Heróis Sergipanos

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Em recente artigo, publicado na edição de 20/06 do Le Monde, Stéphane Ratti, pofessor de História da Antiguidade da Universidade de Bourgogne Franche-Conté, apreciando o feito inusitado realizado por Mamoudou Gassama, o “homem aranha” malês que salvou uma criança pendurada na sacada de um edifício, se questionava o que seria um herói.

Quem pode ser considerado um herói, nesses nossos tempos de conceitos relativos, transitórios e mutáveis, à luz da ampla opinião midiática e fugacidade de interpretações, nunca isentas da imparcialidade que separa gostos, odios e indiferenças ressentidas.?

A pergunta feita pelo professor, refletia o feito, inusitado também, da recepção no Palácio do Eliseu, pelo Presidente Macron, deste imigrante irregular, cujo gesto heróico impressionara o mundo.

Dissera o Presidente Francês, exaltando o feito de Mamoudou: “Você se tornou um exemplo para muitas pessoas. É normal que a nação demonstre seu reconhecimento, e por isso, a partir de hoje, todos seus documentos serão regularizados e vamos dar início a um processo para que você possa obter sua cidadania francesa”.

Nesta declaração de heroísmo a um imigrante indesejado, inseriu-se o tema da irregular imigração, objeto político separatista dos países da união europeia, uma inserção com pintas de tolerância e aceitação das diferenças, assunto tão fustigado pelas intolerâncias ressurgidas recentemente, em forte viés nacionalista, quase um latente e crescente secessionismo europeu, justamente quando se pensava tudo isso já estar abolido e sepultado frente ao que sereia um germe cristalizador dos “Estados Unidos da Europa”, com bandeira azulina e uma aliança de estrelas.

Que seria então um herói?, pergunta o Professor Ratti.

E respnde, instigador: “A meu sentir, há quatro espécies daquilo que se poderia classificar como herói; o guerreiro épico (Aquiles), o santo cristão (o mártir), o gênio (Sócrates) e o pioneiro (o aventureiro)”.

Segundo sua classificação, estas categorias corresponderiam a quatro valores fundamentais: “patriotismo e busca da glória pelo exemplo de Aquiles; devoção e compaixão dos Santos; sabedoria e conhecimento pelo filósofo Sócrates; defesa da civilização pelo pioneiro.

E se aprofunda o Professor: “Em Homero luta-se para a imortalidade pela Glória (Kleos) e essa preocupação, imaginada por vaidade muitas vezes, é vestida com o ouropel do patriotismo, do épico, narrado nos poemas homéricos e, especialmente, na Eneida de Virgílio, patrocinada pelo Imperador Augusto (27 a.C. – 14d.C.), para evocar o nascimento Nacional”.

“A partir de Tertuliano”, prossegue Ratti: “agora no terceiro século, e, especialmente com a perseguição contra os cristãos no início de quarto século, o conceito de herói antigo é substituído pelo do Santo cristão”. 

Ora, entre os Santos há primeiro, o mártir, o que testemunha sua fé pela morte e sofrimento, mas também o soldado de Deus que se realiza pelo seu pacifismo e por sua recusa a dobrar-se frente ao Estado, ou ao Príncipe que o governa, uma façanha digna de ser cantada em versos como aqueles dos antecessores pagãos. 

Santo Augustinho, na cidade de Deus (10, 21), diz, referindo-se aos mártires, que "se o uso da Igreja o permitisse, seria mais relevante chamá-los ‘nossos heróis’”.

“Uma semelhança com o herói “profano”, como imitação consciente advinda da mesma inspiração civilizacional, a Paidéia Greco-romana, sendo que o mártir procura atingir a vida eterna, não uma fugacidade etérea”. 

Para o Professor Ratti, “O gênio e o filósofo são comemorados desde a antiguidade como um herói verdadeiro”.

E exemplifica como a bela página de Lucrécio que no século I a.C. destaca seu mestre Epícuro em De Natura Rerum, como o herói que libertou os homens do terror que sentiam perante os deuses, e que, “o ensino epicurista enfatizava a despreocupação quanto ao destino, não havendo razão para o medo”.

