Diretor fala sobre filme “O banheiro do Papa”

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El baño del Papa / foto: Divulgação
A co-produção Brasil-Uruguai ‘O banheiro do Papa’ (El baño del papa) entrará em cartaz em Aracaju no próximo dia 2 de maio. O filme conta a história dos moradores da cidade de Melo no Uruguai, que animados com a visita do Papa ao país pensaram que poderiam lucrar com os turistas brasileiros que fossem ao local. O Portal Infonet entrevistou o diretor César Charlone, que dirigiu o longa juntamente com Enrique Fernández. Charlone esteve em Aracaju participando da oitava edição do Curta-SE, Festival Ibero-americano de Curtas-metragens.

Portal Infonet – Como foi a escolha da direção de arte do filme?
César Charlone – no processo de escrever o roteiro eu já ia visualizando como seria. Ia fazendo notas. Eu fiz uma espécie de planejamento, de escrever na contra página do roteiro todas as anotações técnicas para que o Enrique entendesse e passasse para o resto da equipe.

El baño del Papa / foto: Divulgação

Infonet – O fato de você sempre ter trabalhado com fotografia levou a uma preocupação especial na concepção desse filme?
CC – Eu acho que têm diretores que são focados em diferentes áreas. Têm diretores mais focados em montagem, como o Fernando Meirelles. Mais focado em atores, como o [Ugo] Giorgetti. E tem caras como o Ridley Scott e outros que são mais visuais. Eu sou um cara muito visual e o que eu penso já vou visualizando. Para o filme nós visitamos as locações para tentar entender o que era a cidade de Melo e a região. Vimos o que funcionava para o filme, e eles foram me mostrando o que estava na pesquisa original. A partir daí eu fui dando meu olhar.

Infonet – O que você acha que traz empatia do filme com o público?
CC – Acho que ele toca em assuntos que as pessoas sentem. Todo mundo sonha com alguma coisa impossível, as pessoas têm essa necessidade. Você fica torcendo pelo personagem principal do filme. Você vê que ele está aprontando, fazendo coisas anti-éticas, indo contra os princípios dos amigos, mas atrás de um sonho. Acho que isso identifica as pessoas. Eu pelo menos me identifico com isso. A gente é sonhador. 

Infonet – O filme questiona o mercantilismo da fé. Esse é o ponto principal que você quis tocar?
CC – Você sempre leva as coisas que te inquietam para dentro das suas produções. Mas não diria que é a temática principal. O que tem muito é a coisa da mídia, a manipulação da mídia nos sonhos das pessoas.

 
César Charlone convida para assistir ao filme

Por isso que a gente fez a brincadeira de pôr o jornalista inescrupuloso e manipulador, mas tem uma menina que também quer ser jornalista. Possivelmente ela se preocupa com as questões éticas da profissão.

Infonet – O que você acha que a tecnologia trouxe para o cinema?
CC – Eu costumo brincar que se o diabo aparecesse pra mim e perguntasse pelo que eu trocaria minha vida, eu diria que trocava cinco anos de vida por voltar um ano daqui a 50 anos. Porque vai ser tão divertido, vai haver uma revolução tão grande. A internet, o festival de filmes de celular é maravilhoso. É democratização. Você faz um filme com os amigos, põe na internet e todo mundo vê. É como a escrita que antes era só dos monges, e quando Guttemberg inventou a imprensa se democratizou. Acho que o cinema vai se democratizar e vai prevalecer quem tiver uma boa idéia.

Backstage de “O banheiro do Papa” / foto: Divulgação
Eu queria ter lançado o ‘Papa’ em cinema e DVD simultaneamente, só que DVD em banca de jornal. Porque a turma teve um esforço enorme de divulgação na mídia na semana do lançamento. E por causa de verba acabamos lançando cinco cópias em são Paulo e mais uma no Rio de Janeiro e só. Nos outros Estados acaba chegando cinco meses depois e perde aquele impacto. Se fizesse uma coisa mais massiva talvez fosse mais interessante. Acho que o cinema nunca vai morrer, as pessoas gostam de espetáculo. Quem me alertou pra isso foi o ‘Tropa de Elite’ que teve mais de 40 milhões de espectadores. É assustador. Qualquer pessoa assistiu o ‘Tropa’.

Infonet – Você foi o diretor de fotografia do filme ‘Cidade de Deus’  e recebeu a indicação ao Oscar por isso. Como você encara a experiência tida com o ‘Cidade de Deus’?
CC – A gente estava na filmagem e um dia apareceu o Walter Salles, que era um dos produtores do filme, e disse ‘que bom que vocês estão fazendo esse filme. Ele precisava ser feito. Eu sinto isso, que o filme precisava ser feito”. Eu nunca levo meus filhos pro set, pra não influenciar na profissão. Mas no ‘Cidade de Deus’ eu fiz questão de levar os quatro, três deles estagiaram no filme. Porque eu queria que eles vivessem esse universo da favela e da realidade do  Brasil que eles não

Backstage de “O banheiro do Papa” / foto: Divulgação
conhecem e que está atrás do muro. Eu entrei pra fazer cinema por uma coisa meio militante que tinha na minha geração, de fazer alguma coisa útil no mundo. A  gente tinha meio um sentimento de culpa de fazer as coisas por dinheiro ou prazer, tinha que ter uma missão. E eu que tinha uma vocação fotográfica falei: ‘Se tem que mudar o mundo com armas não vou ser eu, que sou medroso. Vou tentar esse negócio de fotografia denúncia’. Eu sempre tive essa coisa de estar fazendo algo que seja útil, eu tenho esse estigma. É uma coisa que me conduz sempre. Sempre pergunto se vale a pena fazer um projeto. Aí me chamam pra fazer um filme de adolescente pra passar na Sessão da Tarde. Se eu estou cômodo, com escola dos meus filhos paga, vou esperar que venha outro projeto que me seduza mais. O ‘Cidade’ foi isso. Foi bacana contar aquela história para as pessoas.

Infonet – Quais são os projetos futuros?
CC – Eu gosto muito de fotografar. Eu fotografei um documentário para um amigo meu, e meio que dirigi a ficção que tem um pouco no documentário. É um documentário uruguaio-francês que passa sobre aquele acidente do avião nos Andes [Cordilheira dos Andes-1972 / O documentário é

César Charlone
Stranded: I Have Come from a Plane that Crashed on the Mountains]. O filme está indo muito bem. Ganhou vários festivais, ganhou Amsterdã, e eu vou fazer outro trabalho com ele. Eu gosto dessa coisa de equipe pequena e câmera na mão. Estou com uma amiga fazendo um negócio de Cuba, que estamos escrevendo juntos. Vou dirigir um longa pra TV espanhola numa série sobre os libertadores San Martín, Artigas, Bolívar, Tiradentes, e tal. Eles me convidaram pra fazer o Artigas, que é o uruguaio da história. Além disso estou escrevendo o roteiro com uma amiga  sobre os anos da Operação Condor.

Infonet – Quais impressões do Curta-SE em Aracaju?
CC – Adorei o fato de ser um festival de curta, que abre tanto para as novas tecnologias, como animação, filme de celular. Aberto às novas produções. Chamou muito a atenção o lance da televisão local que se interessa em ter um programa de curtas e a iniciativa que todos estão tendo.

Por Ben-Hur Correia e Gabriela Amorim

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