Empregada doméstica representa Sergipe em conferência de Genebra

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Sueli Maria: “Até hoje não temos nossa jornada de trabalho”
“Quando eu coloco os pés aqui na porta, sei que tenho que fazer o que a minha patroa quer. Ela é a dona da casa e é com essa linha de raciocínio que tenho trabalhado muito tranqüila há 23 anos na mesma casa”. A afirmação é da presidente do Sindicato dos Empregados Domésticos de Sergipe, Sueli Maria de Fátima Santos, que estará representando o Estado de Sergipe a partir do próximo dia 30 de maio em Genebra, na Suíssa, durante a 99ª Conferência Internacional do Trabalho.

Sueli tem 57 anos, dois filhos e um neto. Trabalha como empregada doméstica desde os 12 anos e com a família da advogada Zelita Correia, já está trabalhando há 23 anos. Como ela mesma se define, é uma guerreira, uma lutadora pelos direitos da categoria.  “Conheci a drª Zelita no Conselho da Mulher, ela representando a mulher advogada e eu a mulher trabalhadora. Foi quando ela me convidou para trabalhar e aí surgiu essa

“Olhar com seriedade”
parceria baseada no respeito e no diálogo”, conta.

Indagada pela reportagem do Portal Infonet sobre a novidade em participar de uma conferência internacional, Sueli Maria não pensou duas vezes: “é novidade não. É luta. Há muitos anos luto por benefícios para os empregados domésticos. No último dia 17 de abril eu participei do Seminário Regional dos Trabalhadores Domésticos, em Brasília e em seguida, recebi a informação de que meu nome apareceu entre as 20 delegadas brasileiras que estarão na conferência de Genebra. Pensei em desistir para não me ausentar do trabalho por quase 15 dias, mas minha patroa me liberou dizendo que não devo deixar passar essa oportunidade”, relata.

Sueli faz palestra em Brasília sobre os direitos dos empregados domésticos
Sem jornada

Quando a entrevista parte para os direitos da empregada doméstica, Sueli comprova porque foi escolhida para participar do evento em Genebra. Experiência no assunto não lhe falta e muito bem explicada ele lembrou que desde 1988, na mudança da Constituição Brasileira, que foi feita uma injustiça com a categoria do empregado doméstico.

“O artigo 7º assegura todos os direitos, exceto para os trabalhadores domésticos. Todas as categorias estão lutando pela redução da jornada de trabalho sem redução de salário. O empregado doméstico até hoje não tem a jornada de trabalho. E ainda tem quem critique o índice de escolaridade baixo. Se tivéssemos a nossa jornada definida, teríamos tempo para estudar”, acredita.

Delegação brasileira no seminário de Brasília em abril de 2010
Ela destacou que “ainda por cima veio o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), opcional, obrigatório em outras categorias. A gente discorda do argumento do empregador de que o doméstico não gera lucro e que se derem todos os direitos, o desemprego vai crescer. E como seria a vida das mulheres que possuem uma atuação brilhante em todas as áreas de trabalho, se não tivessem as empregadas domésticas para executar os serviços? Então a gente gera lucro sim”, entende.

Necessidade

“Já foi o tempo em que trabalhadores domésticos eram considerados luxo. Hoje passou a ser uma necessidade. Na conjuntura econômica, não tem condições de a mulher sair para trabalhar, sem que haja uma pessoa para cuidar da casa, dos filhos. O trabalho doméstico não vai acabar”, ressalta destacando não ser difícil conciliar a luta pela categoria e o bom relacionamento no emprego.

Conferência

É a primeira vez que o trabalho doméstico entra no tema de uma conferência internacional. A presidente do Sindicato dos Empregados Domésticos de Sergipe vai levar uma bagagem recheada de experiências.

“Eu espero fazer com que haja um olhar com mais seriedade voltado para os direitos dos trabalhadores domésticos. Quero chamar a atenção que somos uma categoria profissional e como profissional temos os mesmos direitos que os demais trabalhadores”, enfatiza acrescentando estar tranqüila para debater no evento que será realizado até o dia 18 de junho pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), Unifen (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher) e apoio do governo brasileiro por meio da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres.

Estatísticas

Relatório da OIT revela que os trabalhadores domésticos representam uma proporção importante da força de trabalho dos países em desenvolvimento, representando um contingente de 4 a 10% do total de pessoas empregadas nesses países. Nos 18 países analisados, as mulheres são a maioria dessa categoria de trabalhadores (entre 74,2 a 94,1% do total).

No Brasil, segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) em 2008 a categoria das trabalhadoras domésticas representava 15,8% do total da ocupação feminina, o que correspondia, em termos numéricos, a 6,2 milhões de mulheres. O maior contingente era o das mulheres negras: as domésticas eram 20,1% das mulheres negras ocupadas. Para o conjunto formado por mulheres brancas, amarelas e indígenas, o trabalho doméstico corresponde a cerca de 12,0% do total da sua ocupação.

Em Sergipe, já são 560 empregadas domésticas filiadas ao sindicato da categoria [fundado em 1992 e filiado à Federação Nacional dos Trabalhadores Domésticos], cujas reuniões são realizadas na sede provisória [Casa da Doméstica]. “A procura por filiações tem aumentado e nós lutamos por amor, com a finalidade de ver a categoria crescer”, finaliza Maria Sueli.

Por Aldaci de Souza

 

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