Como se sabe, o epicurismo atribuía a infelicidade dos homens ao duplo medo; da morte e dos deuses.

Assim, “o primeiro homem, um grego, ousou levantar seus olhos mortais contra a religião, sendo o primeiro, também, a se erguer contra ela" (1, 66-67)

Medos à parte, prossegue o Professor Ratti, autor também de “Le Premier saint Augustin”, Edition Les Belles Lettres, 2016, livro bastante elogiado pela crítica francesa; “Tertuliano, em seu grande tratado datado de 197, ‘A Apologética’, explica que os valores morais defendidos pelos mártires cristãos e pelos filósofos gregos são basicamente os mesmos, ou seja, o bem e a verdade”.

O que não impede que os cristãos possam inserir e defender uma escatologia própria a separá-los, com base na fé em Crtisto e na Sua Ressurreição.

Se falamos do gênio, do filósofo e do santo, o quarto tipo de herói estaria ligado ao pioneirismo surgido a partir do século XIX e estaria exemplificado na figura emblemática de Jules Verne, com sua ilha maravilhosa e seu Nautilus, confluindo o progresso como fé na humanidade, ensejando jardins Hespérides, repletos de ninfas em substituição do Paraíso.

Permanecendo na relação dos vivos perante seus mortos destacáveis, e sem enveredar pela recompensa aos mortos, enquanto heróis, o professor Ratti não fala de outros paraísos como a Valhala dos Vikings, nem aqueles dos Druidas celtas, muito menos o paraíso muçulmano com suas hipotéticas setenta e duas virgens, em enleios confortadores para os super-homens falecidos, recompensas extensivas também às supermulheres ou heroínas com sua recepção paradisíaca pelos “ghilmaan”, rapazes brancos ornados com pérolas; ambos de tradição medieval, por interpretação de palavras e atos de Maomé. 

De qualquer maneira, para a criação do herói, e sua permanência resistindo à ferrugem e aos vermes, enquanto erosões do tempo e esquecimento, é necessário que a este seja acrescida uma dimensão literária.

Não uma que lhe seja falsa como aquela ficcional de Dorothy M. Johnson, texto do notável filme de John Ford, “The Man Who Shot Liberty Valance”, que no Brasil passou como “O Homem que Matou o Facínora”.

Liberty Valence, o facínora (Lee Marvin), Ramson Stoddard em avental de lava louças, o que ficou famoso (James Stewart), e Tom Doniphon, o matador não tão corajoso (John Wayne)

Ali o herói era outro, não o advogado e político Ramson Stoddard, vivido por James Stewart , mas o valente Tom Doniphon na pele de John Wayne.

Diga-se, entretanto, que Wayne, não fora tão herói assim, porque ao matar o facínora Liberty Valence, vivido por Lee Marvin, o fizera escondido na tocaia, revelando uma vergonhosa covardia.

E o filme termina bem consistente com o real, comum e ominoso, a publicação do falseado por ensejar melhor querência de leitores, afinal aqui e ali no “Velho Oeste, senhor, quando a lenda vira um fato, publique-se a lenda”.

O assunto me veio à mente porque nestes últimos quinze dias faleceram figuras notáveis da sociedade sergipana; o Arcebispo Emérito de Aracaju, Domo Luciano José Cabral Duarte, o Ex-Vice-Governador, José Carlos Teixeira, o Ex-Prefeito de Aracaju e Médico, Cleovansóstenes Pereira de Aguiar, destaques heroicos que se somam aos policiais Capitão Oliveira e a Sargento Eliana Costa Silva, ambos mortos por balas covardes.

Dom Luciano Cabral Duarte e sua irmã Carmen Dolores Duarte, grande divulgadora de sua obra literária e filosófica.

Dom Luciano é dessas figuras que ultrapassam críticos e admiradores, afinal sucedidas como todas em missão necessária, restam bem substituídas, muito raramente.

Relembro o Padre Luciano de bicicleta pelas ruas de Aracaju, isso nos anos 1950, já um aguerrido combatente da pureza da sua fé.

