“Ficar” é alternativa para afastar a solidão

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As relações afetivas entre casais estão cada vez mais instáveis e passageiras. O ‘ficar’ é uma forma de relacionamento em que as pessoas procuram uma intimidade sem qualquer compromisso sério. Apesar do modismo, os jovens esperam mesmo ter uma relação segura e recíproca.

Mesmo parecendo uma mudança de comportamento simples, o ‘ficar’ está deixando de ser uma fase inicial em direção a um envolvimento maior, passando a ser uma forma aparente de refugiar-se de maneira cômoda dentro de si, sem riscos de um maior comprometimento ou de sofrimento.

“O namoro sério pode esperar”, diz Lucas
Se achando novo para um compromisso sério, Lucas Silva, 20, espera ter alguém no futuro. “Ainda estou estudando, não acho que é legal namorar nesta época. Hoje prefiro ficar, mas sei que um dia vai existir esta vontade de estar realmente com alguém ”, diz o estudante.

Mesmo namorando, quem concorda com Lucas é Wellington dos Santos, 22 anos. “Namorar é bom, mas ficar é melhor. Não tem ninguém ‘pegando no pé’. Na verdade eu não me preocupo se vou ou não namorar. Fico com uma menina e se gostar passo para o namoro”, diz.

A estudante Sara Alves, 17, não está namorando e revela que ‘fica’ com meninos quando tem vontade. “Não ‘fico’ só por ficar. E não gosto de ‘ficar’ com o mesmo menino várias vezes, eles acabam não nos dando valor”, comenta ela, que acredita que as meninas se adaptaram a este comportamento de ‘ficar’ pela realidade imposta, porque, na verdade, elas preferem namorar.

Os depoimentos dos estudantes confirmam o comentário da psicóloga Nairete Corrêa, que explica que a sociedade mudou o foco das relações afetivas há algumas décadas. Ela comenta que a convivência na qual os casais exerciam a ‘dominação’ sobre o outro, exigindo compromisso e fidelidade, está mudando para relações mais ‘liberais’. “Esta mudança vem ocorrendo há algum tempo, mas na década de 90 os jovens deram uma nova diretriz aos relacionamentos, optando por não assumir um compromisso sério e adotando o ‘ficar’”, diz.

Ela informa que esta alteração de comportamento foi influenciada pelo social e não pelo emocional. O comportamento social influencia a conduta individual de cada ser. “O indivíduo se sente mais ‘seguro’ ao participar de um grupo e ele também tem medo de ser excluído por este próprio grupo, por isso se adapta a mudanças sociais”, ressalta.

Motivos

Um dos primeiros motivos para esta mudança, segundo a psicóloga, foi o adiamento da adolescência. Atualmente, muitas famílias entendem que filhos de 25 anos são adolescentes. “E eles, além de adotarem a cultura de casar mais velhos para não assumirem as implicações de uma vida conjugal; os jovens, em detrimento de uma maior formação profissional, também entram no mercado de trabalho mais tarde. E para não ter uma cobrança de casamento, de ambas as famílias, eles preferem uma relação independente”, comenta.

De acordo com Nairete, as vantagens de uma relação como o ‘ficar’ ocorre quando o indivíduo é beneficiado. E as desvantagens ocorrem quando uma das duas partes começa a ter um vínculo maior do que a outra. “Quando um dos dois começa a se apegar, é normal que venha o sentimento de posse e com ele, na maioria das vezes, o sofrimento”, diz.

Vazio

O estudante Lucas Silva comenta que mesmo acreditando que um relacionamento de uma noite sem compromisso é melhor do que namorar, também já sentiu um vazio depois de ter ‘ficado’ com alguma menina. “Já me senti estranho. Poucas vezes, mas já aconteceu”, diz ele, que confessa que procura não ligar para este sentimento.

“É ruim não saber o que o outro está sentindo”, diz Sara
Sara comenta que diversas vezes já se sentiu insegura após ter ficado numa noite anterior com algum menino. Ela diz que o sentimento de incerteza faz com que este vazio se instale. “É ruim você não saber o que o outro está sentindo. E não saber quando ele vai ligar ou se vai ligar”, comenta.

Este é o outro aspecto levantado pela psicóloga ao analisar este tipo de relacionamento. De acordo com Nairete, o número reduzido de homens em relação às mulheres e a escolha por uma relação ‘independente’, fez com que muitas se adaptassem ao ‘ficar’.

“Apesar de muitas mulheres afirmarem o contrário, este tipo de relação se tornou uma alternativa de estar com alguém para suprir uma necessidade de afeto. E para o homem sobrou uma situação cômoda, porque podem estar com quem quiser sem compromisso”, comenta.

Lembrando as diferenças existentes entre o homem e a mulher, a psicóloga ressalta que a forma como lidam com a falta de afeto é muito diferente. “Os homens também se sentem vazios, mas a forma como eles passam por isto é bem diferente das mulheres. Por serem práticos, os homens jogam bola e esquecem este sentimento. A forma que eles jogam, gritam, se trombam, abraçam é uma troca de afeto. A mulher, não. Ela sempre espera algo mais”, reflete.

Carência

De acordo com Nairete Corrêa, o ser humano está carente de afeto e por isso atende facilmente aos ‘modismos’. “Abre uma nova igreja e lota. Isto dá uma noção como as pessoas estão carentes”, diz.

“A convivência é fundamental para que o ser humano se conheça”, ressalta Nairete
“Contudo, por mais que seja difícil, o importante é quando as pessoas se permitem a conhecer o outro, pois neste momento estará conhecendo a si próprio”, diz a psicóloga lembrando como aprendemos desde criança uns com os outros.

Reflexos sociais

A socióloga Lavínia Souza não acredita que esta mudança de comportamento tenha sérios impactos, e sim que “o ‘ficar’ é resultado de uma sociedade em que certos valores não são mais ‘inquestionáveis’ e o indivíduo tem a prerrogativa de fazer suas escolhas, de dar prioridade aos seus planos individuais: o sucesso profissional e financeiro é valorizado em detrimento do casamento e da família”, comenta.

Ressaltando que o ‘ficar’ não é necessariamente ruim e que pode ser muito saudável, sobretudo na adolescência, quando os jovens descobrem a sexualidade e vive sentimentos intensos, conflitantes e confusos, a socióloga acrescenta que, ao assumir compromissos sérios nesta fase da vida, pode limitar as experiências individuais. “As pessoas se casavam muito jovens e imaturas”, diz.

Quanto ao aumento de pessoas apresentando doenças psicossomáticas e/ou solidão, Lavínia Souza relata que pode ser um reflexo dessa nova maneira de encarar a vida e a experiência amorosa.  Mas, embora as questões de ordem exterior exerçam influência na vida do indivíduo, o ‘ficar’, sozinho, não produz esse tipo de sentimento e sim todo um conjunto de fatores ligados aos valores de uma sociedade consumista, que dá demasiado valor à aparência e ao dinheiro, em detrimento de relações baseadas em sentimentos desejáveis como respeito e confiança”, comenta.

Lavínia Souza conclui que mudanças comportamentais como o ‘ficar’ fazem parte do processo em que nossa sociedade se encontra, de adaptação às novas possibilidades. “E nós, indivíduos, estamos imersos nessa realidade, constantemente modificada, sempre nos posicionando diante do que surge de acordo com nossas convicções”, esclarece.

Por Raquel Almeida

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