Fausto Cardoso: de herói de Aracaju a mito esquecido

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Em 28 de agosto de 2006, completam cem anos da morte de uma das figuras mais importantes da história de Sergipe: Fausto Cardoso. Advogado, sociólogo, jornalista, político e orador, Fausto foi morto – com um tiro no peito – ao tentar enfrentar as tropas do exército que estavam em Aracaju para acabar com o levante que, posteriormente, ficou conhecido como “Revolta de Fausto Cardoso”. Nascido no Engenho São Félix, no município de Divina Pastora, em 1864, Fausto Cardoso estudou na Faculdade de Direito do Recife. Contemporâneo de Tobias Barreto terminou fazendo parte da famosa “Escola do Recife”. Eleito deputado federal, em 1900, foi considerado um orador brilhante. Para explicar a lenda que se formou em torno dessa figura emblemática e a importância do movimento encabeçado pelo político, no início do Século XX, o Portal InfoNet entrevistou a professora Terezinha Oliva. Autora da obra “Impasses do Federalismo brasileiro” – livro que faz uma análise do levante e também traz uma reflexão sobre a situação dos pequenos Estados na estrutura da República oligárquica – a professora é uma estudiosa da vida de Fausto Cardoso e aqui traça um pequeno histórico do homem que, ao morrer, ficou conhecido como “O herói de Aracaju”. PORTAL INFONET – Quem foi Fausto Cardoso? TEREZINHA OLIVA – Fausto Cardoso foi um intelectual sergipano que viveu no final do século XIX e morreu em 1906. Ele faz parte do grupo de sergipanos que compunham a então chamada “Escola do Recife”, ou seja, os sergipanos que trabalharam intelectualmente sob a influência de Tobias Barreto. Foi aluno e discípulo de Tobias Barreto, o que significa que estudou na Faculdade de Direito do Recife e, ao mesmo tempo, seguiu as idéias do mestre. Mas Fausto teve uma característica particular porque, como a maioria dos discípulos de Tobias, teve um caminho próprio. E esta era uma das características de Tobias Barreto, era um mestre que não determinava o caminho dos discípulos. O interessante em Fausto Cardoso é que ele optou por um caminho radical, que às vezes se opunha a certas interpretações do mestre. Assim, ele escreveu vários livros, entre os quais um chamado “Concepção Monísitca do Universo”, onde está o cerne do seu pensamento e “Taxonomia Social”, onde ele faz a classificação, digamos assim, dos princípios do seu pensamento em relação à sociedade. Escreveu artigos, sobre assuntos como a cientificidade da história, obras de direito, escreveu poemas, enfim, tudo isso é Fausto Cardoso. Foi um intelectual importante, na época em que viveu no Rio de Janeiro. Professor da Faculdade Livre de Direito e também algumas mentes intelectuais do Rio, na belle epoque. INFONET – Em que contexto histórico viveu Fausto Cardoso? TO – Fausto Cardoso nasceu em Divina Pastora, na segunda metade do século XIX. Depois foi estudar no Recife, onde cursou Direito. Posteriormente voltou para Sergipe onde foi promotor público em algumas comarcas, entre elas Laranjeiras. Nessa época, por desentendimentos dentro da política local resolveu se mudar para o Rio de Janeiro. Este era o caminho natural dos grandes intelectuais que não se acomodavam na vida limitada que se tinha aqui. E não só em Sergipe, mas também em todos os Estados do Nordeste. Ao chegar no Rio ele se projetou. Não apenas como professor de direito e escritor, como também chegou a ter um jornal chamado “A Aurora”. E a época que ele viveu se caracterizou por isso. Intelectuais com um campo de interesse muito amplo. Não era a época das especializações, ou seja, de alguém ser só jurista ou médico. Era um período em que os intelectuais eram médicos, mas escreviam sobre história, sobre política, poesia. São intelectuais de um campo de interesse muito amplo. E assim foi ele. INFONET – E essa era uma característica dos componentes da “Escola do Recife”. TO – Exatamente. Os discípulos de Tobias Barreto caracterizaram sua ação, também, por uma atividade política de militância. Assim Fausto, que se envolveu na política sergipana mesmo estando no Rio. Algo que também era outra característica da época, já que diante do ambiente acanhado