Firme nos seus conceitos, audaz lutador, jamais temente à luta aberta em defesa das suas crenças.

Relembro-o também veraneando em Atalaia Nova, promovendo quermesses, bazares e danças de guerreiro de crianças e de jovens, incluindo veranistas e nativos no esforço de congraçamento e convivência para o erguimento da pequena igrejinha do Oró.

Vejo-me inclusive fantasiado com chapéu colorido e espadim de madeira, dançando o guerreiro das crianças, para arranjar fundos e construir a igrejinha que surgiria logo.

Por sua inteligência, caráter, coragem e ousadia, Dom Luciano foi uma figura bem acima da comezinha mediocridade daqueles que temendo a porfia, persistem na razia cupinicida, que teima em roer as colunas monolíticas de não seu agrado.

Seus críticos não percebiam em equivocada tetraplegia ideológica a multifacetada atuação do Padre em tarefa incansável de convencimento e conversão.

Quando se envereda pelo equívoco, a estupidez norteia vidas para o além do erro, mesmo que santos tentem converter almas, e sábios ao intelecto convencer.

E nem o envelhecimento, a inapetência dos gostos, o cansaço e a dissolução dos sonhos perdidos, amaina os passos tardos no reconhecimento de erros em prece de arrependimento.

Erra-se em cascata, nos mesmos rios e em motivações renovadas, mesmo quando não se banha mais em antigas águas. Um desafio à profilaxia do erro, onde a reeducação é uma quimera, e o perdão uma missão exclusiva dos santos piedosos.

Não fora assim, o sofrimento de castigos e privações dos outros, próximos ou distantes nos gulags, revelaria um antidotismo necessário, a prescrever reincidências.

O problema é que ninguém resta convencido com palavras e argumentos.

Vale, nesse caso, o ilogismo bronco; “Não li e não gostei”, tão comum ao apedeuta que se crê letrado, ou também àquela chacota atribuída a Georges Clemenceau, “o tigre”, lida pela metade: “Um homem que não seja um socialista aos 20 anos não tem coração..”

Esquecem, convenientemente, por continuada estultice, a outra metade de seu pensamento, bem mais sábio, por irônico: “Um homem que ainda seja um socialista aos 40 não tem cabeça”.

Por ser um homem notável em raciocínio, cultura e argumento, o padre Luciano incomodava sobretudo o vulgo que não se acreditava assim.

Como ser laureado com “Mention très honorable avec félicitations du jury”, da Universidade de Sorbonne, em Paris, França, e retornar para se enterrar na terrinha, perante tantos espíritos micuins, que mordem e coçam em demasia, cheiram como pé-de-atleta, sugam hemácias quais morcegos, e arranham suas cordofonias desafinadas aos ouvidos dos incautos, em sinfonia tão comuns aos pântanos e muriçocas dos Aracajus?

Não conseguiu também calar os socialistas inférteis em imaginação e desérticos na ação contra o latifúndio improdutivo, que desejavam coletivizar a produção e desapropriar a terra alheia, mesmo sendo um vitorioso pioneiro na pastoral da terra e na promoção do homem do campo.

Vitórias que geravam antipatia e ciúmes e também o despeito e a injúria, afinal destacava-se como escritor e pensador, ensaísta notável, jornalista da Revista O Cruzeiro, creditado no Concílio Vaticano II, debatedor apolíneo, polemista corajoso em defesa de sua fé externada no tema episcopal escolhido, “Scio Cui Credidi” (Sei em quem acreditei).

Cronista amoroso e terno de “Europa Ver e Olhar” e de “Índia a “Voo de Pássaro” e sábio por teses como "La Nature de l'intelligence dans le thomisme et dans la philosophie de Hume"(Tese de doutorado em Filosofia, na Sorbone) e outros escritos.

Escritos que estariam perdidos sob poeira de bibliotecas vazias, se não fosse o trabalho de sua irmã, Carmen Dolores Cabral Duarte, resgatando áudios e vídeos de sua monumental obra enquanto pensador e prelado.

Porque Dom Luciano era alguém que falava e escrevia com conteúdo, sempre atualizado e merece ser ouvido, estudado e reverenciado.

