A lenda da Noite – Por Gustavo Aragão

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Num certo dia na tribo Serigy, o sol foi ficando cansado, os indiozinhos também e enquanto o sol se despedia do céu, os índios se reuniam em torno da fogueira para que pudessem ouvir histórias dos índios mais velhos da tribo, que adoravam contar histórias inventadas ou não, histórias que foram passadas de gerações a gerações.

O pajé da tribo pediu a vez para contar uma história muito bonita que lembrara:

 − Eu gostaria de contar uma história que o meu avô me contava. Vocês querem ouvir?

− Sim! Queremos!!! – responderam 5 ou 6 indiozinhos de olhos arregalados e curiosos, que estavam sentados no meio de adultos para ouvir as historinhas.

O Pajé Ubiratã todo feliz por ver as crianças empolgadas para ouvi-lo, sentou-se no chão com todos em volta e a fogueira, e começou a contar:

− Foi assim que tudo começou…  Há muito muito tempo, no começo do mundo quando ele ainda estava nascendo só havia o dia. A noite − diziam nossos avós − vivia adormecida, nas profundezas do rio escuro, sob a vigilância de Boiúna: cobra grande; que mandava e desmandava no rio. Ela tinha uma filha muito bela e mimada que era casada com um belo rapaz de um vilarejo que ficava às margens do rio. A filha de Boiúna recusava-se a ir dormir com seu marido, mas ele nunca entendia o porquê de sua esposa não querer ir dormir com ele. Sempre quando questionada, a bela menina respondia:

− Mas ainda não é noite.

E seu marido tentava convencê-la dizendo:

− Noite? O que você chama de noite? Até hoje só conheço o dia. Existe apenas o dia.

A bela moça, então, respondeu:

− Isso não é verdade. Não pode existir apenas o dia. É preciso que tenhamos a noite para descansarmos, para dormirmos e sonharmos. Minha mãe Boiúna resguarda a noite em sua casa. Quero que vá buscá-la para mim. – A menina com birras foi deitar-se na rede.

Seu esposo super apaixonado tentou questionar, mas a moça não queria saber, queria porque queria a noite e pediu a ele que a buscasse e que caso não a trouxesse, ela jamais dormiria com ele. Então, o belo rapaz sem muitas alternativas chamou de imediato três dos seus mais fiéis amigos para ajudá-lo nessa aventura.

O rapaz na presença de seus amigos disse:

− Chamei-os aqui por saber que posso contar com vocês, pois vocês são meus fiéis amigos e como tais não me faltarão. Minha bela esposa… Vejam… Encontra-se deitada naquela rede, sempre muito triste. Desde que nos casamos nunca se deitou comigo. Ela agora inventou uma história que só dormirá quando houver a noite.

− Noite? Como assim? O que seria a noite? – Perguntou descrente Caiubi, um dos amigos do rapaz.

− Não sei. O que sei é que ela disse que Boiúna resguarda em sua casa esta tal noite e que eu precisava ir buscá-la sob pena de ficar sem dormir com ela pro resto das nossas vidas. Preciso da ajuda de vocês.

− Mas isto é um absurdo. A mãe desta bela moça, com todo respeito ao amigo, fica nas regiões mais profundas do rio. Como chegaremos até lá? – Perguntou Cauã, outro fiel amigo do índio Apuã.

− Não sei. Só sei que temos que conseguir chegar até lá. − Retrucou Apuã. 

− Por Tupã, como chegaremos até Boiúna? Como atrairemos ela que é a rainha do rio Escuro? Não há de ser uma tarefa tão fácil. Vocês concordam? − Questionou Piatã.

− Realmente não deve ser uma tarefa fácil, meus amigos. Dizem existir um ancião numa aldeia próxima que com suas pajelanças consegue alcançar o Rio profundo e assim chegar a Boiúna. Ele é muito sábio. Já teve grandes e mágicas experiências. Acredito que ele poderá nos ajudar. Posso tentar descobrir onde fica a aldeia. Meu pai deve saber ou mesmo alguém mais velho de nosso vilarejo. Façamos o seguinte: vou a minha casa me preparar para nossa saída. Perguntarei ao meu pai o que for preciso para que cheguemos o quanto antes à aldeia.

