Uma boa propaganda

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O jornal Valor Econômico de quarta-feira circulou com um caderno especial sobre Sergipe e seu potencial de crescimento. São 12 páginas bem ilustradas, cinco delas de publicidades do governo do Estado e de empresas que atuam no Estado. Chama atenção que um caderno tão bem pago, inclusive pela gestão petista de Marcelo Déda, ao mesmo tempo em que divulga ao público do Sudeste os potenciais investimentos, confirma, sem ressentimento, que muitos dos empreendimentos ora desenvolvidos vêm de governos anteriores — principalmente do governo inimigo de João Alves Filho.


São citados com destaque, por exemplo, o Parque Tecnológico de Sergipe (SergipeTec), as pontes Aracaju-Barra e Mosqueiro-Caueira, a refinaria de petróleo e os complexos hoteleiros Starfish e Brisa de Atalaia, na Barra dos Coqueiros, e Viva Carnaval, em Ponta do Saco, todos herdados do governo “megalomaníaco” do antecessor.

Até os índices referentes ao PIB sergipano são de 2005, do governo passado. O Valor cita que, naquele ano, Sergipe tinha um PIB de R$ 13,42 bilhões — correspondente a apenas 5% de participação no PIB do Nordeste e meros 0,6% do PIB nacional —, mas que o PIB per capita se mantinha bem acima da média da região: R$ 6.821 contra R$ 5.498, em 2005.

O que o jornal não explicita, embora os números embutam esse dado negativo, é que o PIB per capita de Sergipe cresce menos que o nacional. Em 2002, o PIB per capita do Brasil, de R$ 8.378, era 39,6% maior do que o PIB per capita de Sergipe, enquanto que, em 2005, o PIB per capita nacional, de R$ 11.658, já era 41,44% maior do que aquele sergipano. Espera-se que os números dos dois anos recentes sejam mais favoráveis.

A BOA NOTÍCIA É QUE GOVERNO E EMPRESARIADO, que já está instalado ou que está chegando, estão empolgados. O texto de abertura, estampado pelo título “Salto de qualidade — Incentivos e modernizações atraem R$ 1,2 bilhão em potenciais investimentos”, cita a evolução do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) acima da média nacional e informa que, de acordo com o secretário de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia, Jorge Santana, 37 empreendimentos incentivados pelo governo estão em fase de implantação este ano — em comparação a seis em 2007. “Além deles, estão em análise mais 31 projetos dos setores industriais, hoteleiro e da área de etanol”, informa o secretário.

Se os pedidos de abertura de fábricas saírem do papel, informa o jornal, os investimentos totais podem chegar aos tais R$ 1,2 bilhão e gerar 11,7 mil empregos diretos nos próximos três anos. E as novas empresas vão espalhar-se por pelo menos 20 municípios, estimulados por uma política de interiorização de investimentos fomentada pelo governo. Leia-se impostos e aquisição de lotes subsidiados e mão-de-obra barata.

Para o secretário Jorge Santana, além dos incentivos fiscais, como a redução de 92% do ICMS, o governo oferece outros chamarizes: “Temos capital humano produtivo e assíduo, uma malha rodoviária sendo reformada e uma posição privilegiada, entre dois grandes centros consumidores do Nordeste: Pernambuco e Bahia”.

O Valor acrescenta que foi por conta desse “lugar privilegiado no mapa” que empresários como Airton Optiz, presidente do grupo paranaense Cequipel, do setor de móveis, resolveu criar uma fábrica de 10 mil metros quadrados em Sergipe — a primeira do grupo longe do Sul do Brasil. “Vamos economizar de 12% a 15% nas despesas de logística para abastecer os clientes do Nordeste”, informa o empresário, que se instalou em Nossa Senhora do Socorro para produzir móveis escolares.

O professor do Departamento de Economia da UFS, Ricardo Lacerda de Melo, explica que o estado diferenciou-se de seus vizinhos por ter estruturas industriais e agrícolas diversificadas e pela convivência com grandes empreendimentos, como os da Petrobras, da Vale e da Votorantim. “Além disso, há um grande número de pequenas e médias empresas de capital local e uma classe média que se expande rapidamente”.

Outro chamariz sergipano para os investidores, lembra o Valor, é a malha de 116 km de gasodutos que disponibiliza gás natural para os distritos industriais de Aracaju, Nossa Senhora do Socorro, Itaporanga e Estância.

DE ACORDO COM ANCELMO OLIVEIRA, PRESIDENTE DA CODISE, diariamente, duas propostas de abertura de novos empreendimentos aterrissam sobre sua mesa. Cerca de 70% são negócios criados por grupos sergipanos, menos de 30% vêm de outros Estados e 5% são consultas de investidores estrangeiros, a maioria dos EUA e Espanha.

Contraponto, o jornal ouviu o presidente da Federação das Indústrias do Estado de Sergipe (Fies), Eduardo Prado, que lembra que ainda há muito por fazer: “É preciso modernizar a infra-estrutura portuária (e aeroportuária), ampliar a formação de parcerias público-privadas e retomar setores tradicionais da economia sergipana, como a indústria têxtil e a de calçados, que empregam uma maior quantidade de mão-de-obra”.

No mais, duas novidades. A secretária do Planejamento, Lúcia Falcón, anuncia um consórcio com o governo de Alagoas para a instalação de um aeroporto com terminal de cargas em Canindé de São Francisco e o próprio governador Marcelo Déda revela o projeto de implantar uma Zona de Processamento de Exportações (ZPE) ao lado do Porto, com empresas da cadeia produtiva de gás e petróleo, e confirma que vai construir uma refinaria para a exportação de combustíveis com baixo teor de enxofre, que atendam às normas ambientais dos mercados americano e europeu. “O investimento, com ajuda do governo federal, vai envolver R$ 2 bilhões”, acrescenta Marcelo Déda, que aparece sorridente na foto da página que encerra o caderno especial.

Com uma notícia como esta, João Alves não sabe se ri ou se chora.

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