Um pensador notável, mas que seria esquecido não fosse o esforço de sua irmã Carminha, que recupera incansavelmente diuturnamente os seus trabalhos, e de seus muitos amigos e admiradores da fraternidade cristã surgida a partir de suas prédicas, retiros espirituais em pastoral da inteligência, estimulando peregrinações como a de Divina Pastora, trazendo da Europa tal devoção medieval como as de Lourdes, Lisieux e Santiago de Compostela.

Hoje milhares de pessoas sobem a colina da cidade de Divina Pastora, sem perquirir como tal devoção aconteceu, só para contemplar a face daquela mãe querida, que estaria esquecida não tivesse sido desvendada pelo Padre Luciano, levando em 1958, jovens universitários até a cidade de Riachuelo, tão poucos então, em partida da primeira peregrinação a Nossa Senhora Divina Pastora.

E eu lembro bem disso, porque eram tão poucos universitários, que até eu, um menino de 12 anos fui incluído também no ônibus, seguindo a estrada em grupos de prece e meditação, sob a orientação do Padre Luciano, do Frei Edgar Stanowski e do Padre Claudionor de Brito Fontes, com direito a almoço comunitário, que cada um trouxera de casa com bornal e cantil, e pequena sesta à sombra de um aprazível bambuzal na fazenda Salobro.

Dir-se-á, eis o grande crime! Dom Luciano não era um homem de esquerda, esta hemiplegia sempre na moda, e jamais fora de moda. Se o fosse receberia a mesma troça.

E porque assim não foi, bem poderiam ser destinadas no seu túmulo as palavras que o antropólogo Darcy Ribeiro afirmara em panegírico do Filósofo e Ensaísta, José Guilherme Merquior: “Eu tenho raiva desta direita porque eles são mais inteligentes do que nós”.

Quando aconteceu o golpe cívico-militar de 1964, nesta terra de poucas araras e cajus, a esquerda jururu, queria que Dom Luciano terçasse armas contra o regime autoritário instaurado, quando sua melhor missão era promover os meios para evitar a incidência dos comuns excessos, até mesmo arriscando incompreensões e suspeitas.

Diferente de muitos que ao temor se escafediam, ele visitava os presos políticos no 28o Batalhão de Caçadores, evitando-lhes acréscimos de torturas e sofrimentos, dando-lhes inclusive o conforto da oração, celebrando Missa para crentes ou incréus, e lhes dando a comunhão.

Suportaria, por agir assim, similar injúria de Martin Heidegger; ter sido memorável reitor da Universidade de Frieiberg, sem jamais permitir perseguições políticas e pregações antissemitas no seio da universidade, isso em 1933, quando Adolf Hitler era uma unanimidade e toda a Alemanha o idolatrava como ideal líder.

Padeceria essa injustiça comum de viver em tempos trevosos e ser aviltado em hora posterior de denúncias cavilosas e heroísmos nebulosos.

Dom Luciano foi o esteio vivificador da Ação Católica em Sergipe, dos movimentos JEC, JOC, JUC, e sobretudo da LUC, Liga Universitária Católica, coluna fundamental que sustentou a nascente Faculdade de Filosofia e até da Universidade Federal de Sergipe.

Universidade que fundada há 50 anos, teve sua origem a partir de seu trabalho, pioneiro e incansável, junto ao Ministério da Educação e ao Conselho Federal de Educação.

Projeto de Universidade que sofreu campanhas deletérias na terrinha miúda, aí inseridos vastos segmentos intelectuais que rejeitavam a “Fundação Universitária”, conceito inaugurado pelo Regime Militar vigente, a Ditadura Militar como se fala amplamente agora em unânime reprovação, um resquício de que toda unanimidade continua emburrecida, porque a “Fundação Universitária Federal de Sergipe”, mesmo concebida em viés norte americano como se desprezava então, restou aberta a todos os saberes e jamais uma instituição “criada para ser reacionária”, como era comum repetir.

Incompreensões repetidas como um ataque rasteiro desferido contra Dom Luciano, porque em sendo Professor Titular da Universidade Federal continuava destacado membro do Conselho Federal de Educação.

