“A hora do empreendedorismo” – por Jorge Santana de Oliveira (*)

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A proliferação de cursos preparatórios para concursos públicos em todo o país tem revelado um fenômeno que deve preocupar as lideranças empresariais, visto que os melhores talentos jovens já entram hoje nas universidades com um projeto de vida pré-concebido: seguir carreiras de Estado, buscando a segurança e os altos salários proporcionados a magistrados, auditores fiscais etc. Isto significa que grande parte desses talentos, que poderiam partir para o empreendedorismo abrindo seus próprios negócios e gerando trabalho e riqueza, podem vir a ser desperdiçados na máquina pública, normalmente dispendiosa e ineficaz.

Estudo conduzido Global Entrepreneurship Monitor (GEM, Relatório 2004) demonstra que o percentual de brasileiros empreendedores chega a ser 50% superior à média mundial, tendo como principal motivação a falta de oportunidades de trabalho, mas isso não tem sido suficiente para atrair os já referidos jovens talentosos. A elevada taxa de mortalidade infantil das empresas (cerca de metade delas não atingem o segundo ano de vida), indiscutivelmente desestimula a iniciativa empreendedora, evidenciando um risco de insucesso assustador.

Não há dúvidas que essa taxa de mortalidade se deve ao ambiente de negócios hostil a que são submetidas as micro e pequenas empresas, caracterizado pelo binômio formado pela excessiva carga tributária e insuportável burocracia. O Brasil é um dos países campeões mundiais nesses quesitos, impondo um sistema tributário injusto, uma legislação trabalhista senil e uma burocracia cartorial retrógrada. Nesse particular, a aprovação da Lei Geral das Micro e Pequenas Empresas, mesmo não sendo a lei dos nossos sonhos, representa um significativo avanço na direção da minimização desses obstáculos ao surgimento, crescimento e fortalecimento dos micro e pequenos negócios no país.

O mesmo estudo da GEM aponta como dificuldades para o crescimento do empreendedorismo na América Latina as limitações das instituições que apoiam a atividade empreendedora; a ausência de políticas públicas eficazes para o fomento ao empreendedorismo; os excessivos tributos e custos trabalhistas; as limitações de acesso a capital; a dificuldade de acesso a tecnologias apropriadas e a mercados internacionais; e a grande necessidade de aprimoramento das habilidades gerenciais e de acesso a serviços de consultoria.

Em contrapartida, o estudo destaca as vantagens da região: o avanço democrático em vários países abrindo espaço para uma mudança estrutural que priorize o papel dos pequenos empreendimentos no desenvolvimento econômico local; a possibilidade de ampliação da consciência dos governos quanto ao seu papel na criação de condições que favoreçam o crescimento econômico e social através do empreendedorismo; as condições para que as empresas maiores e mais estruturadas do setor privado também estimulem a atividade empreendedora, através de disseminação de conhecimento e tecnologias, capacitação de fornecedores, fomento à constituição de arranjos produtivos locais (práticas cooperativas entre empresas de uma mesma cadeia produtiva); e a crise econômica que vem marcando a região nos últimos tempos proporciona a abertura de novos nichos de mercado, com a demanda por produtos e serviços se dinamizando e os consumidores estando receptivos a produtos inovadores.

No capítulo da promoção da cultura empreendedora o Conselho de Jovens Empreendedores (CJE) da Associação Comercial e Empresarial de Sergipe (ACESE) tem desempenhado papel relevante, agindo deliberadamente junto a estudantes do ensino médio e superior na efetiva difusão do empreendedorismo. Na promoção da educação empreendedora junto a crianças e jovens em idade escolar, merece destaque o trabalho da ONG Junior Achievement, que também opera em parceria com a ACESE, SEBRAE e diversas outras entidades e organizações.

O fato é que a atividade empreendedora, sobretudo por meio dos profissionais liberais e dos micro e pequenos negócios, torna-se componente fundamental em uma política de desenvolvimento integrado e sustentável, garantindo muito maior eficácia do que as questionáveis práticas assistencialistas.

 

(*) Presidente da Associação Comercial e Empresarial de Sergipe

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