Cão-guia em condomínio: jornalista denuncia síndico por discriminação

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Zoé é um cão de assistência em fase de socialização. Após um ano, ele receberá treinamento adequado para tornar-se cão guia (Foto: Jéssica Vieira)
Jéssica e Zoé lutam para andar lado a lado em todas as áreas do condomínio (Foto: arquivo pessoal/Jéssica Vieira)

A jornalista Jéssica Vieira registrou um boletim de ocorrência contra o síndico do condomínio onde mora, no bairro Grageru, em Aracaju, por discriminação à pessoa com deficiência. Na denúncia, Jéssica, que possui problema congênito e dispõe apenas de 10% da visão, relata ter sido ameaçada pelo síndico de receber multa caso circulasse com sua cadela de assistência nas áreas comuns do prédio.

Jéssica conta que após ter acionado a justiça para obter o direito de circular com o animal sem infringir as regras do condomínio, entrou em acordo com o síndico no último dia 29 de agosto e passou a circular com a cadela ao seu lado. Porém, recentemente, encontrou pessoalmente com o síndico, ocasião na qual ele informou que por meio das câmeras, a viu circular com Zoé nas áreas de lixo e do estacionamento, o que na sua visão, não estaria autorizado e poderia resultar em multa.

“Ele disse que eu estou descumprindo o acordo e ameaçou me multar caso veja novamente eu circulando com Zoé para o lixeiro, estacionamento ou qualquer outro lugar do condomínio que não seja o trajeto do meu apartamento para saída e vice-versa. Mas eu não estou descumprindo acordo, estou tentando viver de melhor forma e com minha cadela no chão, conforme o direito que me foi dado”, explica.

A jornalista entende que a postura do síndico é de discriminação e privação de liberdade. “Me senti discriminada porque ele sabe da minha condição de pessoa com deficiência e está exigindo que eu coloque Zoé no colo se eu quiser ir para as áreas comuns. E o pior que isso também é uma privação de liberdade, pois ele quer delimitar o espaço que vou frequentar. Na visão dele, só posso andar com Zoé e no chão do meu apartamento para saída. Se alguém me chamar ou me parar, ou se for a outro lugar do condomínio, devo colocar Zoé no colo”, lamenta. “Andar com Zoé ao meu lado é uma questão de acessibilidade, de tecnologia assistiva. A cadela me dá noção de orientação e mobilidade”, completa.

Comissão da OAB acompanhou Jéssica a Delegacia

OAB

Para o presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência da OAB/SE, Ricardo Mesquita, o síndico está praticando discriminação e usando o acordo para, mais uma vez, proibir a jornalista de circular com o seu cachorro.

“Jéssica já havia informado antes mesmo do processo que o cão dela não pode ser classificado como cão guia porque ela está em fase de socialização. Como ele é novinho, ao completar um ano é que ele vai receber o treinamento de cão guia. Além disso, fomos a delegacia com ela e o animal não atrapalhou em nada. Quem estava lá viu que ele é super dócil, não causa susto e nem incômodo nenhum”.

Ainda de acordo o presidente, o síndico está levando a situação para o lado pessoal. “Este caso se tornou uma verdadeira perseguição pessoal. Porque se um cachorro late, ele não procura saber qual foi, ele já vai atrás de Jéssica para reclamar”, exemplifica. Ricardo Mesquita conta também recebeu relatos de que o síndico estaria usando sua condição de advogado, profissão que exerce, para impor o seu modo de pensar. “Vamos apurar e dar oportunidade de defesa para depois tomarmos uma decisão mais segura conforme a lei. Se isso ficar comprovado, vamos levar a situação ao Conselho de Ética” finaliza.

O Portal Infonet não procurou o síndico devido às atitudes dele ao ser procurado anteriormente para se manifestar sobre a questão. No último contato, por telefone, o síndico ameaçou prestar boletim de ocorrência na Polícia Civil por estar “se sentindo coagido” pela equipe de reportagem. Mesmo assim, o Portal Infonet permanece à disposição. Informações podem ser enviadas por e-mail jornalismo@infonet.com.br ou por telefone (79) 2106 – 8000.

 

por Verlane Estácio

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