Era uma denúncia escandalosa, injuriosa mesmo, digna de um François Ravaillac, o assassino de Henrique IV, o rei francês Huguenote, para quem “Paris bem merecia uma Missa”, uma frase que bem valia a conciliação de Católicos e Protestantes.

Seria digna de um Ravaillac, repito, se não fosse apenas um escarro de garganta sem firmeza de punho, afios de punhal, e avios de coragem.

Coragem que faltou a quem devia defende-lo e ainda ouço por desbrio a pior explicação: “Melhor é o silêncio, fingir que não houve ofensa. Responder seria nivelar rasteiro a figura de Dom Luciano, com a deste falastrão sem mérito”.

Meritocracias, vilanias e pusilanimidades à parte, o fanfarrão o inerte e o cobarde se acham detentores de todas as razões.

Raciocínio que vale também para negar valor a outro dos nossos falecidos exemplares; José Carlos Teixeira, o grande líder da resistência democrática em Sergipe.

Zé Carlos, como todos assim o tratavam, não era um homem de esquerda. Nunca o foi, nem por origem de seus familiares empresários do Comércio e da Industria da Construção Civil.

Zé Carlos Teixeira e este articulista.

Nestes tempos de facciosas “Comissões de Verdade”, o excedente heroísmo em carência de cadáveres está a listar sofrimentos de feridas permanentemente doridas.

São lesões rotineiramente reabertas, só para mostrar uma hemorragia exangue, maximizar o mal terrível acontecido, restando pior enquanto inconcluso e obtuso, por jamais denunciar o causador, deslindar a autoria e a materialidade, como se melhor findassem, estendendo-a “erga omines”, a todos, senão “urbi et orbe”, pelo menos bem além do universo circundante e circunstante.

Nivela-se a todos no crime denunciado inafiançável e hediondo de tortura, colocando no mesmo caldeirão de iniquidades: os verdugos escafedidos, os eventuais beneficiários mal escandidos, e tantos que a história não conta, porque no anonimato dos seus gestos lutaram e conseguiram o arrefecimento dos ânimos.

Mas, voltando a Zé Carlos, dizem por mote de releitura histórica, ser um homem de esquerda. Não era!

De esquerda, ideológica ou demagógica, eram e não são mais assim, muitos daqueles que usaram o palanque e os microfones bancados financeiramente por Zé Carlos e Oviedo, seu pai, que embarcou nesta aventura de muitos militantes, aí incluídos alguns idealistas, excedentes espertos e disfarçados farsantes.

Zé Carlos nunca vira tantos assim, preferia destacar-se desde jovem como realizador e inventivo.

Esteve, desde sua fundação, à frente da Sociedade de Cultura Artística de Sergipe, da Aliança Francesa, dos grupos de Teatro e cinemateca de arte, num tempo em que Sergipe se desejava mais apolíneo que dionisíaco.

Não sendo um homem de esquerda, Zé Carlos elegeu-se Deputado Federal pelo Partido Social Democrático, o PSD, em 1962, tempo em que várias siglas de esquerda poderiam ser por ele escolhidas.

Foi o mais votado Deputado Federal da Coligação PSD-PR que elegeu Seixas Dória Governador.

Pelo seu líder maior, Francisco Leite Neto, em discurso no Cine Teatro Rio Branco, naquele distante 1962, afirmava, que diferente do seu homônimo europeu, o PSD não era uma agremiação de esquerda, mas de centro-esquerda; reformista, dir-se-ia hoje, mesmo porque ser “gauche” na vida sempre fora receita de sucesso.

Em 1964 dá-se a morte no mês de fevereiro do líder pessedista, o Senador Leite Neto, sem que este visse o Golpe Militar de inspiração udenista se fazer vitorioso no país, e colocando o PSD, o partido de Zé Carlos, no comando do Estado com o Governador Celso Carvalho.

Viria depois a reforma partidária extinguindo o multipartidarismo.