daqui essas pessoas que saíam do Estado mantinham laços com sergipanos e de certa forma – eu acredito nisso – esse grupo do Rio, que foi grande e importante, tentou de lá dirigir um pouco a política local. E Fausto faz parte desse grupo e termina apadrinhado por Prudente de Morais, que foi presidente da República. Posteriormente se candidatou a deputado federal por Sergipe e é eleito em 1900. E foi deputado federal nessa legislatura de 1900 a 1902. Nesse momento ele explode por ser um grande orador e alcança um sucesso tremendo na Câmara Federal. O Rio de Janeiro todo o conhecia. As galerias da Câmara ficavam cheias quando ele ia discursar e este foi o seu auge. Depois ele perde a eleição seguinte, mas retorna em 1906, que é também o ano de sua morte. Neste período também foi eleito já em outro contexto, quando é eleito como oposição à política dominante em Sergipe, que é comandada por monsenhor Olympio Campos. Ele vem agradecer a sua eleição em Sergipe e, então, vai acontecer o movimento que levou a sua morte. INFONET – E o que foi a “Revolta de Fausto Cardoso”? TO – Para entender é preciso lembrar que a República iniciou-se no Brasil como um movimento oligárquico, no contexto do coronelismo, dominado então por grupos que se perpetuavam no poder e ganhavam sucessivamente as eleições. Dentro da política dos governadores, que foi um grande pacto – digamos que assinado tacitamente, não assinado propriamente – convencional entre o Governo Federal e o Governo dos Estados. O que levou a esse pacto foi o fato do Governo Federal, que praticava uma política econômica impopular, combatendo os empréstimos e a dívida externa brasileira – uma situação que se repete no Brasil – precisar ter um certo controle sobre os Estados. E o que é que ele faz? Ele faz um grande acordo entre a esfera federal e estadual, um acordo que permitia que os grupos estaduais, aliados ao Governo Federal, fossem continuamente reeleitos. Isto constitui a República oligárquica. E em Sergipe o primeiro grande grupo oligárquico na República é o liderado pelo monsenhor Olympio Campos. E Fausto Cardoso, que se elegeu inicialmente aliado ao grupo de Olympio, rompe com este e retorna à Câmara Federal como oposição a oligarquia. Por isso, quando ele vem a Sergipe, vem numa espécie de desafio. Ele alega que é para agradecer a eleição, a vitória, mas é claro que ele vem desafiar o poder que mandava em Sergipe. Diante disso, quando ele chega ao Estado já encontra uma revolta preparada pelos seus partidários, essa revolta queria derrubar a oligarquia olympista, isto é, o governo do desembargador Guilherme Campos, irmão do Monsenhor Olympio Campos. INFONET – E quem eram os revoltosos? TO – Aquela foi uma revolta da Polícia de Sergipe, que tomou o palácio Olympio Campos, na madrugada de 10 de agosto de 1906, e estabeleceu o governo de um novo partido fundado pelos amigos de Fausto, chamado “Partido Progressista”. Esses progressistas, também tomam conta da Assembléia Legislativa, expulsam os deputados eleitos pelo Governo e também de vários municípios do interior, como: Própria, Laranjeiras, Itabaiana, Riachuelo, Maruim, Divina Pastora. E foi um governo que foi se estendendo e tudo isso em pouquíssimo tempo. O interessante é que a revolta foi curta, durou apenas de 10 de agosto a 28 de agosto. Isto porque no dia 28 foi quando Fausto Cardoso foi morto e aí veio a derrota da revolta. Mas neste período, de 18 dias, ela se espalhou, praticamente, por todo o Estado. Então, isso é que foi a Revolta de Fausto Cardoso, um movimento que pretendeu derrubar a oligarquia Olympio Campos baseando-se no prestígio popular e político de Fausto Cardoso, que era amigo do presidente da República, gozava de um grande prestígio no Rio de Janeiro e em outros locais do país. Foi isso o que deu confiança aos seus partidários. INFONET – E quais foram as conseqüências, imediatas e posteriores, desse levante? TO – O desfecho da revolta não foi positivo para Sergipe inicialmente, isto porque o Partido Progressista, quando assumiu, estava longe dos ideais do que Fausto apregoava. Muito do que Fausto dizia, e o que os amigos dele queriam, era distinto. Eles queriam era tomar o governo, na