Vanessa da Mata: a moça de Joãozinho no cabelo

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Moça de Joãozinho no cabelo / Corre quando começa a chover / Olha só vai enrolar / O cabelo encolher. Os versos são cantados pela matogrossense Vanessa da Mata, uma mulher de cachos bem definidos e uma voz doce. Nascida em Alto Garças, Vanessa saiu de casa cedo, aos 14 anos, e passou a viver em pensionatos, compondo e aprendendo a arte da música. Hoje, ela está em Aracaju, para uma apresentação no Teatro Tobias Barreto.

 

Longe de ter uma vida maravilhosa, da Mata sofreu, aprendeu e dessas lições encontrou a força para fazer melodias suaves, inteligentes e que contemplam a realidade. “Escrevo muito, amo escrever. Ando sempre com bloquinho e caneta. Assim nascem minhas músicas”, disse. Voz doce, composições inteligentes que retratam a vida de maneira simples.

 

Abaixo, um pouco do que representa Vanessa da Mata, apenas um simples retrato da grande cantora:

 

PORTAL INFONET – Como se dá o processo de composição de suas música?

Vanessa da Mata – Eu componho compulsivamente. Sempre ando com bloquinho e caneta porque se der vontade… (risos). Hoje, eu dei um tempo neste processo, no momento estou me concentrando apenas nos shows. Compor para mim funciona como um processo de observação.

 

INFONET – Você praticamente estourou há pouco tempo. Como é a sensação de se tornar tão conhecida do dia para a noite?

VM – (Risos) Estourou? Acho tão estranho esse negócio de estourar. Parece que a pessoa se desintegrou. Bom, falando sério. Eu não fiquei famosa da noite para o dia: há muito tempo que eu venho trabalhando e cantando. Agora, quanto à sensação, eu não sei, por exemplo, se um homem bonito me olha na rua porque está me paquerando ou porque eu estou famosa (risos). Só posso dizer que ainda há muito o que conquistar. Não me considero essa pessoa tão famosa.

 

INFONET – A principal causa de tantos elogios decorre do fato de que você produz canções profundas, com letras que fogem do tradicional. Por quê?

VM – Eu procuro sair do padrão, procuro fugir das escolas de música, do que já está institucionalizado. Passei muito tempo morando sozinha, saí de casa aos 14 e fui morar em pensionato. Lá, tive a chance de aprender e de criar meu próprio estilo. Quanto às letras, como eu saí de casa cedo, também sofri muito e utilizei essa experiência em minhas letras. Queria escrever aquilo o que meu universo dizia que era profundo e romântico.

 

INFONET – O que você acha das comparações com outras cantoras?

VM – Já me compararam a Clara Nunes, Maria Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte. Teve gente que chegou ao cúmulo de mandar Maria Rita se cuidar porque eu estava chegando. Isso é um absurdo. Eu não quero competir com ninguém. Sempre quis ser original, mas as pessoas têm essa mania de rotular. Eles não vão dizer: ‘olha, a Vanessa tem a voz doce, um timbre mais assim’, eles vão querer me comparar porque é mais fácil. Agora, fico muito lisonjeada quando alguém diz que eu pareço com uma grande cantora. Isso é um elogio.

 

INFONET – Você já ouviu falar da produção cultural em Sergipe?

VM – Não. Sergipe é um Estado do qual eu não ouço falar muito em termos de música. Acho que a produção musical e seu reconhecimento tem muito a ver com a auto-estima da população. Olhe só o povo baiano: não tem aquela história de que baiano não nasce, estréia? Então. Eu, quando saí de minha cidade, sabia que no Mato Grosso não iria sobreviver de música. Infelizmente as grandes gravadoras estão localizadas no sul do país. Tem muita gente boa escondida por aí.

 

INFONET – Os festivais de música seriam uma solução para a descoberta de novos talentos?

VM – Festival não funciona mais como antes. Creio que aquele era um momento muito particular, de luta contra a ditadura. O problema de se fazer festival hoje é que muita gente chega com aquelas músicas elitizadas que ninguém consegue entender, só os próprios compositores. Conseguir ser descoberto ainda é uma coisa de pessoa que conhece outra pessoa e indica.

 

INFONET – Do que você mais sente falta na música de hoje?

VM – Do folclore, do popular, do local, dessa coisa que vocês têm aqui no Nordeste. O problema é que Cultura ainda é a 11ª coisa mais importante na vida de alguém. No Brasil, a gente precisa primeiro ter o que comer, depois ter como pagar a escola dos filhos, se vestir, para só então pensar em Cultura.

 

INFONET – O que você acha a respeito da pirataria?

VM – Pergunta difícil essa (risos). Primeiro, eu sou de uma grande gravadora, depois, eu venho de uma cidade que nem loja de CD tem, onde tudo o que chega é pirata… E então…?

 

INFONET – Neste CD, qual sua música preferida?

VM – Acho que é “Ela x Ele na Cidade sem Fim”, que foi a que eu mais participei ativamente. O que eu quis mostrar com a música é essa cultura do descartável, de uma geração em que o outro é descartável, em que o amor é assim. Se algo estiver com um pouco de problema, eu simplesmente jogo fora ao invés de tentar consertar.

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