− Então, vamos todos, cada qual avisar aos seus pais, pegar o que achar necessário para que possamos sair em busca de Boiúna. − Falou Cauã.

− O que estamos esperando? − Disse Caiubi animando-se para grande aventura.

 

Cada um foi a sua casa pegou arco, flechas, tacapes, frutas etc. Já Apuã, além de tudo, providenciou o mapa, tratou de desenhar em um velho pedaço de pano o caminho para que pudessem chegar a aldeia do pajé antes que os olhos pesassem, fez tudo isto com a ajuda do Tio Ubiratã, um índio reconhecido por suas lutas e por sua generosidade.

Apuã, Cauã, Caiubi e Piatã depois de providenciarem tudo foram ao local marcado para que pudessem juntos irem a tal aldeia do pajé ancião.

Ao chegarem na aldeia, o pajé os recebeu em sua oca e propôs aos rapazes uma pajelança; deu-lhes um amuleto, que segundo ele resguardava o canto do sabiá, um canto mágico e que somente com a ajuda do canto doce do sabiá poderiam atrair Boiúna para as margens do rio Escuro e terem seus pedidos atendidos. Disse o pajé a eles que eles deveriam abrir o amuleto e em seguida joga-lo dentro do rio. Logo, as águas se tornariam mais claras e, Boiúna surgiria hipnotizada na margem do rio para atender ao pedido deles.  O pajé despediu-se dos rapazes desejando a eles sorte e força.

Os garotos muito felizes foram ao rio Escuro, enfrentaram pântanos, regiões de areia movediça, caíram em armadilhas de onça, mas como todos os bons índios conseguiram escapar de todos os obstáculos. Seus olhos começavam a cansar, mesmo ainda sendo dia e o sol estando a pino no céu. Porém estavam muito empolgados por conseguirem chegar ao rio onde morava Boiúna. O lugar era meio sombrio e assustador, mas nada os fazia temer, pois estavam com o amuleto que fora cedido a eles pelo pajé. Agora, precisavam conseguir abri-lo para que pudesse ouvir o canto do sabiá. Tomaram a sacolinha de pano, costurada com couro à mão pelo pajé e a abriram, dela tiraram um amuleto de madeira que precisava ser rompido para liberar o canto do pássaro. Jogaram o círculo no chão, pisaram em cima, atritaram-no com pedras, deram-lhe pauladas… Nada o fazia abrir. Piatã, então, usando a sua sabedoria disse:

 −Já que tentamos das formas mais variadas e violentas possíveis e não conseguimos abri-lo, passa Cauã uma de suas belas penas sobre o amuleto e vejamos o que pode acontecer.

            Cauã, aceitando a sugestão do amigo, faz o que ele sugeriu. Toma uma das suas mais belas penas e passa suavemente sobre o amuleto como num gesto de carinho, pouco a pouco, o amuleto fora se abrindo e de dentro dele ouvia-se o belo e mágico canto do sabiá, todos pareciam estar ficando hipnotizados quando Apuã lembrou-se que deviam jogá-lo no rio para que Boiúna pudesse aparecer, os outros hipnotizados pelo canto do pássaro nada fizeram. Se não fosse a força e esperteza de Apuã nada teria acontecido. Então, logo que Apuã jogou o amuleto no rio, as águas começaram a ficar num tom de azul mais claro e o belo rapaz na companhia dos seu amigos pôde notar as profundezas do rio Escuro e lá longe avistavam Boiúna que se aproximava lentamente com seus olhos arregalados. Os rapazes ficaram com bastante medo, mas mantiveram-se firmes e enfrentaram Boiúna com muita coragem.

            Quando a grande cobra estirou-se numa pedra à margem do rio, os meninos se aproximaram pouco a pouco, com um pouco de medo, mas Apuã logo tomou a palavra dizendo:

            − Grande Boiúna, viemos aqui a pedido da sua bela filha. Disse ela que só dormirá quando noite existir e que a senhora resguarda em sua casa a noite que ela tanto deseja, traga-nos a noite, ó, rainha do rio Escuro.

