Vixe, deu Shakespeare na caatinga!

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Espetáculo resgata a forte tradição da Cavalhada (Fotos: Fabiana Costa/Secult)
Na próxima sexta-feira, 28, acontecerá na Praça Fausto Cardoso, às 17h, a montagem do espetáculo Romeu e Julieta na versão em cordel. Adaptado pela dramaturga Virgínia Lúcia da Fonseca Menezes, o espetáculo é encenado na caatinga do semi-árido sergipano, mais precisamente na cidade de Gararu, às margens do rio São Francisco, e mergulhar no imaginário popular aqui representado pela Cavalhada, manifestação folclórica do ciclo natalino, composta de disputas de destrezas e habilidades entre dois times de cavaleiros, um verde e outro vermelho, onde os cavaleiros disputam para ver quem acerta maior número de argolas de madeira numa lança.

Em tempos áureos, a Cavalhada foi forte tradição cultural da cidade, resgatada agora com a 
montagem do espetáculo pelo Grupo Oiteiros. A tragédia romântica de Shakespeare ganha cores quentes nos versos bem rimados que relembram a influência ibérica para a cultura nordestina e em

particular, do sertão. A história de dois jovens apaixonados, separados um do outro puramente por caprichos e preconceitos de seus familiares, numa saga de lutas sangrentas e desencontros que culminam com a morte precoce dos dois amantes, e de alguns de seus amigos. 

Na montagem do Grupo Oiteiros, que adquire uma forte tendência regionalista, os dois apaixonados se encontram numa noite de Cavalhada, onde a disputa serve como pano de fundo da tragédia romântica de Shakespeare, na versão em cordel. O amor acontece no momento em que Romeu – do cordão verde, representando a família Montecchio – acerta a argola e vence o Conde Páris, que por sua vez é representante do cordão vermelho, da família rival, os Capuletos.

A partir daí, toda a tragédia amorosa, magistralmente escrita por Shakespeare, se desenvolve e ganha força na narrativa dramática das Moiras, personagens mitológicas que simbolizam aquelas que mandam no destino: a primeira é a que escolhe o destino; a segunda, a que mede e determina o tempo do destino; e a terceira Moira é a que corta, interrompendo o tempo e levando a vida para a morte. Numa verdadeira tessitura da vida.

Essa montagem “contemporaneapopularatemporal”, assinada pelo diretor teatral Raimundo Venâncio, mostra concretamente que o texto de Shakespeare, escrito em mais de cinco séculos, segue atual e refletindo como nunca a realidade em nosso cotidiano, pois fala de algo incomensurável e universal, que é o amor.

Oiteiros

O Grupo Teatral Oiteiros surgiu dentro do Grupo Cultural Arte Viva que atua a dois anos na cidade de Gararu, após ter sido contemplado com o Edital do Minc. na Ação Microprojetos Culturais – Funarte/MinC 2010. Iniciou sua trajetória nas artes cênicas, com um projeto que partiu de uma oficina de iniciação teatral, até chegar à montagem do espetáculo Romeu e Julieta. O grupo é composto por jovens de uma comunidade do município, e tem a finalidade de fomentar o resgate e incentivo a cultura local, bem como promover a cidadania e motivar o protagonismo juvenil.

Espetáculo

O espetáculo também apresenta uma composição de seus elementos estéticos, justapostos livremente pelo diretor, com utilização de músicas da MPB, como “luminados” de Ivan Lins e Vítor Martins, “Quando te Vi”, de Lennon e McCartney – Versão Beto Guedes, e “O que é o Amor”, de Danilo Caymmi e Dudu Falcão. Esta composição eclética construída de forma tão intencional e ao mesmo tempo intuitiva por Raimundo Venâncio, transforma a encenação de Romeu e Julieta, de Gararu, numa obra profundamente atemporal e ao mesmo tempo universal, sem fronteiras.

O figurino é também criação de Virgínia Lúcia, com execução do Artista Plástico e Diretor Teatral Adônis Diniz. A preparação de Corpo e Voz fica por conta da Atriz, Cantora e Compositora Tânia Maria. Romeu e Julieta, na versão para o cordel de Virgínia Lúcia, combinada à direção de Raimundo Venâncio, na interpretação simples e despretensiosa dos jovens catingueiros do Grupo Oiteiros de Gararu, é uma síntese poética, uma obra que traduz esforço coletivo pela concretização do belo.

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