Sergipe é o Estado que recolhe mais armas no Brasil

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Menor Estado brasileiro, Sergipe se destaca na mobilização nacional em favor da campanha de entrega voluntária de armas. Desde o dia 15 de julho, 4.762 artefatos foram entregues, o que posiciona o Estado em primeiro lugar no ranking de armas recolhidas por 100 mil habitantes. Um dos mais entusiastas da campanha e responsável pelo sucesso da campanha no Estado é o secretário de Justiça e Cidadania de Sergipe, Emanuel Cacho, que, inclusive tem se mobilizado em vários Estados.

 

Cacho, também, foi convidado pelo Vivo Rio para a caravana nacional pelo desarmamento, juntamente com ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Do total de 1,6 milhão de sergipanos, a relação de artefatos entregues por 100 mil habitantes é de 243, 2. O Rio de Janeiro vem em segundo lugar (135,9) e São Paulo, que lidera o ranking de números absolutos, aparece em 10ª posição nesta lista (77,8).

 

Para incentivar a população a se desarmar, a Superintendência da Polícia Federal em Sergipe procurou instituições da sociedade civil, a exemplo da Maçonaria,  a fim de estabelecer parcerias que auxiliassem na divulgação e no recolhimento das armas. Os primeiros resultados começaram a aparecer com a participação da Arquidiocese de Aracaju, que coordena 62 paróquias em 22 cidades, na divulgação da campanha. A iniciativa foi do superintendente da PF no estado, Kércio Silva Pinto, que procurou o bispo dom Ducênio Fontes para pedir o engajamento da igreja.

 

Segundo a coordenadora de comunicação da diocese, Hipácia Nogueira, a igreja está publicando, em seu jornal mensal, notícias sobre a campanha e já preparou uma lista com  nomes de 12 paróquias em Aracaju e no interior que podem servir de posto de recolhimento de armas. “Além disso, o padre tem desempenhado um papel importante nas missas, falando do assunto nas homilias e ao fim das celebrações. Os cartazes sobre a campanha afixados nas igrejas também alertam e esclarecem as principais dúvidas dos fiéis”, explica Hipácia.

 

Com um dos maiores índices de criminalidade do Brasil, Sergipe ainda luta contra a tradição coronelista e tenta convencer seus cidadãos a se desarmarem. Por conta da divulgação promovida pela Igreja, inclusive com o apoio da rádio da diocese, que promove debates sobre o tema, a instituição tem sido procurada pelos que desejam ter mais informações sobre a campanha. 

 

MÍDIA APÓIA – A mídia local também tem sido fundamental para o sucesso da campanha em Sergipe. Com grande alcance nas cidades do interior, as rádios anunciam com dias de antecedência a passagem da Polícia Federal pelas cidades e convocam os cidadãos a entregarem suas armas. Segundo o policial  responsável pela campanha no interior, Roberto Freitas Silva, a PF tem organizado jornadas de recolhimento pelas principais cidades do interior, tendo percorrido até agora 26 dos 77 municípios. Outras cinco cidades estão com visitas marcadas ao longo deste mês. Freitas acredita que agora, após as eleições municipais, o movimento vai se intensificar. Ele esclarece ainda que a PF não estabeleceu parcerias com as prefeituras para que a campanha do desarmamento não adquirisse um caráter eleitoral. 

 

O presidente do Sindicato dos Jornalistas de Sergipe, Cristian Góes, diz que a categoria está vestindo a camisa da campanha e tomando consciência da importância da mídia na formação da opinião pública. “Estamos preparando uma cartilha e panfletos sobre o desarmamento para distribuir nas escolas e nas ruas da cidade. Uma intensa cobertura dos eventos de recolhimento também está sendo feita para divulgar o máximo possível o que tem sido feito”. Em Lagarto, uma das principais cidades do estado, a caravana passou em agosto e recolheu 300 armas em um só dia. A iniciativa contou com a participação da igreja e da Rádio Progresso, que cedeu o próprio auditório para montar um posto de recolhimento.  

 

“Fizemos uma campanha grandiosa na cidade e conseguimos recolher 300 armas em um só dia dentro da própria rádio. Teve até fila na porta. Recebemos de tudo, desde armas velhas até pistolas novas e até o fim do ano devemos fazer outra jornada na cidade pelo desarmamento”, afirma Edelson Moura, dono da Rádio Progresso. A situação de violência em Lagarto, que antes da campanha  registrava nove assassinatos com armas todos os meses, se repete em Poço Redondo, no sertão sergipano. Com o território maior do que o da capital Aracaju, mas com população inferior (15 mil habitantes), a cidade conta apenas com dois policiais. 

 

Um dos grandes incentivadores do desarmamento no país, o secretário de Justiça, Direitos Humanos e Administração Penitenciária de Sergipe, Emanuel Cacho, avalia que a campanha atravessa agora um divisor de águas. Cacho, que ainda é presidente do Conselho  Nacional dos Secretários de Justiça, Direitos Humanos e Administração Penitenciária – Consej – tem realizado reuniões  mensais com os colegas para discutir o andamento da campanha em todos os estados brasileiros.

 

“O governo federal tem de rever suas estratégias e aumentar o envio de verbas para os estados aplicarem em segurança. Cada governo estadual gasta 97% de seu orçamento em segurança , enquanto a União investe apenas 3% . Se o governo, que propôs o desarmamento, não se comprometer com o cidadão, teremos dado um tiro no pé ao desarmar a sociedade e não melhorar a segurança publica”, defende Cacho.

 

CARAVANA NACIONAL – Uma caravana pelo desarmamento, a partir de hoje, marca a nova etapa da campanha. O ponto de partida é o estado do Paraná, pioneiro no recolhimento de armas no Brasil, que recolheu 20 mil armas nos seis primeiros meses deste ano, antes do início da campanha nacional. Até hoje, deverão ser percorridos os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

 

Participam da caravana o ministro da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, representantes das ONGs Viva Rio e Sou da Paz, do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e de igrejas. O roteiro nas demais regiões do país ainda será definido. 

 

Durante as visitas, haverá reuniões com os governadores dos estados, superintendentes da Polícia Federal, chefes da Polícia Civil e entidades civis, como ONGs, igrejas, organizações de categorias profissionais, entre outras. Na ocasião, Thomaz Bastos também assinará convênios com os governadores para a liberação de recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública. Além disso, segundo informou o Ministério da Justiça, o ministro consolidará a adesão dos estados à campanha, com o credenciamento de delegacias policiais para receberem armas onde não houver representação da PF, conforme prevê o Estatuto do Desarmamento.

 

O Viva Rio e o Sou da Paz vão se reunir com as entidades civis presentes nos encontros para esclarecer dúvidas e oferecer treinamento para as que estiverem interessadas em abrir postos de recolhimento de armas. As organizações acreditam que, além do poder público, a sociedade também deve participar ativamente na divulgação da campanha e na coleta dos armamentos.

 

Por Antônio Carlos Garcia

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