Tom Zé fala de seu novo trabalho ‘Estudando a Bossa

0

Tom Zé estará de volta a Aracaju / Foto: Ana Oliveira
Conhecido pela sua irreverência no palco e pela criatividade de suas composições, Tom Zé vem a Aracaju lançar seu mais novo trabalho.  Em ‘Estudando a Bossa – Nordeste Plaza’, o artista apresenta a sua leitura do momento de singular importância para a música popular brasileira: o surgimento da Bossa Nova. Tom Zé estará em terras sergipanas na próxima semana para duas apresentações, a primeira na terça, 25, e a segunda na quarta-feira, 26, no Projeto MPB Petrobras. O show acontece sempre às 21h, no Teatro Tobias Barreto. Para conhecer um pouco do novo trabalho de Tom e saber quais as suas impressões sobre a Bossa Nova, estilo que completa 50 anos, o Portal Infonet publica uma entrevista com o artista. Confira.

Depois do samba e do pagode agora é hora de estudar a bossa. Que elementos comuns você encontra nos três gêneros e o que mais os diferencia?

Tom Zé – Comuns são o útero e a negritude fértil. As  diferenças são os compartimentos sociais nos quais foram geradas. Cada compartimento, com sua escolaridade  diferenciada, pôde manejar diferentes quantidades de bits, diferentes níveis de sofisticação, mas em todos está presente a grande força da consubstancia negra brasileira.

Você desconstrói e recria alguns dos principais elementos característicos da bossa nova? Quanto desse trabalho é homenagem e quanto é observação crítica sobre o gênero?

TZ – A desconstrução  a que você se refere tem duas faces: revela, ao mesmo tempo, que estou em 2008, mas também mostra que 2008 não é 58, nem política nem esteticamente. Em segundo lugar, mostra que uma intervenção praticada em qualquer gênero, por mais divino que este seja, contém, ainda que de maneira profana, as idéias forjadas na saga, nos estudos e na ousadia do verme que contempla a estrela. Neste caso, na enxada rústica do meu estro…

Há quem diga que a bossa sempre trabalhou com clichês como o banquinho, o violão, o mar, o amor e a flor. Esses clichês são verdadeiros? Eles são fundamentais para identificar o gênero ou a bossa vai muito além?

TZ – Atualmente há na FAU – faculdade de arquitetura e urbanismo de SP – uma disciplina chamada “conforto”. Os  primeiros shows de BN eram realizados em escolas, muitas vezes com o artista colocado, visualmente, no mesmo nível de altura da platéia. O banquinho compensava o  problema e proporcionava  conforto para  para que o público visse o cantor.  O violão  foi o instrumento com o qual João Gilberto criou a principal característica do estilo: a batida, a levada. Já o mar, o amor, a flor, eram o pigmento de um rio que mostrava ainda certos resquícios de bucolismo, com um eros que baldeava o sangue daquela juventude brilhante. Hoje, com nossas crises e pessimismo, pessimismo aliás, cuja gênese nem precisamos atribuir a nenhuma crise, embora insista encher diuturnamente o saco, podemos chamar de clichê, que fazer?

Foto: André Conti
Em ‘O Céu Desabou’ você aborda o fim da era do rádio com o advento da bossa nova. A bossa era o moderno, os cantores de rádio, o antigo, ultrapassado. Esses conceitos hoje se embaralham. É possível dizer quem é mais moderno, João Gilberto ou Orlando Silva? Nara Leão ou Dalva de Oliveira?

TZ – Sempre me comoveu, com alguma dor e até saudade, o terremoto inimaginável que caiu, da noite para o dia, sobre todo aquele elenco de grandes cantores e cantoras, paixão da vida brasileira,  que  nos auditórios superlotados da Rádio Nacional, Tupi, Mayrink Veiga, encantavam a nação. De repente o céu desabou!  Só se queria saber da BN. Só se falava de BN. Para eles, até então monarcas instituídos, foi um pesadelo. Um enterro precoce. Porém com a BN a nação mostrou sua fome pelo protótipo, pela aventura  sublime da invenção. Pelo sonho de sentir um país pobre impondo ao mundo admirado uma nova linguagem.

Há quem diga que o melhor de Niterói é a vista do Rio de Janeiro. No entanto, você saúda Niterói como “o amor do Rio”. Para você, a ponte foi verdadeiramente um ato de amor ou pura construção funcional?

Irreverência no palco é a marca do artista / Foto: Ana Oliveira
TZ –
Como engenharia é assunto duro para canção criei uma situação romântico-mitológica entre Rio e Niterói para uma das canções. Esta defende a tese de que foi a BN quem inspirou a engenharia a resolver o problema da ponte. A BN fez, com notas musicais, alturas relativas e síncopas (acentuação no tempo fraco), o que a engenharia fez depois com ferro, aço e concreto: as plataformas flutuantes-sincopadas, frágeis ao sabor das ondas, femininas como a BN, porém suficientemente fortes para portar o pênis gigantesco, o linga cósmico que foi capaz de  estuprar o solo profundo da baía da Guanabara e  construir as fundações da ponte-rio Niterói.

A
bossa nova nasceu no Rio e o tango na Argentina. O contrário seria possível? Como seria a música brasileira sem a bossa nova?

TZ – Um  acontecimento forte, um protótipo como a BN, reverbera como ondas concêntricas na vida da nação, em todos os campos e atividades profissionais, energizando invenções, tiradas, contornos, insights, provocacões. Mudaram as revistas, mudaram as roupas, transformou-se o inverno do procedimento social. Ela mudou a confiança conferida ao Brasil pelo exterior, influiu no comércio internacional. Nasceu e cresceu um novo tipo de turismo. Imagina aí, cara, um Brasil sem nada disso. Considere que quando a BN inventou o Brazil nossa capital era Buenos Aires (também bela e querida), e a política dos coronéis e caudilhos exercia-se em plena idade média.

Há quem diga que João Gilberto é o pai da bossa nova. Outros dizem que ela tem três pais: Tom, João e Vinícius. E quem seria a mãe da bossa nova? E seus filhos mais ilustres?

TZ – Cada um dos três  forma o mistério dessa santíssima trindade chamada bossa nova.


Fonte: Divulgação

Comentários