InfoNet e JC localizam mulher que não via irmã há 42 anos

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Que a internet aproxima as pessoas, ninguém duvida, mas uma mulher do interior de Sergipe que não sabe nem o que é um computador jamais imaginaria que foi graças à rede mundial que pôde obter notícia de uma irmã que não vê há 42 anos. Graças à InfoNet, o maior provedor de internet de Sergipe, e ao JORNAL DA CIDADE, as irmãs, separadas por quase 2 mil quilômetros — uma num povoado de Lagarto e outra em Petrópolis, no Rio de Janeiro — souberam da existência uma da outra.

Tudo começou com um e-mail recebido no dia 27 de junho pelo canal “Política & Economia”, que é mantido na Infonet pelos jornalistas do JORNAL DA CIDADE Marcos Cardoso e Eugênio Nascimento. A mensagem foi enviada pela fluminense Suzana Abrahão Mussa, de Petrópolis, e dizia o seguinte: “Gostaria de pedir encarecidamente encontrar uma pessoa de Lagarto-Sergipe, pois a irmã não tem contato há mais de 30 anos. Enviamos carta registrada para o endereço de Av. Presidente Vargas, 111, CEP 49.400-00, em Lagarto e não obtivemos nenhuma notícia da irmã chamada Ruth Dias de Andrade Alves e nem de seus filhos. Gostaríamos de saber notícias.” A mulher que buscava a família chama-se Ester Dias de Andrade, 60 anos.

Na semana passada, a produção do JC ligou para a delegacia de Lagarto e falou com a escrivã Alzira Rabelo. Apesar de nunca ter ouvido falar de Ruth Dias de Andrade, hoje com 50 anos, Alzira se comprometeu a ajudar. Uma semana depois, ela retornou a ligação e informou que tinha encontrado a pessoa, no povoado Cruzeiro Verde. A repórter Sandra Cruz e o repórter fotográfico Edson Araújo foram enviados a Lagarto no sábado passado, e encontraram não só Ruth, como também um filha dela, e o irmão mais velho de Ruth e Ester, José Dias Alves, 63 anos.

Saudade e esperança

A repórter Sandra Cruz descreve o que viu quando encontrou a família de Ester: “Saudade, emoção e esperança. Esses foram os sentimentos que a agricultora Ruth Dias de Andrade Alves e o aposentado José Dias Alves expressaram no momento que souberam de notícia sobre a irmã Ester Dias Andrade. Eles choraram muito, de alegria. Foi muito emocionante.”

Refeita, Ruth falou de fragmentos de lembranças da irmã que não vê há tanto tempo. “A ausência dela sempre foi uma mancha em nossos corações. Quando ela foi embora eu tinha 8 anos e até hoje lembro quando ficava brincando de boneca dentro de casa e ela achava ruim. Na época ela tinha 18 anos, já era moça e queria mandar em mim. Posso dizer que hoje é um dos dias mais felizes das nossas simples vidas”, recordou.

O irmão mais velho, José Dias Alves de 63 anos, chorou muito enquanto contava as aventuras juvenis vividas ao lado da irmã Ester. “Ela sempre foi muito trabalhadora. Lembro que a gente brigava muito por que eu queria mandar nela e ela não deixava. Muitas vezes, para não fazer o que eu pedia, ela se escondia em cima das árvores. Naquela época éramos muitos felizes. Tenho muito medo de morrer e não vê-la mais”, disse, acrescentando que a mãe faleceu sem rever a filha.

“Quando Ester tinha uns 17 anos, ela começou a namorar um rapaz bem pobre. E minha mãe era contra. Depois de várias brigas, minha mãe, que era adventista na época, resolveu mandar minha irmã para um internato adventista em Salvador. Tudo para Ester esquecer o namorado. Depois que ela foi embora, não voltou mais. Trabalhou como doméstica na Bahia e depois foi levada por uma mulher para o Rio de Janeiro, onde está até hoje. Ester nunca perdoou mamãe”, disse.

Há 42 anos

Do Rio de Janeiro, a própria Ester confirmou que saiu do povoado Pedreira, em Lagarto, no ano de 1962, portanto há exatos 42 anos. Com o passar dos anos, o contato com a família, que era feito somente através de cartas, foi escasseando até desaparecer completamente. Através de uma amiga, a mãe a enviou para um pensionato para moças da Igreja Adventista do Sétimo Dia, na verdade em Itaquara, na Bahia, onde ela deveria trabalhar e estudar. “Uma das internas, que tinha a mãe que morava no bairro do Catete, no Rio de Janeiro, a convidou para ir com ela para o Rio, pois sua filha não estava se adaptando num lugar tão longe e Ester tinha muito trabalho nesse pensionato, pois fazia todo o serviço doméstico”, lembrou Suzana Mussa.

Durante 13 anos, Ester trabalhou com uma senhora chamada Maria Soares, sogra de Suzana. “Após o nascimento do meu filho, Ester me ajudou muito. Fizemos tanta amizade, que pedi a Dona Maria para Ester ficar comigo”, recordou Suzana, que ajudou a tirar os documentos, a colocou num colégio para aprender a ler e escrever e, posteriormente, também a ajudou a comprar o apartamento próprio, em Petrópolis. Hoje, Ester é independente, é funcionária do Ministério Público naquela cidade fluminense, onde é auxiliar de serviços gerais. “Ela é querida e respeitada por todos”, disse Suzana. “Ester é muito agradecida a vocês, que a ajudaram a reencontrar a família, que ela pensava já ter perdido para sempre”.

Depois de saber que a irmã está bem, a família de Ester está ansiosa pelo reencontro. Os sobrinhos de Éster não vêem a hora de conhecer a única tia. “Quando tive meu filho, Claudinei, hoje com oito anos, pensei muito nela. Queria que ela o conhecesse. Nós queremos muito reencontrá-la, porque a nossa família já é tão pequena e só falta tia Ester para que ela fique completa”, afirmou a sobrinha Solange Alves Santos, 27 anos. “Eu também estou sonhando em conhecer a tia de minha esposa. Quero saber como ela viveu nesses anos e como é o Rio de Janeiro”, disse José Batista dos Santos, esposo de Solange.

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