Lampião não se resume a “herói ou bandido”

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Lampião e seu bando
A história costuma estigmatizar seus personagens como heróis ou bandidos, porém muitas vezes, a simples definição não explica o verdadeiro personagem, e é por conta do rótulo que os mitos são criados e as histórias em torno deles são multiplicadas. No dia 28 do mês passado completou 72 anos da morte de Virgolino Ferreira da Silva vulgo ‘Lampião’, sua companheira Maria Bonita e mais nove pessoas de seu bando. Sete décadas após sua morte, o personagem Lampião ainda causa muita controvérsia entre as pessoas.

Lampião que nasceu em Pernambuco teve seu pai assassinado em 1920 pela polícia a mando de coronéis quando ainda criança, sua mãe morrerá 19 dias antes vítima de infarto. O sertanejo então se revoltou com a realidade e partiu em busca de seus inimigos. Sua história hoje é vista como um misto de romance, aventura, violência, amor e ódio.

Maria Bonita e Lampião, representados em filme por Tânia Alves e Nelson Xavier
Para a neta de Lampião, a historiadora Vera Ferreira, o rótulo de ‘bandido ou herói’ é muito simplista. “Eu costumo dizer que cangaceiros foram homens que disseram não a situação, porque se nós olharmos o passado do cangaço e analisá-lo somos remetidos para uma época social, econômico e cultural de muita pobreza no sertão, como ainda hoje é. Lá não existia uma autoridade, o sertanejo passava necessidades e ainda era explorado. Aí que o cangaço entra e se firma pela ausência de autoridade”, aponta.

Lampião e Maria Bonita junto com mais nove companheiros foram mortos no dia 28 de julho de 1938 em um combate em Angico no município de Poço Redondo em Sergipe. “Às vezes colocam em textos que Lampião e seu grupo foram dizimados no mesmo dia, mas não é verdade, naquele dia tinham 36 cangaceiros combatendo dos quais 11 foram mortos e 25 se salvaram, só não tinha o Courisco que estava em Piranhas e não havia barco disponível para eles, pois os barcos tinham sido utilizados pela volante”, diz Vera.

Após morte do bando, as cabeças passaram a ser expostas
Antes de Lampião o cangaço era apenas um fenômeno regional, limitado ao Nordeste do Brasil. De acordo com a neta do cangaceiro, o restante do país não se incomodava com o que não lhe dizia respeito. “A presença de Lampião, sua ousadia e seu destemor, fizeram do cangaceiro uma figura de destaque nos noticiários diários do país inteiro, exigindo atenção cada vez maior por parte das autoridades, que se sentiram publicamente desafiadas a liquidá-lo”, conta.

Realidade

Vera diz que Lampião representa o momento de maior importância do cangaço e que foi a partir de movimentos como Canudos e o cangaço que o resto do país percebeu a realidade do sertão. “O movimento do cangaço não era percebido pelo resto do país e a partir do momento em que o Lampião se torna famoso pelos seus feitos, a realidade nordestina passa a ser mais vista, após sua morte não houve mais nenhum movimento que fosse caracterizado pela rebeldia e contestação no Nordeste”, conta.

O mito

Todos atribuem o cangaço à Lampião, mas ele não criou o cangaço, ele seguiu o movimento. Segundo pessoas que conviveram próximo a Lampião, os relatos são de que ele era um homem que falava pouco, era um homem que tratava todo mundo com igualdade e procurava não levantar a voz em nenhuma situação. Segundo a neta do cangaceiro, ele era um homem muito sereno e de acordo com as pessoas que conviveram com ele, era extremamente amável.

“Recentemente lançaram um livro dizendo que meu avô estava vivo até a década de 90, é impressionante como a imprensa desde aquela época adora um sensacionalismo. Tem um colega nosso que era correspondente em Recife, o jornalista Ademar Vidal que escreveu um livro chamado ‘Terra dos Homens’. Este jornalista disse em 1944 que ele mesmo inventava histórias mirabolantes sobre Lampião, pois havia o mito e vendiam muitos jornais dessa forma, as pessoas vieram acreditando nesse mito”, fala.

Preconceito

Vera Ferreira em entrevista ao Portal Infonet
A filha Expedita e os netos de Lampião foram criados em Aracaju, quando crianças, sofriam muito preconceito na escola. Vera conta que na sala de aula ninguém sentava no lado deles. “A gente só ouvia dizer que raça de lampião não presta”, diz.

Vera Ferreira diz que só percebeu a importância e o respeito por Lampião quando saiu de Aracaju pela primeira vez. “Quando eu tinha 13 anos eu fui para São Paulo com a minha mãe a convite da Cristina da Mata Machado que foi lançar um livro e defender uma tese na USP sobre a influência do cangaço no nordeste. Foi a primeira vez que saímos de Aracaju. Quando cheguei no local do evento, eu lembro que tinham umas pessoas estranhas que levantaram no momento em que sua mãe – expedita – entrou na sala. Depois eu fiquei sabendo que era Dadá a ex-cangaceira, Cila, Zé sereno, Dulce, e aqueles homens que eram ex-cangaceiros, tidos como grandes bandidos muitos choraram na frente da minha mãe”, conta e continua.

“A convivência com eles e o tratamento das pessoas conosco lá, a imprensa, universidade era totalmente diferente do que tínhamos aqui. Então eu pensei que meu avô era muito mais do que eu imaginava, foi a partir daquele momento que eu faria um grande trabalho sobre o meu avô”, explica Vera.

Lembrança

Há 13 anos é realizada uma missa pela família de Lampião no local em que o cangaceiro foi morto,  na grota de Angico em Poço Redondo com a presença de familiares e convidados.

No próximo ano será o centenário de nascimento de Maria Bonita que nasceu no dia 8 de março. Por conta disso, Vera Ferreira revela que uma série de programações será realizada. “Vamos lançar um livro comemorativo que estamos preparando em homenagem a minha avó, com depoimentos de ex-cangaceiros que conviveram com ela. Vamos viajar pelo país com uma exposição sobre ela e além da missa que fazemos há 13 anos, vamos ter um seminário sobre o centenário da minha avó lá em Poço Redondo”, informa.

matéria alterada às 17h38 para correção de informações

Por Bruno Antunes

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