connaît point.), para explicar a empatia e os gostos dos homens.

Um brocardo desgastado, que perdeu o seu vigor e grandeza, porque a modernidade revelara que o coração era apenas um músculo; um conjunto de fibras e ligamentos, músculo bomba acionado por impulsos elétricos, ditados pelo cérebro, este o grande pensador cartesiano, o detentor da razão, da falta de razão e da irracionalidade, superioridade do homem frente a besta.

 

E os gostos e desgostos dos homens passaram a ser explicados por tudo, e até por reação de epiderme, ensejando pruridos e desconfortos ou atrativos de sedução. Algo tão inerente aos gostos e gozos do ser, que vale até na música e no verso, um corintiano perder por reverso um coração sofrido, recebendo, por implante ou desplante, um novo coração corintiano.

 

Ora, se a compaixão não provém mais do coração, o que dizer da manifestada emoção que o acelera ou retarda, num ritmo sem razão ou em desrazão?

 

Porque a razão é uma expressão matemática, um quociente entre números inteiros, uma relação causa efeito de simplicidade inserida nos assim chamados números racionais e estendida ao pensamento.

 

Ela a razão, tão previsível e sem surpresas pressuporia oscilações ou arritmias nas batidas do coração?

 

E assim em resistência, os homens justificam seus atos, desejos e vontades em função do bom ou mau coração, quando aí não se está falando de cardiopatias, arritmias ou mau funcionamento de válvulas e artérias.

 

Mas, independente do homem de bom ou mau viver, a missão da Clínica São Lucas imaginada por Dr. José Augusto era prevenir obstruções arteriais, pacificar o descompasso cardíaco, prevenir a dor letal, do bom e do mau coração.

 

Porque esta é uma tarefa sacerdócio do médico. Porque a dor e o sofrimento constituem característica do viver. E é tarefa do médico lutar contra a agonia e a aflição. Afinal tudo começa com o coração, como fonte de compaixão e solidariedade. Uma tarefa sacerdócio, exclusiva dos discípulos de Hipócrates, por escolha e desejo.

 

E assim eis a clínica construída, com Lucas tomado como patrono e Hipócrates como lema e rumo.

 

Se Hipócrates representa a assepsia médica, a proficiência, a necessária isenção para poder adentrar nas angústias e fraquezas do ser adoecido e vulnerável, eximindo-se de louros e vantagens, Lucas insere doçura e carinho no tratamento médico.

A

ssim, sem se desviar do norte hipocrático nem se arrefecer na compaixão lucana, eis Dr. José Augusto Barreto merecedor de todos os elogios como notável médico sergipano. Um médico que ousou sonhar e tornar realidade um hospital moderno em terras tão inóspitas dos apecuns e alagados de Aracaju, justamente nos idos sombrios de 1969.

 

Um tempo em que a cidade praticamente acabava no fundo da Igreja São José e crescer significava conquistar terras insalubres e lodosas.

 

Se os historiadores só vêem trevas nos idos de 1969, vivia-se então uma época de grandes mudanças.

 

Vigia um grande surto de desenvolvimento. A criação da Universidade Federal de Sergipe, a descoberta e prospecção do petróleo, a industrialização dos sais evaporitos, a construção do porto, a edificação do complexo amônia-uréia constituíam uma série de investimentos públicos e privados no assim chamado milagre brasileiro, em sua vertente sergipana.

 

Nunca se vira tanto de investimentos em terra Serigy, nem mais se veria por aqui.

 

Mas, a despeito de tantos investimentos realizados, havia uma carência significativa de leitos hospitalares, mesmo porque os Hospitais Santa Isabel, Augusto Leite e São José não conseguiam suprir toda a necessidade de um atendimento moderno, sempre carentes de verbas e subvenções públicas.

 

Havia a necessidade de um hospital particular, um nosocômio que conjugasse a eficiência empresarial com a prestação de serviço eficaz. A necessidade justificava o investimento.

