Uma inutilidade muito bela?

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Foi somente uma inutilidade muito bela?

 

As comemorações do Sete de Setembro foram as mais belas que assisti nas últimas sete décadas.

Eu sou do tempo em que o Governador do Estado desfilava em carro aberto para a solenidade de revista as tropas, que formavam para o desfile do dia da pátria.

O carro pertencia a um proprietário bem abonado chamado Jusce Faro, salvo engano, que garbosamente bancava o chofer, em terno claro, engravatado, uma honraria prestimosa ao governante do Estado, independente da agremiação política que ocupasse o Palácio Olímpio Campos.

Nesse tempo eu residia na Rua de Pacatuba, logradouro onde tudo passava, de bloco carnavalesco a enterro, de procissão a passeata de estudante, num desfilar vasto de personagens folclóricos, aí incluídos muitos beatos esfregando longos rosários e pedintes, alguns deles furiosos e perigosos, a brandir cacetes contra a meninada que lhes açulava a paciência com os seus apelidos rejeitados: Tô-te-ajeitando, Santo-doutor, Reza-reza, Carne-frita, Moleque-namorador, Escarrate, Maria-inocentinha, uma longa lista de pedintes, geralmente estropiados e aleijados, não tanto quanto agora, em cada esquina, os chamados flanelinhas, portando cartazes a reclamar uma fome que se ampliou com  pandemia.

Naqueles felizes tempos, a epidemia mais perigosa que nos atingiu foi a da Gripe Asiática, quando nossa casa virou enfermaria com muito menino a tossir e catarrar, meus quatro irmãos e alguns primos.

No mais a doençaria que nos atingia era sarampo, catapora, papeira e coqueluche, curados com banhos tépidos, chás amarguentos e unguentos, havendo dois casos de febre tifoide, porque andava e virava, Dona Lourdes, minha mãe, posava de enfermeira e cuidadora de muitos familiares que vinham do interior, lhes recuperando as forças ou lhes abrandando os derradeiros suspiros.

Dona Lourdes, que tinha uns olhos azuis, puríssimos, era uma mulher de muita habilidade e ternura, o que não a impedia de aplicar injeções no braço ou nos glúteos, abundantemente, a quem precisasse e requeresse, e enfiar, garganta a dentro, o que era bem pior por exigir firmeza e força, os purgativos medievais de óleo de rícino, intragáveis, só deglutidos mediante rolha de cortiça acunhada entre os molares, numa medicação prescrita, destinada a expulsar, reto a fora, o vasto parasitário que adquiríamos nos folguedos areais dos nossos quintais.

Nesse tempo nos fundos das casas plantava-se tudo, de goiaba a sapoti, criando-se até galinha, e perus, gato e cachorro, com direito até a um casal de cágado, nossos companheiros de infância.

Se o quintal permitia tal criação, asfaltamento só existia na Rua de João Pessoa, quando os caros podiam ir e voltar na mesma via.

Quanto ao desfile de Sete de Setembro, as forças armadas, o Exército, a Policia Militar e o Corpo de Bombeiros marchavam garbosamente no período matutino, sendo o período da tarde destinado ao desfile estudantil.

Em minhas lembranças, até os Educandários Salvador e Brasília desfilavam no Sete de Setembro.

Lembro que até o Jardim de Infância Augusto Maynard tinha também o seu desfile, hoje talvez documentado por alguma foto esmaecida, que lembrava possuir, mas que se perdeu, restando-me uma fardinha que ainda hoje conservo, usada por um garoto que já fui, e não mais sou: Odilonzinho.

Um pouco maior, ao ingressar na pré-adolescência, empolguei-me com o desfile dos escoteiros, que se somara à marcha das nossas forças armadas.

No Sete de Setembro de 1958, já estava eu com chapéu de escoteiro na cabeça, lenço grená e branco, as cores do “Grupo Escoteiro Jackson Figueiredo”, calça curta e meião comprido, faca e cantil na cintura, todo uniformizado desfilando na Rua de Pacatuba, sob a liderança de Chefe Walter João Dantas, fundador do movimento escotista em Sergipe.

Desfilei com os Escoteiros até os quinze anos de idade.

Por esse tempo meus colegas e eu, passamos a nos acanhar com o uniforme escoteiro. Parecíamos uns meninões que não amadureciam num desfilar em calças curtas.

Como não havia chegado ainda a moda das chamadas “bermudas”, as calças curtas eram indumentárias infantis, fazendo parte também dos uniformes dos cursos primários, já que no Ginásio e no Colegial a farda era calça caqui comprida e blusão, cheio de botão e com lapela no ombro.

Como só criança usava calça curta, os escoteiros como eu, passamos a nos desinteressar com o movimento.

Quanto ao desfile de Sete de Setembro, sempre participei enquanto estudante, inclusive nos famosos Jogos da Primavera, quando fiz parte da Banda Marcial do Atheneu em várias paradas.

Com a incursão da política na vida nacional, disseminou-se uma campanha contra as nossas forças armadas e os símbolos cívicos do Dia da Pátria.

Com os anos se amontoando e as décadas se acumulando, num desvirtuamento crescente da festa cívica, resolveu-se implantar uma “Marcha de Excluídos”, alguns Padres e Leigos querendo denunciar num dia que deveria ser para o cultuo da pátria, seus valores e heróis, sem Credo e em pregas fora da lei, que nada há a valorar, enaltecer e quiçá comemorar, só a miséria crescente e a ação demente dos homens que bem se utilizam da vã demagogia para a ilusão dos parvos.

No Sete de Setembro que passou, um oceano de gente foi às ruas, praças e avenidas, não para a esbórnia de uma parada gay; não para uma procissão em prece a um deus qualquer, ou ao Deus verdadeiro; não para um pedido de expiação de pecados; não para o regozijo de um campeonato; não para um protesto raivoso, irado e complexado, como fora esperado por denunciado e ameaçado…

A multidão, diga-o assim, porque não foi um “milharzinho” apenas, foi um espetáculo nunca visto por mim, que já enxerguei muita coisa.

Tanta coisa, que bem valia cantar o Salmo de Simeão, se o país mudasse, se os nossos formadores de opinião não falseassem tanto, e teimassem em repetir o que não viram, só porque a inveja não os permite mirar em próprio reflexo de espelho.

E o que querem esses míopes em falcatrua, senão despertar o ódio, a ira desembestada, e a repressão por costume lamentada?

Incomoda-lhes a felicidade do povo engalanado no verde e amarelado? Vale apenas conspurcar a bandeira, o Hino pátrio e suas cores?

Algumas imagens do Sete de Setembro de 2021 recebidas via internet

Permitam-me discordar dos que nada viram, e a tudo mal disseram.

Eu vi apenas, o mar de gente, passar também a minha frente, não sei liderado por quem, na Beira Mar que se fez luminosa, acolhedora. E isso me basta!

Quem só viu ali o mal e a insuficiência de um povo reunido, é bom abrir os olhos!

Nesse mar, e em todos os mares baixios da vida, há muitos rochedos imersos, e a nau que nos transporta é frágil, muito frágil. Ela não já soçobrou tantas vezes!?

Quem ausculta na vigia, abra os olhos,…, lembre-se que o casco do navio é frágil!

Se foi uma inutilidade pouco bela, alguém me mandou uma foto que bem exibe o que deveras foi e alguns teimam em não querer ver… Querem mais???

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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