            − Pois não querido e belo Apuã. Pega esta tucumã e diga a Tukún, sua esposa, que este é um presente meu para ela. Vai depressa e a faz feliz. – disse Boiúna hipnotizada.

            – Somos gratos, ó Boiúna. Agora, volta a tuas águas com a mesma calma com que veio até a superfície. − Disse Caiubi.

            

            E Boiúna retorna às profundezas do rio Escuro.

            Os meninos após conseguirem a tucumã voltam para o vilarejo. No meio do caminho ouvem os mais diferentes sons. Sons que nunca tinham ouvido antes. Eram sons meio engraçados e ao mesmo tempo assustadores e resolveram descobrir de onde vinham.

             “Coach, coach, coach… Cricricri, cricricri, Cri… Cri…Cri…”

            Procuraram atrás das capoeiras, de árvores frondosas. No chão só viam colônias de formigas, mas estas já eram muito conhecidas de todos, viam também inúmeras abelhas em suas colméias, mas também não poderiam sê-las. Apuã, por um descuido, sacode a tucumã e percebe que é dali que vem os ruídos estranhos. Piatã toma a tucumã de Apuã e leva ao ouvido, tendo a certeza de que aqueles barulhinhos vinham de dentro da pedra. Caiubi curioso toma a pedra das mãos de Piatã e também a leva ao ouvido, em seguida, Cauã a toma das mãos de Caiubi e também põe-se a ouvir. Todos ficam muito curiosos e resolvem abrir a tucumã. Pedem então a ajuda do senhor papagaio que só vivia escondido num galho de árvore que ficava numa região, próximo à caverna. O senhor papagaio muito agoniado aperta a tucumã com seu bico afiado, abrindo uma fenda na tucumã. Os ruídos ficaram ainda mais fortes, ouvia-se mais claramente todos eles, agora.  Apuã tomou para si a tucumã e a abriu com facilidade. Ao abrir, saltou de dentro uma escuridão imensa que pintou o céu e tudo que estava abaixo e acima dele. Num suspiro fez-se noite. E Tukún de sua oca notou o que os meninos haviam feito e ficou super furiosa. Afinal o presente era dela, e não delos, por isso não podiam ter mexido. Não devemos mexer naquilo que não nos pertence. Com toda sua raiva, Tukún invocou Tupã, o deus criador e com sua ajuda resolveu separar a noite do dia. Pegou dois fios de cipó, enrolou o primeiro, em sua mão direita, e pintou-o com tons claros e disse:

−Tu serás Cujubin  e cantarás sempre que a manhã vier nascendo.

Dizendo isso lançou o primeiro fio ao céu e este transformou-se em pássaro e saiu voando. Depois pegou o outro fio, enrolou-o, em sua mão esquerda, jogou sobre ele cinzas de uma fogueira, dizendo:

            − Tu serás Coruja, e cantarás sempre que a noite chegar. ­Dizendo isto lançou o segundo fio ao céu e este se transformou em pássaro e saiu voando.

            Os dois pássaros, Cujubin e Coruja encontraram no ponto mais alto do céu e foram reverenciados por todos os pássaros do mundo que cantaram num só canto a um mesmo tempo.  A partir deste dia, o dia passou a ter dois períodos: manhã e tarde – que são o dia – e a noite.

           

            É isso meninos. Agora, a coruja já cantou, chegou a noite e está na hora de vocês irem dormir. Logo logo teremos um novo e belo dia para que vocês possam vivenciar. Portanto, hora de dormir crianças.

 

            − Ah, seu pajé, conta mais uma historinha. Essa que o senhor contou foi maravilhosa! Nós adoramos muito. Conta, conta, conta…

            − Amanhã. Prometo que amanhã conto outra para vocês.

 

            Depois deste dia não havia noite que o pajé não contasse historinhas para os indiozinhos de sua tribo. E assim foram anos e anos. Luas e mais luas contando histórias. Até mesmo os índios maiores sentavam à roda para ouvi-las.

 

Por Gustavo Aragão

 

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