“Solidariedade: arma poderosa contra o câncer”, por Francisco Neves

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“Nenhum homem é uma ilha, sozinho em si mesmo; cada homem é parte do continente, parte do todo… A morte de qualquer homem me diminui, porque eu sou parte da humanidade…”. Quatrocentos anos depois, os célebres versos de “Meditação XVII”, do inglês John Donne (1572-1631), seguem provocando reflexões, influenciando atitudes. Sem exagero, creio que é possível atribuir ao texto do poeta britânico um papel importante na difusão dos conceitos de solidariedade, fraternidade e cidadania.  

Não há como negar que os cidadãos, ao longo dos últimos séculos, passaram a ocupar um papel mais atuante na busca de soluções e nas decisões da sociedade – e o Brasil não é exceção. Querem uma prova, um exemplo? Tomo a liberdade de apontar – até porque o conheço muito bem – o McDia Feliz, que neste ano será realizado no próximo dia 13.

Trata-se da maior ação nacional contra o câncer infanto-juvenil, que atinge cerca de 7.100 jovens no País a cada ano. Desde a primeira edição, em 1988, foram arrecadados R$ 45 milhões para instituições que assistem crianças e adolescentes com a doença em todo o Brasil. Coordenado pelo Instituto Ronald McDonald, o McDia Feliz tem como base a doação dos recursos arrecadados (menos os impostos) no dia da campanha, nos restaurantes McDonald’s. Mas engana-se quem credita o sucesso da iniciativa única e exclusivamente ao gesto generoso da empresa.

Em 2004, nada menos do que 30 mil voluntários vão participar do McDia Feliz. São pessoas das mais diversas faixas etárias e de renda. Alguns se dedicam à causa só no dia da campanha; outros reservam religiosamente horas e até alguns dias da semana para cuidar de jovens com câncer e arrecadar recursos para as instituições em que atuam. O poder dessa brava gente não pode ser subestimado. No final da década de 1980, o índice médio de cura do câncer infanto-juvenil na faixa etária de 0 a 18 anos era de apenas 35%, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Ministério da Saúde. Hoje, o percentual de cura chega a 70%, o que coloca o Brasil no mesmo patamar das nações do Primeiro Mundo.

Não há menor dúvida de que a Oncologia avançou a passos largos nas últimas décadas. É importante destacar, contudo, que o próprio Ministério da Saúde já considera fundamental o engajamento da comunidade para o êxito na luta contra o câncer entre os jovens. E disposição, é bom que se diga, ela tem demonstrado de sobra. Tanto é que o número de voluntários do McDia Feliz cresce a cada ano.

Parcela importante desses bravos guerreiros do Terceiro Setor milita em Aracaju, no Estado de Sergipe. São cidadãos que se dedicam regularmente às crianças e adolescentes assistidos pela Associação de Voluntários a Serviço da Oncologia em Sergipe – Avosos. Ao longo dos últimos anos, eles foram responsáveis por importantes conquistas, como a construção do complexo Avosos. Agora, planejam comprar um micro-ônibus com o que for arrecadado com o Mc Dia Feliz 2004.

O trabalho e a dedicação desses voluntários criam a perspectiva de novos avanços no combate ao câncer infanto-juvenil. Quais as prioridades? O Instituto Ronald McDonald listou as providências mais prementes em seu Programa Tsuru, lançado no primeiro semestre do ano. Em primeiro lugar está sendo feito um levantamento dos Pólos Convergentes, regiões brasileiras com capacidade intrínseca de atrair uma determinada população ao seu redor e identificando quais são os níveis de atendimento existentes, definidos da seguinte forma:

Nível 1 – Contar com equipe profissional capacitada com médico oncohematologista pediatra, enfermeiro, assistente social e nutricionista; ala dedicada em unidades hospitalares; hospital-dia complementar a unidade hospitalar; Casa de Apoio.

Nível 2 – O mesmo do Nível 1, mais atividades de suporte psicossocial na Casa de Apoio e centros especializados nas unidades hospitalares.

O desafio então é alterar as capacidades dos Pólos Convergentes buscando a maximização dos níveis de capacitação hospitalar e de apoio social a crianças e adolescentes com câncer, possibilitando que as crianças permaneçam em suas regiões de origem, recebendo um tratamento de qualidade, não sendo preciso buscar atendimento em centros distantes.

Situação ainda mais dramática é a dos jovens que não têm a doença diagnosticada. A cada ano, de acordo com o Inca, em torno de 2.500 novos casos de câncer infanto-juvenil não são detectados. Esses meninos e meninas respondem, anualmente, por dois terços dos 3.800 óbitos causados pela doença na faixa de 0 a 18 anos, no Brasil. É fundamental, portanto, expandir o diagnóstico da doença, o que permitiria, no mais otimista dos cenários, a salvação de 1.750 vidas todo ano.

Estes são apenas alguns dos desafios que temos pela frente. É uma missão dura, não resta a menor dúvida, mas exeqüível. Afinal, nosso povo sabe, há muito tempo, que a solidariedade é uma arma poderosa no combate ao câncer.

* Francisco Neves é superintendente do Instituto Ronald McDonald

McDia Feliz acontece hoje em todo país

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