UM NATAL DO PERU

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 Cartas do Apolônio

 UM NATAL DO PERU

 Lisboa, 24 de dezembro de 2004

É véspera de natal e  o meu peru já está praticamente assado. Foi o espírito natalino que tomou conta do coração de Sulamita, minha secretária bilíngüe e boazuda.

A rapariga pôs fim à greve de sexo com a qual me castigou ao cabo de dois meses. Desde então tenho fornicado todas as noites em que vou à sua alcova. Lá ela me chama de bom velhinho e pede para que eu ponha o saco do papai Noel à mostra. Enquanto isso os veadinhos que carregam o trenó do bom velhinho ficam em polvorosa no lado de fora do tálamo sagrado. É uma loucura!

Ainda estou em dúvida é sobre o presente que devo dar a Zenóbia, minha patroa sexagenária.   

Pensei em oferecer-lhe uma passagem de ida para o Rio de Janeiro, um velho sonho seu, desde que lhe falei das inúmeras belezas naturais da Cidade Maravilhosa como o Morro Dona Marta, a Favela da Rocinha, ou mesmo aquelas maravilhas talhadas pela mão do homem como a espetacular Linha Vermelha, obra máxima do engenho humano. Seria, sem dúvida, um passeio inesquecível.

Outra opção seria dar a coleção completa das revistas Playboy, à guisa de sutil tripudiação. Mas do jeito que a minha patroa sexagenária é, é bem capaz de se achar parecida com as modelos e não entender o meu recado. Ainda tenho algumas horas pra pensar.

Por falar nela, semana passada fui à festa de encerramento da escola de danças onde a beletrista, na  falta de coisa melhor para fazer, está a estudar.

Aliás não sei como ela foi selecionada entre as melhores alunas da academia, pois ontem mesmo, a neófita do ballet me perguntou o que era um pas de deux, vejam os senhores! 

A coreografia na qual Zenóbia estava escalada era uma triste história de amor, onde uma mocinha sentava-se sobre a sua mala na estação (Zenóbia fazia o papel da mala!) a esperar seu noivo que nunca chegava. Mesmo como pouquíssimo movimento em cena, Zenóbia consegiui cair duas vezes no palco. Um recorde!

Após a desastrosa apresentação zenobiana houve uma confraternização num salão de festas aqui da cidade.

A festa naturalmente foi um horror. Alguma concludente teve a infeliz idéia de sugerir uma homenagem ao Brasil. Pronto, foi o suficiente. 

Uma banda de pagodeiros adaptou para samba todo o repertório do Roberto Leal, imaginem os senhores, que tragédia!  

Velhos barrigudos suavam em bicas, metidos em ternos empesteados de naftalina. O vinho, que tiveram a pachorra de servir, foi uma das coisas mais repugnantes que já provei na vida. Uma verdadeira afronta à nossa tradição vinícola. Chamava-se Samba Canção, Bolero, alguma coisa assim.

Por falar em ritmos, a valsa foi um capítulo à parte. Uma torre de Babel em termos de dança. Ninguém se entendia.  

Mas, mesmo assim, a Zenóbia se esbaldou até de manhã, assediada por um portador de Síndrome de Down e por um anão do Grand Circus Barbosinha. Quem entende as mulheres?

Até semana que vem

Um abraço do

Apolônio Lisboa

 

 

 

 

 

 

 

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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