verdade. Mas Fausto fazia um discurso conclamando a que se fizesse uma nova política. Política progressista na visão dele seria uma política de base, de concórdia, de elevação moral e ética. Então, há uma certa distância entre o que ele fala e o que era realizado pelos partidários que aqui estavam e que, eu acho, tinham mais o pé no chão. Viam que o exercício da política aqui era aquele café-com-pão mesmo. De tomar o poder. De se apegar aos cargos, dos quais eles foram retirados há muito tempo. Pois bem, quando se dá a revolta, como reage o governo? Havia no Rio de Janeiro o monsenhor Olympio Campos que era senador. Então ele, apesar de estar aqui, na época da revolta, tinha contato no Rio. E claro que ele procura manter esses contatos a favor do seu grupo, que na época estava no poder. E o que é que ele faz? Ele consegue, na Câmara e no Senado, uma posição favorável a ele, apesar de Fausto ser deputado federal. Olympio consegue forças políticas no Rio de Janeiro que fazem com que o governo federal, mesmo sendo exercido por um amigo de Fausto, que era o presidente Rodrigues Alves, fosse obrigado a mandar forças do Exército para Sergipe para recolocar no governo Guilherme Campos. E é isso que acontece. Sergipe vai ser invadida por forças do exército, que vêm da Bahia e Pernambuco, e que vão recolocar o governo olympista. E é exatamente nessa operação que fausto, que era uma pessoa de temperamento muito arrebatado, resolve ir sozinho – até convida outras pessoas – mas vai desarmado, enfrentar tropas do Exército. E quando vai, ao Palácio do Governo, enfrentar, ele acreditava que pelo discurso inflamado ele conseguiria mudar a posição das tropas, ele recebe o tiro que o matou. Então ele é morto pelo Exército e imediatamente todo o movimento se desorganiza. Porque a notícia de que Fausto morreu leva todas as tropas a desistirem. Houve uma debandada geral, um medo muito grande de perseguição, a notícia de que o Exército estava em Sergipe e dominava Aracaju levou a uma desarticulação absoluta da revolta e os olympistas retomaram facilmente todos os postos que tinham sido tomados aos progressistas. Então, ao meu ver, inicialmente o saldo da revolta foi de uma submissão e de uma humilhação de Sergipe. Porque o Estado foi invadido. O grande líder foi morto. Posteriormente, houve um movimento de vingança, porque os filhos de Fausto Cardoso resolveram vingar a morte do pai e assassinaram Olympio Campos no Rio de Janeiro no mês de novembro. Enfim, no primeiro momento, o governo olympista foi reposto, Guilherme Campos terminou o seu governo, ainda elegeu seu substituto, que foi Rodrigues Alves, uma gestão inicialmente pacífica, mas que depois começaria a ser tomada pelos embates e críticas. A oposição reapareceu e os faustistas vão voltar ao poder em 1912. Então, que dizer, se a gente puder dizer qual é o saldo disto? Sergipe ficou profundamente ferido e tocado com esse movimento e a política se dividiu em grupo que vai, usando uma agressividade muito grande, durante o restante da primeira república. INFONET – Após praticamente um século, muita gente não tem idéia de quem foi Fausto Cardoso e de que houve uma revolta de tamanha proporção no Estado. TO – É verdade. Hoje, é muito comum que pessoas digam que não têm idéia de quem foi Fausto Cardoso. Um movimento desse tamanho, que marcou tanto a história do Estado, hoje é completamente desconhecido. O que é interessante nisso é como se perdeu a história desse movimento e a história do próprio Fausto Cardoso no decorrer das décadas, apesar de ele ter sido eleito o herói de Aracaju. Qual é a praça central de Aracaju? A Fausto Cardoso. Qual foi o primeiro monumento público erguido em Aracaju? O monumento a Fausto. E ainda o mais bonito. E, no entanto, o povo desconhece quem foi esta figura e o monumento sequer consegue chamar a atenção. Então, é interessante esse fenômeno da elevação de Fausto como grande herói, libertador – que é assim que ele é encarado – e, posteriormente, o declínio da memória dele. Como em 2006 se completam cem anos de sua morte, quem sabe um novo movimento resgate a história dessa figura lendária.

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