Uma questão de fé

No dia 08 de dezembro foi comemorado o dia da padroeira de Aracaju, Nossa Senhora da Conceição. Essa data é um marco tanto para a religião Católica, quanto para as religiões afro-brasileiras, cuja santa é sincretizada com a Orixá Oxum. O que muita gente não sabe é sobre as histórias que o sincretismo carrega ao longo das décadas de período escravocrata e pós-abolição com as perseguições às casas de axé ou terreiros.  A sábia estratégia de sincretizar santos católicos com os Orixás foi uma maneira encontrada pelos povos de terreiro para preservar sua fé e resistir às violências contra seus rituais e crenças, que ainda são atacados e atingidos até a atualidade. Enquanto candomblecista, filha de Yemanjá, decidi usar essa coluna para disseminar informações que considero importantes e fundamentais para, através do conhecimento, eliminar o preconceito e desmistificar o tema.

Religiões como o Candomblé e Umbanda, que são as mais populares dentre os cultos afro religiosos no Brasil, são atos de resistência. O Candomblé, por exemplo, surgiu de uma mescla de rituais e crenças advindas da costa africana, a exemplo de países como Togo, o antigo Daomé (Benin), Congo, Angola e Nigéria. Homens e mulheres escravizados que vieram dessas regiões, adaptaram suas crenças e sua fé ao chegar no Brasil, como forma de preservar o poder de sua ancestralidade, a partir de elementos encontrados por aqui, que também fazem parte da fauna e flora de lá, com o denominador comum entre esses rituais, que é o do culto à natureza e toda a sua força sagrada. Já a Umbanda, é uma religião advinda das práticas do espiritismo kardecista, porém, com a inserção de entidades brasileiras, a exemplo do culto aos caboclos, pretos-velhos etc., bem como muitos terreiros de Umbanda também cultuam os Orixás.

É necessário compreender que práticas religiosas que diferem de um modelo Ocidental não significam dizer que são melhores ou piores, arcaicas ou modernas, são apenas diferentes. O etnocentrismo, que significa o ato de impor a sua cultura como superior ou mais importante que as demais, não cabe numa sociedade complexa, com toda a sua diversidade, manifestações de ser, de agir, e mescla de culturas diversas. Ninguém é puro, todas as pessoas são afetadas de alguma forma, desde que nascem até a sua morte. E quando falo em afeto, é no sentido de que algo sempre nos toca , nos transforma, e nos ensina.

Aprender sobre algo, ter afinidade com determinados aspectos de uma ou mais cultura e religião não deve ser excludente, ou seja, não é necessário que o conhecimento e uma crença substituam a outra. Podemos conviver e comungar a nossa diversidade, entendendo que a minha liberdade de crença e de ser não deve impor, invadir ou destruir a liberdade de crença e ser de qualquer outra pessoa.  O princípio básico de qualquer religião é (ou deveria ser) o respeito. Além disso, não é necessário saber sobre uma crença para entender que num Estado laico, segundo a Constituição Federal, devemos respeitar a liberdade de escolha e de culto, e assim, cada um com sua fé, deverá seguir com a paz que tanto é almejada através das religiões no Brasil.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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