Orgulho de ser negro

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Este domingo não é só dia de ir à praia, é a data em que o negro comemora o seu dia e seu orgulho. Há pouco mais de um século, no Brasil, entretanto, ser negro não era lá motivo de alegria, pelo menos não para quem era obrigado a se submeter às humilhações e maltratos diários. No mesmo país, hoje, a situação ainda não é tão boa quanto se pensa: a maioria dos pobres é de indivíduos negros, constatação feita por técnicos do Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) e do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem).

 

O estudo mostra a situação da população negra levando-se em consideração a desigualdade entre as raças e os gêneros. As estatísticas são de 2003 e revelam que 20% da população branca encontrava-se abaixo da linha de pobreza, enquanto 43% da população negra pertencia a esta faixa. Os dados apontam, ainda, para o fato de que 7% dos brancos recebem menos de um quarto do salário mínimo por mês, enquanto 19% dos negros recebem esse valor.

Então por que se comemora a data? Segundo uma reportagem da revista “Com Ciência”, editada pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o “Dia da Consciência Negra” é uma forma de preservar a memória e construir a história. “É pela disputa dessa memória, dessa história, que nos últimos anos se comemora, no dia 20 de novembro, o ‘Dia Nacional da Consciência Negra’. Nessa data, em 1695, foi assassinado Zumbi, um dos últimos líderes do Quilombo dos Palmares”, explica o texto.

 

Na reportagem, o historiador Flávio Gomes, do Departamento de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fala que a escolha do 20 de novembro se deu pelo seguinte: “os movimentos sociais escolheram essa data para mostrar o quanto o país está marcado por diferenças e discriminações raciais. Foi também uma luta pela visibilidade do problema. Isso não é pouca coisa, pois o tema do racismo sempre foi negado, dentro e fora do Brasil. Como se não existisse”.

 

Cássio Nascimento
Foto: Divulgação / Rede Globo
Racismo é má-distribuição de renda parecem temas inesgotáveis. O Ipea divulgou que entre os 10% mais pobres da população, 64,6% são negros. Já entre os 10% mais ricos da população, 22,3% são negros.

 

NEGROS E PRÍNCIPES – A história é generosa ao retratar Zumbi como o “Rei dos Palmares”. Poucos heróis nacionais são negros e o escravo acabou entrando para essa galeria. Uma reportagem da Revista Nova Escola aponta justamente para esse caminho: “o povo negro é discriminado em todos os cantos do planeta onde os brancos são maioria. E a sua sala de aula, professor, será território neutro? Pense nos livros que a turma lê. Eles mostram famílias negras de classe média, felizes e bem-sucedidas? Têm príncipes, reis e rainhas que não sejam brancos?”.

 

A pergunta é instigante. Mas por que os negros ainda não conseguem se firmar nesse posto? A Revista expõe justamente um dos principais problemas do ensino infantil: grande parte das histórias e contos disseminados tem origem européia, onde as pessoas são de maioria branca. “A sugestão é entrar no universo de lendas e histórias da África, do Oriente, dos índios”, explica o texto.

 

Mais do que nas escolas, negros são quase sempre retratados em papéis sociais mais humildes. Na televisão, ocupam as figuras de personagens que vivem em favelas, são ajudantes ou representam figuras estereotipadas. Na mesma entrevista, Andréia Lisboa de Sousa, pesquisadora das relações raciais na literatura infanto-juvenil na Universidade de São Paulo (USP), fala sobre um achado: “Não basta que um livro contenha personagens negras. É preciso atenção nas imagens. Não podemos admitir figuras com traços grosseiros. Encontrei um livro em que as personagens negras pareciam porcos”.

 

Raphael Rodrigues
Foto: Divulgação / Rede Globo
MITOS – Quando se fala em televisão e, principalmente, em novelas, é interessante notar que em uma mesma trama os negros podem ganhar papéis diferentes. É o caso de “Bang Bang”, da Rede Globo. Nela, o personagem interpretado por Raphael Rodrigues, “Bike-Boy”, é descrito como alguém que “trabalha para toda a cidade como uma espécie de motoboy. Tem uma ginga malandra, fala gírias e apavora Albuquerque com a maneira suicida de conduzir sua bicicleta”.

 

No extremos, temos o personagem “Charles Muller”, interpretado por Cássio Nascimento. Um olhar mais apurado percebe que, de longe, Cássio possui traços mais europeus. Na novela, ele é um “jornalista e editor da ‘Gazeta de Albuquerque’. Jovem sonhador que traz idéias democráticas para a cidade e lutará contra a ferrovia e a desapropriação geral. É grande amigo de Harold e se apaixonará pela Baiana”.

 

Além da televisão, outros são os milhares de pontos que reforçam os estereótipos que se ligam ao negro. Na Bahia, por exemplo, criou-se o mito da “preguiça do baiano”, pensamento arcaico que atribuía esse adjetivo ao negro (que inclusive trabalhava por muito mais tempo que o branco). O mito do macumbeiro também se alastrou pelo Brasil, ligando as religiões afro-brasileiras à Quimbanda, uma das muitas vertentes das práticas religiosas trazidas da África para o Brasil.

 

Por esses e outro motivos, ainda se cultiva no dia 20 de novembro a esperança de que a situação, um dia, se reverta. A data relembra o assassinato de Zumbi, em 1665, o mais importante líder dos quilombos de Palmares. Palmares durou cerca de 140 anos. Há 32 anos, o poeta gaúcho Oliveira Silveira trazia a data à tona, como um dia mais significativo para a comunidade negra brasileira do que o 13 de maio. “Treze de maio traição, liberdade sem asas e fome sem pão”. Essa era a definição do poeta para o “Dia da Abolição da Escravatura”.

 

Por Wilame Amorim Lima

Da Redação do Portal InfoNet

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