“Musicalidade”, por Rubens Lisboa

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Cantora: LEILA PINHEIRO

CD: “NOS HORIZONTES DO MUNDO”

Gravadora: BISCOITO FINO

 

Uma das melhores vozes femininas do Brasil, a paraense Leila Pinheiro acaba de pôr nas lojas o seu primeiro CD pela gravadora Biscoito Fino, o décimo segundo de sua carreira. A cantora de voz límpida e pronúncia impecável surgiu para o grande público em 1985 quando defendeu a canção “Verde” no Festival dos Festivais, realizado pela Rede Globo. De lá para cá, vem sedimentado o seu nome por dar primazia ao bom gosto musical.

 

Trata-se de um disco sonhado por Leila há algum tempo. Por isso, inclusive, resolveu romper com sua antiga gravadora que vinha tentando lhe impor regravações e trabalhos conceituais com os quais não concordava. Leila arriscou e se deu muito bem: seu novo CD é de extrema beleza e se põe ao lado de seus melhores álbuns, os excelentes “Outras Caras” e “Catavento e Girassol”.

 

O aguardado trabalho vem embalado por diversas novidades: além de inéditas de compositores de ponta do nosso cancioneiro, a própria cantora executa piano ou teclado em todas as faixas. O novo CD prima também pela delicadeza. E é tal quem embala o trabalho, abrindo-o e fechando-o. A suave releitura para “Nos Horizontes do Mundo” (de Paulinho da Viola) dá a dica do que há por vir e o recado rápido e preciso de “A 60 Minutos Por Hora” (de Walter Franco) termina deixando a gente com gosto de quero mais.

 

Há pitadas de eletrônica na acertada produção de Alê Siqueira e belos arranjos de cordas e sopros, a cargo de Lincoln Olivetti, se fazem presentes com intensidade e propriedade. Leila registra sua parceria com Renato Russo (“Hoje”) e traz para a sua praia o grande sucesso da banda O Rappa (“Minha Alma”), fazendo-o fundir com “Juízo Final”, pérola antológica de Nelson Cavaquinho.

 

Responsável pela primeira parceria entre Chico Buarque e Ivan Lins, que resultou na comentada “Renata Maria” (de letra inspiradíssima), Leila conseguiu que o próprio Chico cantasse com ela nesta faixa. Outra participação especial ficou a cargo de Joyce que, ao lado do paulista Luiz Tatit, assina a animada “Deu No Que Deu”. Já Caetano Veloso é o autor dos versos de “Tiranizar” (parceria com Cézar Mendes), os quais, aliás, parecem ter tudo a ver com a situação atual pela qual o eterno tropicalista vem passando em sua vida pessoal.

 

Contudo, os maiores destaques do CD ficam por conta da maestria de “Gozos da Alma” (de Francis Hime e Geraldinho Carneiro) e da maravilhosa “A Vida que a Gente Leva” (de Fátima Guedes, em grande momento de inspiração). Mas não dá para deixar de ressaltar também a releitura para “Onde Deus Possa Me Ouvir”, superior ao registro original de Gal Costa, na qual Leila mergulha fundo na emoção.

 

Se algo faltou para se poder classificar este como um disco perfeito, isso se resume ao fato de não constar de seu repertório nenhum compositor novo. Admiradora confessa de Elis Regina, caberia a Leila também ousar nesta seara, como fez e certamente continuaria a fazer a adorável “Pimentinha”. Mas a bela se redime (momentaneamente) dessa ausência quando, no encarte, agradece a todos os incontáveis compositores e poetas que lhe enviaram canções e diz torcer para que possam estar juntos nos próximos discos.

 

Trata-se, enfim, de um trabalho de qualidade ímpar e que não pode faltar na cedeteca de qualquer verdadeiro amante da nossa música popular brasileira. Imperdível!

 

N O V I D A D E S

 

·                    Da Cidade Maravilhosa, notícias alvissareiras dão conta de que a nossa Patrícia Polayne, dentro em breve, surgirá com boas novidades musicais. Aliás, falando na garota, a mesma se alegrou muito, semana passada, ao se encontrar com a percussionista Elisa Nunes (que, quando aqui entre nós, tocou com muita gente boa da música sergipana), lá no Rio de Janeiro, onde ambas residem atualmente, mais precisamente nos camarins do Centro Cultural Carioca onde se realizou um maravilhoso show com a cantora Roberta Sá, a nova sensação da MPB.