 

Tentara-se um condomínio, uma associação de médicos. A tentativa não foi adiante, restou a mera compra de um terreno; um chão a necessitar de terraplenagem e aterros.

 

Por outro lado, por desterro e mor sofrimento, naquele tempo não existiam os atuais planos de saúde, democratizando e viabilizando o atendimento médico. O doente quando não era segurado dos diversos institutos, era indigente, carente de tudo, ou tinha que bancar por um serviço melhor qualificado em outras plagas.

 

Hoje tudo ali mudou; não há alagados, nem miasmas, nem terras insalubres.

 

Também não há mais a clínica da Rua Stanley Silveira de aparência tranqüila e tosca, o germe cristalino inicial.

 

O Hospital São Lucas substituiu o consultório inicial com ampliação física e acréscimo de serviços. Ocupou todo o trecho fronteando a lateral da igreja São José que do outro lado continuou quase igual.

 

Se a igreja pouco mudou, ela passou a viver uma espécie de continuidade do hospital, recebendo as preces dos doentes e de seus familiares.

 

E o complexo hospitalar não para; assumiu outras áreas, ocupando outro trecho. Virá logo uma passarela para bem melhor servir o usuário da medicina, unido o que não devia estar separado.

 

Da clínica e do consultório surgiu o hospital. Agora há a Fundação São Lucas, o Centro de Hemodiálise, o Centro de Estudos Técnicos e Profissionalizantes, a Creche Dom Luís Mousinho.

 

São cerca de 1180 servidores e colaboradores! Fala a realidade atual, evidenciando que um maior número ali atuou nos seus quarenta anos de portas sempre abertas.

 

Quantos médicos, enfermeiros, funcionários, humildes ou qualificados fizeram vibrar aquelas paredes silenciosas e convidativas para o repouso e a cura!?

 

Quantos doentes freqüentaram seus tálamos resgatando forças e sanidade!?

 

Quantos conseguiram ter minoradas suas dores e sofrimentos!?

Q

uantos ali morreram nos seus leitos confortados, porque por suprema missão médica, cabe-lhe também dar o último alívio contemplando a inexorabilidade da parca no encontro jamais ausente!?

 

Quem não tem algo a lembrar de passagem e permanência sobre os cuidados de Dr. José Augusto e seus liderados neste Hospital que tem sido uma casa de carinhos!?

 

Realmente, tudo começara pelo coração, um estetoscópio, um tensiômetro, um instrumental tosco, uma idéia, uma vontade, uma luta persistente e continuada, um passo numa longa caminhada.

 

Mas, se o Hospital São Lucas representa vida em nossa terra, dê-se ao seu fundador o maior mérito. É ele que em passeio diário por seus corredores dá uma aura de correção, limpeza e eficiência, mostrando na alvura da veste a irrepreensibilidade dos que passam pela vida servindo à sua vizinhança, dando-lhe dignidade e esperança.

 

Por isso vale a comemoração e a alegria.

 

Que sejam homenageados e louvados os seus fundadores Dr. José Augusto Barreto e Dr. Dietich Todt, seu auxiliar e co-fundador.

 

Sejam louvadas também as duas irmãs amigas, Dona Conceição e Dona Nicinha cujas vidas de tão inseridas na missão de cura dos esposos, estão presentes em cada local do hospital como se fora o próprio lar, a sua seara por missão.

 

Aos filhos que continuam o trabalho de criação nestes quarenta anos passados. Enfim, vida que se prolonga além da vida em lembranças e saudades a merecer nosso carinho e aplauso.

 

Se tudo nasceu com o coração, e de Pascal se atribui ter o coração razão que a própria razão desconhece, usemos também de Pascal um aforismo por final:

 

“O prazer dos grandes homens consiste em tornar os outros mais felizes.”

 

O médico José Augusto Barreto e o Hospital São Lucas contribuem com a felicidade sergipana.

 

Que Deus os abençoe e conserve!

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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