Wild Wild Country – selvageria, subversão

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A primeira impressão para alguns deste documentário da Netflix é, talvez, a estupefação. Onde está a ficção, onde está o documentário? No fundo essa pergunta é feita quando parecemos distantes do verossímil. Distante da realidade. Ou melhor, distantes do real instituído. Wild, Wild Country faz o que poucos filmes documentários no gênero clássico conseguem fazer: questionar a nossa realidade de maneira material.

Questiona de maneira enfática. Dura. Alongada, apesar dos 6 episódios somente. O filme coloca em cheque toda uma cultura de perseguição étnica Americana – e aqui não veja só a cultura “norte-americana”, pois a sul-americana também se vê envolvida nesse tipo de perseguição de povos. Peregrinos hindus são, para os wasp, ou, os brancos ocidentais, um povo a ser exterminado – como andam fazendo com a cultura árabe. A ironia: um povo que já foi perseguido, os judeus, fazem isso.

A perseguição é comum a qualquer outra etnia, outro povo, que não seja o branco. Exclusão, exclusividade étnica. Veja-se nessa atitude um caráter político, claro, mas não só isso. É um ideal de civilização que permeia um só tipo de vida (unidimensional), a intolerância em relação à diferença, a imposição de sua cultura através de uma religião-ideologia que se conforma pela lei. A lei que prende. Que delimita o crime. Que serve ao núcleo de elite branco e perseguidor. Quando os povos excluídos tentam algo igual, são deportados, exterminados, extintos.

Parece teoria da conspiração. Mas quando se assiste ao documentário dos diretores Chapman Way e Maclain Way, tudo fica mais claro. Por quê? Porque a realidade que surge diante de nós é muito impressionante. Chega-se a questionar inclusive que se fizessem um livro sobre o que aconteceu na comunidade de Bhagwan Rajneesh (o conhecido Osho, dos livros tântricos), todos achariam que foi inventado. Mas ali no documentário, pelo contrário, é tudo muito real em depoimentos de integrantes da seita do Rajneesh. Pois os depoimentos são marcados por muito afeto, muita dor.

Trata-se de um grupo de neo-hippies que financiam a vinda do guru hindu para um rancho em Oregon. A ideia era de não se conformar com o mundo ocidental: “Ele (Osho) queria criar uma comunidade internacional, com um campo de forças espiritual compartilhado”. Um guru trotskysta?

Revolucionário comunista pós-moderno? Um retrógrado dentro do império norte-americano? Ou, simplesmente, uma nova figura do oriente dentro de nossa bolha imaginária? Esse grupo, então, resolve intensificar a luta por território (ou por sobrevivência) diante da cidade provinciana e conservadora. É preciso lembrar que os Beatles, maior banda de rock dos anos 1960, tinham ido à índia e se deixado influenciar pelo oriente de uma maneira intensa. E também criticaram a postura de seu líder espiritual, tempos depois.

O outro lado mostra o fanatismo da seita religiosa de Bhagwan, que se tornou imensamente influente nos EUA. “Terrorismos” químicos, ameaças armadas, porém, no caminho do auto-conhecimento, a auto-gestão, construção da cidade em mutirão, habitação compartilhada e tudo o que vem nessa contradição que foi Rajneshpuram – nome da cidade que foi erguida no meio do nada.

Foi um sonho, logo após John Lennon ter sido assassinado em público, na cidade de Nova York (aquele que disse “o sonho acabou”). Para os habitantes do interior, ali, foi um delírio. Um grupo patológico, que fazia orgias e gritavam como animais. Eram fundamentalistas que ameaçavam o estilo de vida puritano – cristão – , que é tão difícil de se manter. Uma questão que, por cima, envolve a saúde mental de cidadãos.

Por fim, outra coisa impressiona no filme. Não há, por enquanto, críticas negativas à série documental. Todos ficam chocados. A realidade choca. A briga por sobrevivência no mundo atual, choca. A selvageria dos EUA, a complexidade do capitalismo e de sua dimensão espiritual, tocada por Osho, a intolerância e ignorância de poucos procuradores e agentes da lei… tudo choca. Porém, o filme nos diz muito da política no Novo Mundo. Sim, em todas as américas. Não se trata só do populismo de líderes, mas de uma saída. Uma tentativa de saída, do unidimensional colonizador.

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