·                    Hoje à noite, a partir das 21 horas, com entrada franca, haverá show do cantor e compositor Antônio Carlos du Aracaju, um dos nomes mais representativos da música do nosso Estado. Dando início aos festejos do ciclo junino, a Secretaria de Cultura do Estado convidou o artista para realizar apresentação especial em conjunto com a Orquestra Sinfônica de Sergipe. No repertório estarão presentes sucessos da carreira do cantor e músicas recolhidas do folclore nordestino. Haverá ainda a participação de quadrilhas e de bailarinos, o que faz antever o caráter grandioso do show. Eu vou estar lá doidinho para me encontrar com você…

·                    Terça e quarta-feira (dias 14 e 15 de junho) estará se realizando mais uma versão do Projeto MPB Petrobrás no Teatro Tobias Barreto. O projeto, capitaneado nestas terras do Índio Serigy pela arteira Mércia Barreto, desta vez contará com a presença do cantor Benito di Paula que estará interpretando os seus maiores sucessos. O show de abertura ficará por conta da cantora Iracema que, aproveitando a oportunidade, vai lançar o seu primeiro CD intitulado “Um Canto a Clara”, uma homenagem à inesquecível Clara Nunes. O álbum, que foi gravado ao vivo, pinça os maiores sucessos da mineira falecida precocemente, dentre os quais “O Mar Serenou”, “Lama” e “Morena de Angola”. Iracema vem recebendo merecidos elogios pelo disco e vale a pena conferir in loco!

·                    Outra cantora sergipana que está lançando CD é a adolescente Jéssica Lieko. O disco “Me Leva”, que já é o terceiro da carreira da jovem cantante, está disponível na rede G. Barbosa e leva a pegada pop da moda. Produzido por Valdo França, há composições de Gutierrez, Beto Caju e Ismar Barreto, responsáveis, aliás, pelos melhores momentos do disco (“Sem Medo”, “Segredos do Amor” e “Viver Aracaju”, respectivamente).

·                     O produtor Bruno Montalvão encontra-se, até o final deste mês, curtindo merecidas férias na sua adorada Aracaju. Bruno (que atualmente reside em São Paulo, onde estabeleceu o escritório central da sua Marginal Produções) veio caitituar, junto às rádios locais, os novos CDs do pernambucano Sérgio Cassiano e da banda sergipana Lacertae, artistas por ele agenciados. O incansável garoto anda com a cabeça fervilhando de idéias e, dentro em breve, esta Coluna vai contar tudinho para vocês, ok?

·                     Roberto Carlos fará parte da trilha sonora da novela “Alma Gêmea”. O cantor regravou “Índia” e a música será tema da protagonista da trama, interpretada por Priscila Fantin. A canção deverá integrar também o repertório do CD que o Rei pretende concluir até julho para lançá-lo em setembro. Você acredita? Eu, não…

·                     O baixista, compositor e arranjador Jorge Pescara está lançando o seu primeiro CD intitulado “Grooves in the Temple”. Trata-se de um trabalho independente, distribuído pela Tratore e produzido impecavelmente por Arnaldo DeSouteiro.

 

O álbum foi elaborado durante quatro anos e conta com um time de estrelas de dar água na boca: Widor Santiago (sax), Dom Um Romão (bateria), Eumir Deodato (piano) e Cláudio Infante (percussão), entre outros. Além destes, há as presenças de Cláudio Zoli (guitarra) em “Miles-Miller” (de João Paulo Mendonça) e dos integrantes da banda Barão Vermelho Guto Goffi (bateria) e Maurício Barros (teclados) em “Kashmir” (do repertório de Led Zeppelin).

 

Pescara é um músico talentoso e inspirado e soube reunir, com intuição e técnica, temas estrangeiros de compositores como Jimi Hendrix e Bobby Charles com outros de autores brasileiros, a exemplo de Arthur Maia e Luiz Bonfá. São onze canções cuidadosamente selecionadas e trabalhadas que fazem o ouvinte viajar numa atmosfera de magia e beleza e se extasiar com o entrosamento dos instrumentos, sempre guiados pelo baixo preciso do artista.

 

É um trabalho que resulta deslumbrante e, muito embora os textos do encarte venham todos em inglês (pois o trabalho visa primordialmente aos mercados americano e europeu), dá orgulho de constatar que foi inteiramente gravado no Brasil e por músicos deste “país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza”. A participação especial da cantora Ithamara Koorax na música “Power Of Soul” é coisa de gênio e arrepia até o mais insensível dos mortais! Na mesma faixa, há ainda o vocal poderoso e visceral de Sérgio Vid, o que torna a canção o maior destaque desse magnífico CD. Corra e ouça!

·                     E na próxima semana publicaremos uma entrevista com Alex Sant’anna, o baiano mais sergipano do Brasil! Entre várias declarações, Alex, que tem trabalho próprio como compositor e cantor e ainda é uma das cabeças pensantes da banda NaurÊa, mostra porque é um incansável batalhador e um amante inato das artes em geral. Se eu fosse você, não perdia por nada deste mundo…

 

Quaisquer críticas e/ou sugestões serão bem-vindas e poderão ser enviadas para o e-mail: rubens@infonet.com.br

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