Uma verdade aparente e nada diplomática

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Cláudio Abramo já ensinava que o jornalista deve procurar a verdade que está camuflada atrás da verdade aparente. Mas a verdade nem sempre é dita na imprensa — sobretudo na grande imprensa. Muitas vezes é distorcida, às vezes é dita pela metade, ou a conta-gotas. À proporção que vai se desvelando, vai-se dizendo mais um pouquinho. Porque a verdade sempre aflora, mais dia menos dia, e a imprensa também se contradiz.

A memória da eleição passada está muito viva e os arranhões sofridos pela grande imprensa ainda não estão cicatrizados. Mas que importa? A revista Veja, que se desmoralizou, mantém-se na trincheira, buscando a verdade que interessa a ela. Na última semana, publicou as páginas amarelas com o ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Roberto Abdenur, hoje um desafeto declarado do ministro das Relações Exteriores Celso Amorim.

“Nem na ditadura” é o título da entrevista. Abaixo, um subtítulo explicativo: “O diplomata diz que a política externa do governo Lula é contaminada pelo antiamericanismo e pela orientação ideológica”. Ao lado, a foto do entrevistado, braços cruzados, ar circunspecto, e uma frase de efeito cravada sobre a ilustração: “Há um sentimento generalizado de que hoje os diplomatas são promovidos de acordo com sua afinidade política e ideológica, e não por competência”. Lá dentro, mais duas frases textuais e igualmente fortes, sobre a orientação ideológica hoje reinante no Itamaraty, segundo ele.

Uma “arrasadora entrevista”, repercutiu Miriam Leitão na terça-feira, fazendo coro com aquilo que foi destacado pela revista e atacando o absurdo de “submeter adultos do nível profissional dos diplomatas à exigência de leituras obrigatórias e dirigidas”. Claro que a entrevista fez eco no Congresso, onde deputados e senadores manifestaram o desejo de convocar Roberto Abdenur para esclarecer as declarações bombásticas.

A maior crítica do diplomata à atuação do Itamaraty está na dimensão exagerada dada à cooperação entre os países menos desenvolvidos, em detrimento do diálogo Norte-Sul. “A esta altura da vida, com o mundo em transformação vertiginosa, não vale mais valorizar tanto a dimensão Sul-Sul. Isso é um substrato ideológico vagamente anticapitalista, antiglobalização, antiamericano, totalmente superado”.

Em suma, as decisões hoje, segundo ele, são pautadas pela miopia de um grupo de esquerdistas. “Nunca, nem na ditadura militar, (…) houve tentativa de convencer os diplomatas dessa ideologia”, conclui o experiente Abdenur, que acaba de se aposentar após 44 anos de carreira. Ponto.

 

O não dito

O que não está dito — pelo menos nos destaques dados pela revista Veja e na repercussão dos jornais e no Congresso — é o que compõe os dois terços restantes da entrevista.

Há pontos positivos na política externa brasileira? “Sim, sem dúvida”, responde o diplomata. “O Brasil engatou uma parceria com Índia, Japão e Alemanha para obter uma cadeira definitiva no Conselho de Segurança da ONU. É uma luta válida, que vai trazer resultados. Acho muito bom o que o governo tem feito para abrir novas frentes de comércio com países árabes, com o Sudeste Asiático, com a Ásia Central, com a África. Acho muito positiva também a forma inovadora de trabalho com o Ibas (grupo que reúne Índia, Brasil e África do Sul). É a primeira vez que três países grandes, de três continentes diferentes, se unem para buscar iniciativas conjuntas. Acho que o Brasil tem conduzido com amplo equilíbrio e proficiência as negociações da Rodada de Doha. O Brasil é um jogador decisivo, tem uma atuação de liderança no G20 muito importante. Há ainda a questão do Haiti, onde lideramos pela primeira vez uma ação de países latino-americanos em favor da paz. Enfim, houve acertos…” Não parece outra entrevista?

E sobre o tal antiamericanismo do governo Lula? “Pode parecer paradoxal, mas a relação do Brasil com os Estados Unidos prosperou significativamente nos últimos anos. Graças a uma pessoa que manda muito no governo brasileiro, uma pessoa de extremo pragmatismo e lucidez, que é o presidente Lula. Ele não esconde seu desagrado com algumas coisas que o governo Bush tem feito, particularmente no Iraque. Mas Lula sabe que uma relação melhor com os Estados Unidos é de interesse do Brasil. Quando fui assumir a embaixada, ele me disse: ‘Roberto, quero deixar como legado para o futuro bases ainda mais sólidas e mais amplas na relação entre os dois países’. Como embaixador, tive algumas dificuldades, mas nada que fosse impeditivo”.

E mais: Roberto Abdenur observa, com razão, que há no Brasil setores, “embora minoritários”, que têm aversão aos Estados Unidos, inclusive dentro do governo e do Itamaraty (claro, também há quem tenha aversão aos chineses, aos russos, aos argentinos…). Mas nem esse ranço, prossegue o diplomata, atrapalhou seu trabalho. “A relação Brasil-Estados Unidos nunca esteve tão bem”, admite, sem esconder uma ponta de orgulho pelo trabalho que, afinal, ele desempenhou.

E, por fim, qual a imagem do presidente Lula nos Estados Unidos? “É uma imagem positiva”, diz Abdenur. “Ele é o líder de uma democracia estável, um governante que tem uma biografia louvável. O governo Lula tem merecido respeito mundo afora por conciliar uma política econômica pragmática com políticas sociais efetivas e uma política externa séria. Isso começou com Fernando Henrique, mas o governo Lula avançou”.

Óbvio que o ex-amigo e hoje desafeto, o quase sergipano Celso Amorim, nem precisa responder. Mas a Veja e companhia podiam ser menos sectárias. E não ficarem só na verdade aparente.

 

Para contextualizar

O comércio exterior do Brasil cresceu como nunca e as exportações dobraram no primeiro governo Lula. Enquanto as exportações mundiais cresceram 61% entre 2002 e 2006, as vendas brasileiras avançaram 96%. O comércio com África do Sul, China, Rússia e Índia cresceu de US$ 7,6 bilhões para R$ 19,9 bilhões. A China já é o quarto maior parceiro comercial do Brasil, atrás da União Européia, dos Estados Unidos e do Mercosul.

O intercâmbio no bloco sul-americano é recorde e o Mercosul ganhou força regional com a entrada da Venezuela. Em 2002, as exportações para os países do bloco correspondiam a US$ 3,3 bilhões; em 2005 somavam US$ 11,7 bilhões — crescimento de 254%. Sergipe, especificamente, também ganha. De 2005 para 2006, as exportações aumentaram 18,8%, somando US$ 78,9 milhões, maior volume exportado nos últimos 12 anos, segundo informação do economista e consultor Paulo Afonso Marques de Souza.

O texto acima se trata da opinião do autor e não representa o pensamento do Portal Infonet.
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