Número de assassinatos de homossexuais em Sergipe preocupam

Luiz Mott comparou situação de Sergipe com estados de maior população (Fotos: Portal Infonet)

Sergipe, Bahia e Alagoas são os estados nordestinos que registram o maior número de mortes entre homossexuais de acordo com o antropólogo Luiz Mott, fundador do Grupo Gay da Bahia (GGB), uma das organizações não-governamentais mais importantes na luta pelos direitos dos Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros (GLBTT) no país. Ele esteve em Aracaju para a mesa de discussão ‘Homofobia em debate: em busca de soluções’, promovida pela Secretaria de Estado dos Direitos Humanos e da Cidadania (Sedhuc) nesta terça-feira, 26.

Mott disse, em entrevista no início da tarde, que o Nordeste “tem que aprender a conviver com a diferença e com o respeito”. E emendou que a luta dos homossexuais é por direitos iguais, “nem menos e nem mais”.

“Estamos vivendo aqui um ‘Triângulo das Bermudas’, pois os estados mais violentos para homossexuais são Alagoas, Sergipe e Bahia. Em Alagoas a situação é ainda mais preocupante porque está na quarta posição, atrás de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia”, descreveu o antropólogo.

Debate lotou auditório da Sociedade Semear na noite desta terça-feira, 26

De acordo com dados do Relatório Anual sobre Assassinatos de Homossexuais no Brasil, produzido por Mott, o Brasil ainda registra os maiores índices de assassinatos no mundo. Em 2010 foram 260 mortes (140 gays, 10 lésbicas e 10 travestis). Sergipe registrou nove casos.

“O risco de uma travesti ser assassinada no Brasil é 800 vezes maior que nos Estados Unidos, que tem uma população de 300 milhões de habitantes enquanto temos cerca de 200 milhões”, disse Luiz Mott. O número de casos registrados no Estado é preocupante se comparado com lugares cuja população é superior, como o Rio Grande do Sul. “Embora pareça pequeno, o número de ‘homocídios’ lança um grande alerta”, completou.

Falhas

O professor de Antropologia Marcelo Domingos, que pesquisa sobre os assassinatos em Sergipe desde 1994, disse que os

Marcelo Domingos ressaltou importância da discussão sobre o tema

dados coletados apontam “falhas fortes” do Instituto Médico Legal (IML) e da Perícia Técnica da Polícia. “A imperícia da Polícia muitas vezes emperra as investigações dos casos de violência. Temos vários casos que denotam falhas. Além disso os processos demoram muito a ser julgados na Justiça, fazendo com que o caso seja esquecido”, lamentou.

Por outro lado, ele disse que um evento como o desta terça-feira é histórico porque o Estado colocou na sua agenda a discussão sobre a violência contra os homossexuais. “É uma forma de reconhecer que a situação é crítica”, comentou Domingos.

O secretário Iran Barbosa assevera a declaração do professor Marcelo explicando que debater o tema sob a perspectiva dos relatórios aponta para a necessidade de atuação dos agentes públicos e para a análise da realidade, que, nas palavras dele, é cruel. “Precisamos definir políticas públicas para o enfrentamento dessa violência. Queremos que Sergipe adote políticas que vão além. O Estado pode ser referência não só no combate à homofobia, mas em toda e qualquer discriminação”, ponderou.

Segurança Pública

Mário Leony diz que casos registrados são apenas uma 'ponta do iceberg'

O delegado titular da 4ª Divisão de Homicídios do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) Mário Leony disse, por outro lado, que o número de casos registrados em Sergipe não indicam necessariamente que o Estado é mais violento, mas reconheceu que eles são apenas uma ‘ponta do iceberg’. “Existem estados em que o descaso é grande e muitas vezes os crimes nem são notificados. Hoje temos, por exemplo, o Centro de Referência e Combate à Homofobia, o Departamento de Atendimento a Grupos Vulneráveis (DAGV), que mostra estarmos mais atentos à questão”, explicou.

Leony acredita que é necessário que a Polícia esteja mais perto da comunidade LGBTT e saber o que leva alguns a não denunciarem a violência que sofre. “Além disso, é necessário também propor uma gestão mais democrática na segurança pública”, enfatizou.

Por Diógenes de Souza

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