Dona Neném – Humildade e Determinação

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Neuzice dos Santos, a dona Neném
A força de Neuzice dos Santos, a dona Neném, não está apenas na força física que a faz carregar trouxas de roupa na cabeça pelas ruas do bairro Farolândia. Está na sua história de vida, tão recheada de obstáculos e vitórias, ao mesmo tempo. Para encerrar a série especial que homenageia o Dia Internacional da Mulher, o Portal Infonet apresenta-lhe uma mulher que pretende conciliar as atividades como lavadeira e diarista com os estudos no curso de Pedagogia, o qual foi aprovada no final de 2007.

 

Natural de Aracaju, dona Neném teve uma infância pobre ao lado da família. Entrou tarde na escola e precisou interromper os estudos primários por causa do marido. “Ele era muito ciumento, pediu para eu sair da escola e não trabalhar. Era uma prisioneira”, afirma. Após dezoito anos de união, seu companheiro faleceu e ela precisou ir a luta para sobreviver. “Eu nunca tinha trabalhado, ele ganhava pouco mas dava para a gente ir levando. Foi aí que começou minha vida de doméstica”, declara.

 

No início, dona Neném começou a trabalhar em uma única casa de família. Com a construção de condomínios de classe média nas imediações de onde mora, próximo ao campus de uma Universidade, ela percebeu que poderia ganhar com isso e saiu do emprego fixo. “Não tinha nem carteira assinada lá. Quando começou a morar gente aqui nesses condomínios comecei a pegar freguesia e faço diária, lavo e passo roupa em casa. Comecei a ganhar mais e pude terminar a minha casinha”, afirmou a diarista que tem uma extensa lista de clientes que pagam de R$ 25 a R$ 40 pela diária.

 

Voltando aos estudos

 

Ela fala do sonho realizado de passar no vestibular
A morte do marido não trouxe apenas a necessidade de trabalhar como também o desejo de retornar à sala de aula. “Não foi uma coisa imediata, não! Eu ainda tava me acostumando no trabalho, chegava cansada, mas depois de um tempo fui tentar terminar o segundo grau em um curso destinado para adultos”, relembra dona Neném que ainda ressalta a dificuldade que era conciliar o trabalho com o estudo no supletivo. “Era uma correria danada, chegava da casa dos outros e precisava deixar a minha arrumada também, né? Me arrumava, ia pra aula, voltava e ainda terminava de passar roupa que precisava entregar no outro dia”, relata.

 

Em 2007, aos 47 anos de idade e após 21 deles fora da escola, não conteve as lágrimas ao pegar seu certificado de conclusão do ensino médio. “Eu nem consigo descrever, foi como pegar um troféu na mão”, orgulha-se. Mas de acordo com dona Neném, ela ainda queria mais. “Eu ainda queria ser professora, meu sonho de criança, a vocação que eu sempre senti”, revela.

 

O vestibular

 

O sonho de trabalhar na área de educação levou a diarista a prestar vestibular para o curso de Pedagogia em uma faculdade particular em Aracaju. Nervosismo na hora da prova? “Nenhum! Sentei e ‘desci a caneta’ naquela prova”, brinca. Mesmo confiante, dona Neném revela que foi uma grande emoção ver seu nome na lista de aprovados. “A primeira coisa que me veio a cabeça na hora foi: ‘Meu Deus, eu consegui!’. Eu dedico a Deus toda essa minha trajetória”, disse.

 

Ela fez a matrícula, mas até o momento em que concedeu esta entrevista não sabia se iria cursar. “Não tem nada a ver com tempo, porque eu sempre dou um jeito, e cansaço, que é uma palavra que não tem nada a ver comigo. A questão é financeira mesmo, porque eu sustento a casa, crio minhas sobrinhas e ainda ajudo minha mãe”, lamenta.

 

As suas sobrinhas que moram com dona Neném, são tidas como as filhas que não teve pela lavadeira. Ela diz que as meninas supriram a sua frustração com a maternidade. “Sempre sonhei em ser mãe, enquanto estava casada sofri cinco abortos espontâneos. Mas acredito muito no destino que Jesus nos traça”, falou.

 

Filha de um homem machista e casada com um também machista, dona Neném diz que a situação da mulher atualmente está muito diferente, principalmente quanto à submissão da mesma ao marido. Questionada sobre como se vê daqui a 20 anos, ela foi categórica. “Espero estar com 70 anos e o dobro da disposição que tinha aos 35”, conclui aos risos a grande mulher de 1m48 que encerra a série de reportagens especiais do Portal Infonet ao Dia Internacional da Mulher. Abaixo seguem as história de vida das cinco mulheres homenageadas durante esta semana:

Jaci – Mais que uma tia, uma mãe!

Maria Thetis – Uma vida para a Educação 

Drª Clara Leite Rezende, primeira Desembargadora do Estado em Sergipe 

 

Cléia Souza – Exemplo de superação

 

Por Glauco Vinícius e Raquel Almeida

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