“Musicalidade”, por Rubens Lisboa

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L A N Ç A M E N T O 1

 

Cantor: JORGE VERCILO

CD: “SIGNO DE AR”

Gravadora: EMI

 

Produzido meio a meio por Memê (as faixas mais balançadas) e Torcuato Mariano (as mais lentas), está nas lojas o novo CD de Jorge Vercilo, no qual ele se permitiu abrir o leque de parceiros. Assim, com Ana Carolina, o artista assina as faixas “Ultra-leve Amor” e “Abismo”, e com Dudu Falcão as canções “Ciclo” (esta já incluída na trilha sonora da novela global “A Lua Me Disse”) e “Melhor Lugar”. Vercilo surgiu na cola do sucesso de Djavan e, de fato, tanto o timbre do cantor quanto o seu estilo de composição são marcantemente influenciados pelo trabalho do alagoano. Este, todavia, consegue diferenciar-se daquele por ser mais preciso e precioso.

 

Mas nem por conta dessa semelhança Vercilo (que não parece se incomodar com as comparações) deixou de conseguir o seu lugar ao Sol. Pelo contrário: foi sabendo se utilizar dela que chegou a emplacar grandes sucessos como as músicas “Que Nem Maré”, “Final Feliz”, “Homem-Aranha” e “Monalisa”. No recém-lançado trabalho, há canções que poderiam perfeitamente ter saído da verve criativa de Djavan. Exemplos nítidos disso são “Você é Tudo” e “Olhos de Ísis”, esta de longe a melhor do disco. Todavia, a primeira música a ser trabalhada (que já toca incessantemente nas rádios de todo o País) e que é a mesma que dá o título ao CD, soa como um quase clone das canções de linhagem pop que Lulu Santos vem adotando atualmente.

 

Trata-se de mais um disco de carreira de Vercilo que, embora tente atualizar a sua música, não apresenta, desta vez, canções realmente inspiradas. Se bem trabalhado pela gravadora, até que pode vir a tocar bem e vender bastante (afinal, Vercilo já tem um público cativo e é inquestionável a qualidade da produção), mas o certo é que o artista ainda ficou devendo um álbum de peso. 

 

L A N Ç A M E N T O      2

 

Cantores: ELBA RAMALHO e DOMINGUINHOS

CD: “BAIÃO DE DOIS”

Gravadora: BMG

 

Talvez para compensar o fato de não ter lançado CD em 2004 (foi a primeira vez que isso ocorreu desde o inaugural “Ave de Prata”, de 1979, já que a partir de então vem pondo no mercado um disco por ano) é que Elba Ramalho vem planejando lançar, em 2005, dois álbuns. Um deles, o que levará a produção de Lenine, ela está atualmente terminando de gravar em um estúdio no Rio de Janeiro. O outro, ela acaba de lançar, com a azeitada produção de Zé Américo Bastos. Trata-se de um trabalho dividido com o grande sanfoneiro Dominguinhos.


Os dois são amigos de longa data e ele é o autor de vários sucessos da carreira dela. Desta forma, não haveria mesmo como não dar certo. O CD flui, assim, em altíssimo astral e comprova não somente a versatilidade do grande músico que Dominguinhos é, criado na escola do inesquecível Luiz Gonzaga, mas também a fantástica intérprete em que Elba se transformou, moldando sua voz ao longo do tempo e transformando-se, hoje, numa das melhores cantoras da nossa música popular.

 

A maioria das canções (como, aliás, não poderia deixar de ser) é de autoria de Dominguinhos com seus inúmeros parceiros (Anastácia, Gilberto Gil, Nando Cordel, Djavan, Fausto Nilo e Chico Buarque). De igual maneira, grande parte do repertório é feito de regravações, mas há boas inéditas (“Rio de Sonho”, “Onde Está Você?”, “Chama” e “Forrozinho Bom”), o que por si só já valeria o lançamento.

Dentre as releituras, merecem destaque “Tenho Sede”, que ganhou um arranjo belo e denso, “Lamento Sertanejo”, com a bem sacada citação de “Pipoca Moderna” (de Caetano Veloso), e “Xote de Navegação”, melodia difícil que é transposta com sucesso pela dupla. Enfim, trata-se de um CD muito bem-vindo! Em tempos de forrós pasteurizados, Elba e Dominguinhos confirmam a tese de que “quem sabe faz a hora e não espera acontecer”. Corra e ouça!

