Aglaé Fontes alerta para um referêncial cultural

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Sempre preocupada em manter viva a tradição junina e conscientizar as pessoas desta importância, a professora Aglaé D’Ávila Fontes, participa pela terceira vez do Fórum de Forró palestrando sobre “A evolução do São João em Aracaju: De uma festa modesta na rua São João a um grande evento de repercussão nacional”. Numa entrevista ao Portal InfoNet, Aglaé Fontes, que também é pesquisadora, folclorista e diretora do Centro de Criatividade de Sergipe, nos faz “reviver” um pouco os primeiros festejos juninos, mas também alerta para que as novas gerações tenham um referencial cultural.

PORTAL INFONET – Os festejos juninos em Aracaju iniciaram com a rua de São João?
AGLAÉ D”ÁVILA FONTES –  Não. Os festejos juninos em Aracaju não começaram na rua de São João, esta foi uma segunda organização. O São João da cidade começou de forma espontânea, nas frentes das casas, que na época não tinham nem calçamento. Havia sempre a presença do mamoeiro, lembrando que esta é uma festa ligada a natureza e a agricultura. O lampião era feito de vidro e papel de seda. Era tudo muito rudimentar. No local, que hoje é a rua de São João, existia um sítio chamado Matinha dos Caboclos, onde duas irmãs que tinham a imagem de São João de Deus começaram a fazer as novenas e o povo da redondeza ia assistir. E este foi o “germe” inicial dos festejos, de onde também se originou o nome da rua, já que as pessoas costumavam dizer “vamos para a novena na rua de São João de Deus”. Foi diminuindo até ficar o que é hoje, rua de São João.

INFONET – Da festa religiosa surgiu os festejos?
AF- O ciclo junino tem o aspecto religioso e o profano, mas começou pelo religioso. As novenas na Matinha dos Cablocos, como depois, na igreja do Santo Antônio tinham um cunho religioso. Mas, o pessoal da rua de São João, quando acabavam as novenas iam dançar coco nas casas. Era uma comunidade muito unidade, eles mesmos enfeitavam as ruas, dividiam as comidas e não tinha autoridade que entrava nos festejos. Era uma festa realmente do povo. E é este que faz a cultura. 

INFONET – A rua de São João ficou conhecida pelas quadrilhas. Até então elas não existiam?
AF- Não. As quadrilhas apareceram na rua de São João por volta de 1955. Aí começou a ter uma organização, onde temos com a figura de mestre Calazans como um ponto culminante. Ele fazia os festejos, incentivava a enfeitar as ruas, a colocarem fogueiras nas portas e dançavam o samba de coco. Esta era a marca mais importante deste “brincar coletivo” das pessoas de antigamente.

INFONET – E como as festas juninas foram evoluindo na capital?
AF- A partir daí os festejos vão se transformando, vão surgindo outros espaços, criaram o Centro de Criatividade com o Arraial do Arranca Unha. Depois foram montados outros arraias nos bairros com armação de madeira e palha, onde haviam grupos de forró cantando e o povo dançando. E com o tempo, veio o que eu chamo do “São João criado”, a exemplo de Areia Branca, Festância em Estância, já em Aracaju temos o Forró Caju e agora a Vila do Forró. Eles mudaram muito a “feição”,  embora ele tente se basear em aspectos da tradicionalidade. 

INFONET – Algumas destas festas tentam manter o tradicionalismo resgatando a cultura e mantendo bandas autênticas de forró. O que a senhora quer dizer quando diz que elas mudaram os festejos?
AF – É a presença das bandas que eu chamo de “pseudo-forró”. Elas tocam o ano inteiro às mesmas músicas e continuam a tocar no São João. Então, a meu ver, existe uma grande diferença. E é necessário que culturalmente nós tenhamos consciência de que um grupo de forró, com trio, zabumba e triângulo tem uma importância cultural muito maior do que uma banda com todos os instrumentos eletrônicos.

INFONET – Como fazer uma grande festa que possa atrair turistas e atender a todo o público sem perder a tradição?
AF – É necessário ter uma consciência cultural muito forte. Não somente dos órgãos culturais, mas das pessoas que estão nestes órgãos. Não é que estes festejos devam ser imutáveis, existem mudanças naturais, mas não aquelas impostas pela mídia. É necessário atender a este crescimento com cuidado para não se deixar se levar pela vulgaridade, que infelizmente existem em algumas bandas. Na verdade, a festa tem um caráter de tradição muito mais simples e real.

INFONET- Qual é a importância deste Fórum de Forró para a cultura nordestina?
AF- O fórum é muito importante enquanto estudo e deve ter a preocupação de informar as novas gerações os aspectos do ciclo juninos. É necessário que os jovens tenham conhecimento destas modificações e possam ter um referencial da sua cultura, porque de repente muda tanto que ninguém fala de outro aspecto e fica parecendo tudo igual. As escolas é um grande fundamento nesta instrução, mas quando tem um professor bem informado. 

Por Raquel Almeida

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