UM OLHAR SOBRE OS VESTÍGIOS DO TEMPO

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Os homens têm o defeito de acreditar que são fisicamente eternos e indestrutíveis na batalha contra o tempo. Não sendo espelhos de si mesmos, pensam que a velhice somente atinge as pessoas que desfilam diante de seus olhos. Crêem, portanto, que somente eles descobriram e gozam de fórmula secreta do elixir da juventude. É claro que não me excluo desta análise, mesmo porque sempre me achei bastante novo para a minha idade, embora tenha o costume de brincar dizendo o contrário. Os sinais da atuação do tempo sobre o meu corpo, a exemplo da barba cada vez mais grisalha, as ininterruptas dores nas costas, ou mesmo o cansaço diante de um pequeno esforço físico, não me faziam cair na real. Tampouco achava suspeita a insistência em ser chamado de “senhor” ou “tio”, pois atribuía tal fato ao formalismo da profissão que abracei ou à vinculação emocional com os amigos dos meus filhos. Não obstante os evidentes vestígios que desfilavam na passarela do meu corpo, somente esta semana, depois de consultar uma oftalmologista, é que o óbvio literalmente saltou diante dos meus olhos. Segundo o já esperado diagnóstico médico, eu teria que aceitar conviver, como companheiros inseparáveis, com dois temidos óculos. É isso mesmo, a partir daquele exame, eu precisaria buscar o aconchego artificial de lentes para corrigir o defeito imposto pelo tempo, caso pretendesse aliviar o cansaço do meu olhar. Não que eu tenha qualquer preconceito contra quem usa óculos, até porque minha esposa e dois dos meus filhos os usam regularmente, nada influenciando o amor que nutro por eles. O problema estava centrado na simbologia que eu atribuía ao fato de não precisar da companhia dos receitados óculos, pois eu me gabava por dele guardar confortável distância, apesar de já ter ultrapassado a barreira dos quarenta anos. O resultado do exame não poderia compreendido de outra forma: a idade chegou para mim, trazendo, em conseqüência, a visão mais cansada e turva. A partir de então estou tentando me acostumar às minúsculas lentes confeccionadas para corrigir a minha involuntária preguiça para enxergar de perto, embora ainda relute a aceitar o símbolo que elas representam. Tenho a promessa técnica de que serei recompensado pelo meu esforço para recuperar a auto-estima perdida, afinal vários óculos são discretos, modernos e charmosos. Também me consola a certeza de que, com eles, mais do que nunca, as diminutas letras que me impediam de devorar um saboroso livro ou saciar o meu glutão paladar para escrita já não serão obstáculos impeditivos da comilança. A lição que retirei do episódio foi igualmente importante, pois com ele fui obrigado a compreender que, mesmo confuso pela novidade, realmente não tenho o poder para fazer parar o tempo. A fonte da juventude, em que eu acreditava estar eternamente mergulhado, não passava de uma grande propaganda enganosa, felizmente agora claramente enxergada. Achei até natural ter ficado abalado com a revelação, embora, confesso, tenha “porreta” o irônico paradoxo que se exibiu zombateiramente diante de mim. Não é para menos, pois não deixa de ser engraçado descobrir a minha fragilidade física exatamente porque passei a enxergar melhor. Passado o impacto da descoberta, acalenta-me saber que ainda mantenho jovial o meu olhar para as longas distâncias, especialmente para aquelas coisas que ficam ocultas no mundo físico. Alegra-me redescobrir que vida não se limita ao corpo humano ou mesmo a um padrão estético criado por uma cultura que apenas valoriza o mundo físico. O charme dos óculos é poder melhor enxergar que é a vida é imortal, apesar dos vestígios do tempo sobre o nosso corpo. * Cezar Britto é advogado, conselheiro Federal da OAB e presidente da Sociedade Semear. cezarbritto@infonet.com.br

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