 

N O V I D A D E S

  • A vencedora do Sescanção em sua nona edição, realizada antes de ontem, no Teatro Atheneu, foi a canção “Flor Brasil”, parceria de Irmão (que também a interpretou) com Marcos Paiva. Ele irá representar o Estado de Sergipe na cidade de Maringá, no Festival de Música da Cidade-Canção (FEMUCIC). Mas o evento teve outros destaques. A bela “Pelo Que Foi Será” deixou a certeza de que o estanciano Ivan Reis já é um dos melhores intérpretes sergipanos. E quão bom é ver como esse rapaz vem crescendo em sua carreira! Além dele, teve-se a oportunidade de se conhecer dois novos talentos: Cícero Guerra empolgou o público presente com a sua inteligente “Papagaio Sem Futuro” e Celo Costa revelou-se bastante promissor com a inspirada “Sem Eiras”. Ano que vem tem mais…

 

  • O arteiro Tom Zé lança, via gravadora Trama, o seu mais novo trabalho. Intitulado “Estudando o Pagode”, é uma menção ao seu elogiado disco “Estudando o Samba”, de 1976. Trata-se, como informa o próprio artista, de uma “opereta inacabada” que tem como foco principal a segregação da mulher ao longo da história da humanidade. Divididas em três blocos/atos, as dezesseis canções são inteligentes e interessantes. Diferente de seus últimos álbuns, bastante experimentais, até que algumas das canções atuais são assimiláveis ao ouvido médio. Produzido de maneira irrepreensível por Jair Oliveira, o CD conta, nos vocais, com as participações especiais de Suzana Salles, Luciana Mello, Edson Cordeiro, Patrícia Marx e Zélia Duncan. Bom compositor e cantor apenas razoável, Tom Zé não é e nem pretende ser um artista popular, mas é inegável o seu talento criativo, e de todos os tropicalistas é ele, certamente, aquele que mais tem ousado ao longo do tempo. Vale a pena conferir!

 

  • Começa a despontar no cenário musical brasileiro um novo compositor. Trata-se do pernambucano (de Caruaru) Junior Barreto que vem sendo apadrinhado pelo conterrâneo Lenine. O cara nem bem emplacou uma canção de sua autoria do novo CD que Gal Costa está terminando de gravar nos estúdios da gravadora Trama (“Santana”) e já vem sendo sondado por Maria Rita que também deve gravá-lo no próximo CD, o qual se encontra atualmente em fase de pré-produção. Junio tem um disco lançado, que foi gravado de maneira independente e distribuído pela Tratore. Nas dez faixas do trabalho, o artista se mostra um compositor talentoso e irrequieto e um cantor de inspirações próprias. Os destaques ficam por conta de “Qual é, Mago?”, “Se Vê Que Vai Cair, Deita de Vez” e “Aclimação”.

 

  • Rappin’ Hood está lançando o seu segundo disco solo no qual aprimora a fusão de rap, samba, reggae e MPB. Com o título de “Sujeito Homem 2” (o que deixa claro se tratar de uma continuação de seu primeiro CD), o trabalho conta com as luxuosas participações de, entre outros, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Dudu Nobre. A diferença dele para a maioria dos outros cantores de rap é que fica clara a sua preocupação com a melodia das canções e o arranjo das mesmas, tentando diversificá-las da batida monocórdia que caracteriza o gênero. Nota-se um louvável amadurecimento musical com relação ao CD de estréia, o que ratifica a salutar intenção do artista. A faixa “Disparada Rap”, com Jair Rodrigues, por exemplo, ficou sensacional! Também merecem destaque as canções “Muito Longe Daqui” e “Eu Tenho Um Sonho”.

 

  • E um novo grupo surge em terras sergipanas! Trata-se de “Os Únicos Que Prestam”, cuja especialidade é o samba bem-humorado. Formado pelos arteiros Álvaro Müller, Djenal Soares e Gilton Lobo, o grupo já conta com cerca de dez canções trabalhadas e o plano da intrépida trupe é registrá-las em um sonhado CD que deverá estar pronto ainda este ano. É esperar para ver!

Rubens Lisboa é cantor e compositor
Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br.

 

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