Os militares acreditavam que o problema do país seria melhor resolvido com o bipartidarismo, talvez por inspiração norte americana. Seriam criados a ARENA, Aliança Renovadora Nacional, e o MDB, Movimento Democrático Brasileiro.

Horácios, Curiácios, pancrácios e pascácios ingressaram festivamente na ARENA.

Zé Carlos, talvez porque quisesse comandar um partido, assumiu o MDB, preferindo batear aridez desértica de homens e ideias, envolvendo seu próprio pai, Oviedo, numa campanha difícil; impossível mesmo.

Oviedo, o “bom sujeito”, perdeu a eleição para o Senado, e Zé Carlos, quase não renova o seu mandato de Deputado Federal em 1966.

Em 1970, novas eleições, o “bom sujeito” novamente concorria ao Senado, logrando nova derrota, desta vez acachapante, porque nem Zé Calos, o grande líder, conseguiria a suplência para a Câmara Federal, embora obtivesse a segunda maior votação, em termos absolutos, faltando-lhe o MDB em suficiência de legenda.

Como ser um líder político sem mandato, se comandados sempre resistem à obediente hierarquia?

Eis que1974 se aproxima. Ulysses Guimarães tenta conter moderados e autênticos no MDB nacional. Encara uma anticandidatura à Presidência da República, para denunciar o Colégio Eleitoral.

Idas e vindas aconteciam, o mar ficando revolto, um desafio a timoneiros nas tormentas,

Por estas e outras, e porque não mais ousassem lançar-se nas procelas desconhecidas das urnas, nem Oviedo, nem Zé Carlos ousam pleitear o Senado como muitos o queriam. Irão concorrer às Câmaras Federal e Estadual, desta vez obtendo sucesso.

Uma decisão que não se lhes revelou de todo feliz, afinal 1974 fora um ano em que o MDB se vitoriara, Brasil afora, desferindo profunda, mas não fatal, punhalada no regime militar produzindo 16 derrotas que abalaram o país.

Analisando tal debacle, Sebastião Nery, diria que diferente do resto do país, um médico que nunca fora político, Gilvan Rocha, elegeu-se Senador por Sergipe.

Era o palanque dos Teixeira sendo bem mais fértil aos correligionários, que a si próprios.

Na eleição seguinte, a de 1978, vigia o “pacote de abril de 1977”, editado pelo General Geisel, criando a figura do “Senador Biônico”, a ser eleito indiretamente, e a sublegenda partidária, o que evitaria as surpresas oposicionistas da eleição anterior.

Por repetida insuficiência de avaliação, Zé Carlos achou que era agora sua a vez de se vitoriar ao Senado.

Ledo engano. A sublegenda o derrotaria mais uma vez.

Ei-lo de novo na planície, sem mandato, com outras lideranças assumindo o proscênio da oposição, entre autênticos e moderados.

Viria agora o retorno dos cassados, daqueles que mourejaram inelegibilidades políticas por longos anos.

A eleição de 1982 mostraria, em equivocada porfia, que em Sergipe não vinga Fênix. Candidato à Câmara Federal, Seixas Dória, “o réu sem crime” não teria sucesso, restando suplente de Zé Carlos em sua penúltima disputa eleitoral.

Penúltima, porque na última, em 1986, faltaram-lhe 52 mil votos, aí incluídos muitos dos seus antigos liderados, na tentativa de empalmar o Governo de Sergipe.

Sergipe é difícil. Foge aos padrões nacionais.

Se foi dito acima que aqui não nasce Fênix, na eleição de 1986 o MDB foi vitorioso em todo o país, em alvíssaras de Nova República e em revérbero do Plano Cruzado.

Em Sergipe, lamentável, o MDB, agora como PMDB, seria o único derrotado.

De Zé Carlos poder-se-ia dizer muitas coisas, seu amor à cultura, sua atuação como último Prefeito Biônico de Aracaju quando demonstrou uma eficiência jamais imitada pelos que o sucederam, sua atuação como Secretário da Cultura, incentivando a nossa Orquestra Sinfônica.

Zé Carlos, porém, não seria escandido ao lixo da História. Seria ainda um Vice-Governador na eleição de 1990, agora como companheiro de chapa de João Alves Filho.

