Um discurso histórico

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“Podem contar com o Brasil”. Quando a presidenta Dilma Rousseff encerrou seu discurso na 5ª Cúpula Brasil-União Européia, em Bruxelas, na terça-feira, inaugurou simbolicamente uma nova era nas relações com os países desenvolvidos. Ela confirmou ali que mudou o diálogo entre Norte e Sul, entre colonizadores e colonizados. Agora os de baixo tem mais do que voz, tem algum poder de decisão e tem o privilégio de poder ajudar, se assim for necessário. A presidenta se referia à crise financeira porque passam os países do Velho Continente.

“É pela dificuldade de construir consensos políticos que o mundo, hoje, atravessa situações muito difíceis. Tenho certeza de que, com liderança, determinação e sentido de urgência histórica, será possível superar o grave quadro de instabilidade econômica e social e evitar sombrios desdobramentos políticos. O Brasil – e aqui tenho certeza que expresso o sentimento de economias em desenvolvimento – está pronto para assumir suas responsabilidades de forma cooperativa. Somos parceiros da União Européia. Podem contar com o Brasil”, afirmou Dilma, dando o devido desconto às pretensões nacionais. Não somos salvadores de pátria nenhuma, mas podemos, dentro das nossas limitações, ajudar.

A intenção é boa e o discurso é de grande força política, mesmo que a ajuda oferecida fique apenas no campo das idéias, sem injeção direta de capital, que ocorre indiretamente pelo Fundo Monetário Internacional, do qual o Brasil é credor desde 2007.

“O Brasil tem outras preocupações econômicas e de infraestrutura. A nossa renda per capita ainda é muito inferior à dos gregos, portugueses, etc.”, lembra o doutor em economia, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda e consultor do Instituto de Estudos Para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, em entrevista ao site da revista Carta Capital.

Mas para quem, até outro dia, vivia mendigando favores ao FMI…

Depois do não menos importante discurso na ONU, Dilma Rousseff manteve o tom das críticas em encontros internacionais. Na Bélgica, ela criticou a política européia de combater a recessão econômica com “ajustes fiscais extremamente recessivos”, exemplificando que a estratégia se mostrou ineficaz quando adotada pelo Brasil e por outros países latino-americanos durante os anos 80 e 90 (sob a tutela do FMI).

“A nossa experiência demonstra que, no nosso caso, ajustes fiscais extremamente recessivos só aprofundaram o processo de recessão, de perda de oportunidades e de desemprego”, argumentou a presidenta.

Em Nova York, na abertura da 66ª Sessão da Assembléia Geral da ONU, falando como primeira mulher na tribuna ante os líderes mundiais reunidos, Dilma afirmou que não é por falta de recurso financeiro que os lideres dos países avançados ainda não encontraram solução para a atual crise internacional, mas por falta de vontade política e de clareza de idéias.

"Essa crise é séria demais para que seja administrada apenas por uns poucos países", proclamou, cutucando os EUA ao dizer que alguns países ficam presos "na armadilha que não separa interesses partidários daqueles interesses legítimos da sociedade". E ali já tinha falado de cooperação: "Um novo tipo de cooperação, entre países emergentes e países desenvolvidos, é a oportunidade histórica para redefinir, de forma solidária e responsável, os compromissos que regem as relações internacionais."

No meeting com empresários europeus e brasileiros na Bélgica, Dilma já havia repetido a ladainha de que a crise internacional exige uma ação macroeconômica coordenada, “em especial nos organismos multilaterais, que nós consideramos que têm de ter a sua reforma continuada” – inclusive do Conselho de Segurança da ONU.

E falou da necessidade de estabelecer um marco regulatório efetivo, “que impeça os mercados financeiros de continuarem a ser uma fonte inesgotável de instabilidade é um requerimento que os nossos governos não podem deixar de enfrentar”.
Tomada no seu conjunto, a União Européia é o principal parceiro comercial do Brasil, daí a importância do encontro com os empresários, quando teve a oportunidade de ensinar aos europeus uma receita com jeitinho brasileiro: “Garantir uma perspectiva para sair da crise internacional que combine crescimento econômico, geração de emprego e garantia de direitos com a estabilidade macroeconômica e com a higidez fiscal”.

As mudanças no Brasil de hoje, observou, não são passageiras, nem fruto de políticas provisórias. “Resultam de projetos de longo prazo e de um compromisso com mais de 190 milhões de brasileiros”, disse a presidenta, que se firma cada vez como líder nacional e é uma estrela ascendente na política internacional.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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