Depois a fragilidade tolheu-lhe os passos.

Igual a Dom Luciano, foi um herói dos novos tempos, um combatente retirado da luta, antes da hora. Oportunidade para que outros pudessem fazer melhor história.

Continuando a rememorar feitos, se já escrevi bastante, desejo enaltecer também a figura do Médico José Cleovansóstenes Pereira de Aguiar, Professor da Universidade Federal de Sergipe, Ex-Prefeito de Aracaju, “Prefeito Biônico”, como se dizia a razia carrapata de então, para denunciar uma ilegitimidade eleitoral.

Um grande homem de Sergipe

Os homens têm que ser dignos, corretos e responsáveis. E Dr. Sóstenes o foi.

Foi um prefeito admirável como poucos antes dele sobretudo depois, eleitos ou nomeados.

Um verdadeiro varão de Plutarco sem perquirir vãs homenagens nem vantagens vis.

Vejo-o, voz frágil, em terna e tosca eloquência, dirigindo por décadas a oração ao cadáver desconhecido, nas formaturas dos novos médicos, recomendando a temperança na vida e na profissão.

Dr. Sóstenes foi outro combatente retirado da luta antes do tempo, deixando como Dom Luciano e Zé Carlos Teixeira uma abundante saudade.

Quanto aos policiais Capitão Oliveira e a Sargento Eliana Costa Silva, ambos mortos por balas covardes, diferentes de Aquiles, Ulysses ou Sócrates sacrificaram suas vidas por sua cidade ou pela de seus concidadãos. 

Eles não tiveram absolutamente medo da morte, pensaram talvez em Cristo ao escolher a morte para salvar os outros.

Sócrates aceitando a sentença de seus concidadãos não salvou ninguém, nem deu a vida por eles. 

Sêneca, que o imitou três séculos depois, não salvou nem por seu suicídio o seu carrasco, o Imperador Nero. 

A que categoria pertencem o homem que arriscou sua vida para salvar uma criança na França, os policiais falecidos em combate e os sergipanos notáveis pranteados?

Nas Gáleas houve celebração pelas redes sociais como heróis, até com direito a discurso presidencial. Aqui nem tanto.

Será suficiente para salvar suas memórias do esquecimento? 

O feito destes homens e mulheres demonstrando a Virtus do Guerreiro, a força do soldado, a inteligência prática do atleta, a cultura e os saberes são suficientes para firmá-los como heróis?

Para o Professor Ratti, isso não é suficiente; é preciso haver uma dimensão literária para a ereção do herói.

Alexandre Magno visita a tumba de Aquiles, o Herói troiano cantado por Homero.

E arrima-se, sem citar Plutarco, o Historiador latino do final da antiguidade, narrando o desejo realizado por Alexandre, o grande, em visitando o túmulo de Aquiles, para adorná-lo com uma coroa.

Afinal diante da sepultura de Aquiles, o grande herói macedônio dissera referindo-se à história de seus feitos amplificados na Ilíada por Homero: "Tu, ó jovem herói, tivestes a sorte, por ter encontrado um escritor igualmente notável para enfatizar os  feitos”.

No pensar do Professor Ratti, por arrimo de Plutarco, não há heróis sem grande memorialista, e Cicero já reclamara que ninguém, entre os seus amigos, concordara em celebrar a sua Glória. 

É necessário, portanto, que os valores incorporados por um herói sejam repetidos por leitores em potencial, o que nos faz voltar à questão dos sentimentos partilhados entre um protagonista, seu autor, e o público que tudo vê aplaude, apupa ou desdenha; uma questão comparável de cota e grandeza, engrandecida ou amiudada.

Seriam Dom Luciano Duarte,  Zé Carlos Teixeira, Cleovansóstenes Aguiar e os policiais mortos, heróis combatentes e exemplos notáveis a exibir na história sergipana?

Creio que sim, e aqui estou eu a louvar a passagem deles entre nós.

A estes bem vale ouvir de Mozart o seu requiem lacrimoso .https://youtu.be/k1-TrAvp_xs

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